quarta-feira, 15 de outubro de 2014

A Verdade sobre o aborto

Hoje li no jornal que uma operação policial prendeu 57 pessoas por aborto no RJ.
Um dos "médicos" envolvidos tem uma conta na Suíça com U$5 milhões.
Foram apreendidos R$555 mil reais em dinheiro, além de máquinas de sucção, carros etc.
A notícia toma meia página do caderno "Metrópole" do jornal "O Estado de São Paulo" e, quase ao final da notícia, é também informado o fato de que as mulheres não foram denunciadas no inquérito e a polícia solicitou para elas o "perdão judicial".
Pois bem.
A mensagem geral da notícia é a do horror dos "locais sem condições mínimas de higiene e salubridade, expondo a integridade física e a saúde das mulheres" e a malignidade dos "médicos", entre eles uma fulana que teria praticado 6.352 abortos.
O que me deixa realmente boquiaberto é a completa cegueira moral da sociedade em relação a esses casos.
Mais uma vez, como tende a acontecer no mundo contemporâneo, inaugura-se um tipo de maniqueísmo, um dualismo em que, de um lado, figuram santos, imaculados, bondosos e vitimados e, do outro, indivíduos malignos, soezes, enganadores etc.
Nesse caso concreto, as clínicas de aborto, com todo seu aparato, seriam demoníacos antros de perversidade, enquanto as mulheres, que as procuram para o louvável ato de matar fetos, seriam seres bondosos, ingênuos e imaculados, enganados pela perfídia do demônio que se manifesta nas clínicas.
O pedido de "perdão judicial" manifesta bem essa visão dualista.
Vemos esse mesmo maniqueísmo nas questões políticas. Os políticos são uns demônios pérfidos, vindos diretamente do inferno para atormentar o povo. O povo, em contraposição, é santo, bondoso, trabalhador, honestíssimo, moralíssimo, vitimado pelo governo etc.
O caso do aborto deve ser declarado com todas as letras para que ninguém se engane por romantismo barato.
Mulher que aborta é homicida. Só não mata com as próprias mãos por inabilidade. Então, é mandante do ato e também partícipe.
Mulheres: Se v.sas. abrirem as pernas e fizerem SEXO VAGINAL sem preservativo, correm o risco de engravidar, além de pegar AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis (Hepatite C, Sífilis etc.). É muito difícil compreender isso?
Se a sra. quer dar para qualquer um (QUALQUER UM MESMO, porque o homem que engravida uma mulher e depois permite ou estimula o aborto é um lixo humano, é qualquer um, é um bosta etc.), tenha em mente que é preciso encapar o órgão sexual do sr. 'qualquer um' para que um feto não tenha a infelicidade de habitar seu ventre e correr o risco de ser esquartejado por um fórceps ainda lá dentro. Não é possível que essa tão "complexa" lição seja tão difícil de ser entendida. Sendo assim, se a sra. quer ser imoral e sair fazendo sexo por aí com qualquer lixo, pelo menos assuma a responsabilidade MÍNIMA de fazer seu parceiro usar preservativo.
A grande realidade é que vivemos em uma sociedade que é habitada por gente cada dia mais imoral.
As pessoas não assumem responsabilidade alguma pelos próprios atos. Tudo é atribuído a causas externas, daí o crescimento exponencial de religiões que vivem culpando ao Diabo e aos demônios por toda merda que seus fiéis fazem, uma forma tosca de "aliviar" a consciência de quem não assume nada do que faz.
Uma determinada mulher é imoral, vai para o baile funk e faz uma verdadeira orgia, engravida, muitas vezes sem nem saber de quem, e, obviamente, não está nem aí para aquela vida que teve a infelicidade de começar em seu ventre. Não quer assumir, porque "não vai ter mais vida própria" se tiver que cuidar da criança ("vida própria" quer dizer sair dando por aí, ir aos bailes da vida, fumar baseado e cheirar pó com as amigas, beber até cair, virar a madrugada na rua etc.) Então, a solução é ir ao "médico" e mandar matar o próprio filho. Sim, matar o próprio filho é um jeito de poder continuar putanhando livremente.
Isso não é dito com todas as letras por aí porque é "feio" e "ofensivo". Bonito é ser vadia e matar o feto com uma bomba de sucção, arrancando-lhe os pedaços. Então, se arrumam milhares de desculpas furadas sobre a "situação social" e as "dificuldades" em se criar um filho em situação de pobreza. Tudo mentira e papo furado.
As merdas que procuram um abortista pagam de R$1000 a R$7.500 por um aborto. Ou seja, para matar e arrebentar elas dão um jeitinho e pagam. Não é com dinheiro produzido pelo Satanás que os abortistas ficam milionários. É com dinheiro das "pobres vítimas" que dão um jeito para pagar pelo assassinato dos filhos.
Se não têm condições para ter filhos, que os evitem. Não é meio óbvio? O governo distribui camisinha de graça para o povo meter à vontade. É difícil ir ao posto de saúde pegar?
Minha avó por parte de mãe era uma camponesa analfabeta. Meu avô, marido dela, era um lenhador. Viviam em um casebre dentro de uma fazenda cujo dono era o empregador do meu avô. Eles tiveram dez filhos. Todos experimentaram, em algum grau, o que é passar fome. No entanto, ninguém foi abortado e ninguém virou ladrão ou criminoso. Milagre? Não, não, só VERGONHA NA CARA.
Aliás, acho que o que anda faltando ao mundo é isso, vergonha na cara.
Hoje em dia o negócio é ter como "modelo" às personagens vagabundas cantadas pelos funkeiros e funkeiras. Aquelas que querem ter o "grelo" mamado, que só querem saber de "ostentação" ou que gostam de "pica" que tem "dona" ou ainda as que "na cama esculacham" etc.
A mulher que se expõe a uma clínica clandestina de abortos faz isso por sua livre, espontânea, IMORAL E CRIMINOSA VONTADE. Não é "vítima da sociedade", não foi "enganada" e nem é a coitadinha da vez. É mandante de assassinato, assassinato de quem não tem a mínima chance de se defender ou sequer de reclamar. Ela mata porque não quer assumir a responsabilidade pelos próprios atos, só isso. Todo o resto é balela, é papo furado de sociólogo de esquerda que quer teorizar sobre o nefando, numa tentativa pífia de torná-lo aparentemente menos nefando.

Nota:  Art. 5º, IV da Constituição Federal: é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; VI: é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgia; VIII: ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei; IX: é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
Art.220. A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição.
Declaração Universal dos Direitos do Homem: 
Artigo 18°
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos.
Artigo 19°
Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Questão de conduta

Cada dia mais, percebo que a sociedade não sabe com muita clareza o que é ter conduta adequada.
Sendo assim, partilho com os leitores alguns pontos que, a meu ver, são óbvios, mas que, infelizmente, parecem ser bastante misteriosos para a população em geral, inclusive para aquelas pessoas que deveriam zelar por um maior rigor pessoal, justamente por se julgar que tenham tido acesso a algum nível de educação e de cultura.
Aí vão:

- Se você prometeu alguma coisa para uma data, cumpra. Se não foi possível, NÃO ESPERE QUE LHE PROCUREM PARA PERGUNTAR O QUE HOUVE. Adiante-se, procure a pessoa e se explique. Tome o cuidado para não descumprir novamente sua palavra depois desse primeiro incidente. Ficar prometendo sem cumprir faz com que as pessoas parem de confiar em você.

- Se você marcou um horário, simplesmente respeite esse horário. Ao marcar para as 20:00, não quer dizer 20:15, 21:00 ou 19:30. Quer dizer, especificamente, 20:00.
Se você perceber que vai se atrasar, avise com alguma antecedência (se estiver em um local distante 40 minutos antes do horário marcado, calcule que é possível que vai se atrasar, contando o tempo que levará para chegar). Não ligue às 20:15 avisando que vai se atrasar para o horário das 20:00.
Uma das coisas mais desagradáveis que existe é aguardar pessoas retardatárias.
Da mesma forma, se for se adiantar demais (mais de meia-hora), ligue avisando e pergunte se é possível chegar um pouco mais cedo. Se não for possível, faça hora em algum lugar até dar o horário combinado. A pessoa não tem culpa se você se adiantou.

- Evite dizer para alguém que vai fazer alguma coisa se você não vai fazer em tempo hábil. Não diga que "tudo bem" para depois ir enrolando até cair no esquecimento. Isso é falta de consideração e mostra que você não é confiável.

- Não pergunte demais sobre as particularidades das pessoas. Se você não tem intimidade com alguém, não se meta no que ela trabalha, em quantos filhos tem, se mora no bairro x ou y, se frequenta o restaurante tal ou qual...Se você quiser, dê essas informações sobre si mesmo e espere que ela faça o mesmo. Mas, não force. Se ela não quiser lhe dar maiores informações ESPONTANEAMENTE, respeite.

- Até que haja autorização FORMAL, todo mundo é SR. e SRA. Só se permita usar "você" se a pessoa for sua amiga mesmo. Aqui cabe uma observação: Colega de trabalho não é amigo, superior hierárquico não é amigo, subordinado não é amigo, o balconista não é amigo, a garçonete não é amiga. Amigas são as pessoas que mantêm com você relações que vão além das funções executadas em ambientes comuns a ambos.

- Não visite alguém sem AVISAR. As pessoas podem não estar em casa, podem estar ocupadas com outras coisas ou, simplesmente, podem não estar querendo receber sua visita naquele momento. Ligue, mande um e-mail, uma mensagem, enfim, use os meios à sua disposição.

- Quando fizer visitas, não as alongue em demasia. As coisas boas, se são breves, são duplamente boas.

- Não force ninguém a fazer o que essa pessoa não quer. Se você acha o máximo fazer uma "festa surpresa", comunique isso aos seus amigos. Assim, se eles quiserem lhe agradar, farão uma festa desse tipo para você. No entanto, se a pessoa não gosta desse tipo de coisa ou se nunca manifestou gostar disso PUBLICAMENTE, não se arrisque a fazer ou forçar alguém a "gostar" da tal festa. É uma tortura para quem não gosta. A pessoa se sente violentada a fingir que gosta só para não ser grosseira e você sairá como uma amaríssima lembrança na vida dela.

- Respeite as convicções das pessoas. Não se meta a fazer gracinhas se alguém é vegetariano ou gosta de comer algo que você não gosta. Simplesmente feche sua linda boca e não faça comentários dietéticos à mesa.

- Controle seu histrionismo. Muita gente não aprecia risadas altas no ouvido, gritos, expressões exageradas de euforia ou palhaçada excessiva. Tenha bom senso.

- Se você não está em um debate ou em um local adequado para embates ideológicos (universidade, instituição religiosa, seminário etc.), não abra a boca para falar de religião, política e temas polêmicos. A chatice de quem faz isso é aliada à total falta de senso de utilidade. Você não vai convencer ninguém do seu ponto de vista debatendo em meio aos pedaços de bolo de aniversário e nem no meio de almoço de confraternização. O que você vai conseguir é ser visto como o "espalha roda".

- Não seja o Dr. Explicadinho, aquele que quer tudo explicado nos míííííínimos detalhes. Se a pessoa lhe narra uma notícia genérica, do tipo falando que alguém ficou doente nos EUA, não queira saber em que Estado foi, em que hospital a pessoa está internada, qual é o quadro dela após passar pela cirurgia, se a cirurgia era mesmo necessária etc. Se você se interessa tanto assim, busque depois pelas informações adicionais, mas não atormente alguém que só está dando uma notícia genérica e não lhe fazendo um relatório profissional.

- Controle sua ansiedade. Se você estiver perto de alguém que está executando algo, não pergunte a cada 3 segundos o que a pessoa está fazendo ou o que vai fazer. Isso quebra a concentração da pessoa. Espere um pouco e logo você saberá.

- Desestimule a fofoca. A fofoca é lamentável entre senhoras, entre homens é simplesmente ridículo.  Disque-me-disque, telefone sem fio, passar informações o tempo todo ou ficar ansioso por receber as "novidades" da vida alheia é um comportamento que revela profunda pobreza intelectual.

- Controle seu tom de voz. Se você está num restaurante, a mesa ao lado não precisa ouvir toda sua conversa. Muito menos o outro lado do salão. 

- Ao se sentar à mesa ou ao se encontrar com amigos, desligue o celular. É uma falta de educação terrível olhar para o celular enquanto come e/ou conversa.

- Tome cuidado com os temas que introduz em uma conversa. Você pode adorar colecionar dinossauros de plástico e classificá-los de acordo com as novas descobertas arqueológicas, mas nem todo mundo aprecia isso. Você pode ser um gênio do fliperama, mas há pessoas que não se interessam nem um pouco pelo tema.

- Não corrija as pessoas em público e nem fique insistindo se elas tropeçarem em alguma palavra. Se a pessoa fala "poblema", "probrema", "pobrema", "degrais", "menas", "foi uma perca" etc., seja elegante e finja que não ouviu.







Rito mágico x Rito budista

P. Arya,

Acho difícil separar um rito mágico de um rito religioso. As duas coisas são quase iguais.
No caso budista, como você faz essa diferenciação? Como dizer que um rito é supersticioso e mágico e o outro é religioso e ortodoxo?

Abraço!

R. Excelente pergunta.
Um rito supersticioso é aquele em que se perdeu o correto objetivo e o correto significado religioso, mesmo que revestido de elementos religiosos genuínos.
Por exemplo: Um monge que executa o Rito do Fogo Sagrado (Gomá), ainda que o execute de forma ritualisticamente  perfeita, querendo atingir finalidades materiais, trazer sorte, saúde, proteger pessoas de serem vítimas de roubos, assaltos etc., pratica um rito supersticioso. 
Isso é "magia", ou seja, é tentar controlar forças que supostamente dominariam os fenômenos desagradáveis, através da manipulação de objetos, palavras e visualizações.
O mago é supersticioso. Ele acredita que os objetos, os gestos e as palavras têm poderes de manipular a realidade invisível, de subjugar as forças da natureza ou de controlar espíritos etc., sendo que, na verdade, tudo isso é inútil.
Da mesma forma, quem se coloca diante do altar budista recitando mantras ou saudações (Namu Myoho Renguê Kyô, Namu Amida Butsu, Namu Daishi Henjô Kongô, Namu Dengyô Daishi Fukuju Kongô etc...) por um número determinado de vezes ou de horas, achando que isso vai trazer alguma solução objetiva para qualquer questão, está praticando magia, está realizando um rito supersticioso, sem nenhum efeito real e, pior, cometendo uma falta contra o Dharma.
O Ensinamento do Buda é uma prática diária, um trabalho de aperfeiçoamento pessoal, um esforço consigo mesmo, uma ascese no sentido de nos melhorarmos, de refinarmos nossa conduta moral, de melhorarmos a qualidade de nossos pensamentos, de nossas palavras e dos nossos atos. Não é um amontoado de rituais mágicos ou de salamaleques úteis para impormos nossa vontade egoísta.
Quando praticamos qualquer rito budista, temos que ter em mente que o objetivo de tais práticas é o de fortalecer as raízes do Dharma que já estão em nós e plantar novas sementes dhármicas, de maneira que, cada vez mais, estejamos firmes nos ensinamentos de Buda.
Mesmo com isso em mente, é preciso ter cuidado para não nos deixarmos levar pela tentação de magia. Se acharmos que, para fixar um determinado ensinamento, temos que recitar 3x um mantra, fazer 3 prostrações, acender 3 palitos de incenso e, depois, dar 3 voltas em volta de uma stupa, já estaremos caindo na magia...Não há uma fórmula mágica, fixa e infalível, para obtermos uma compreensão mais profunda dos ensinamentos. Cada pessoa é diferente e, o que realmente importa, é a sinceridade e o esforço da busca.
O Grande Mestre Zhiyi ensinou que, assim como todas as coisas são transitórias e condicionadas, também as formas do Dharma são transitórias e condicionadas. Cabe aos intérpretes e aos exegetas adaptar tais formas para que o Ensinamento de Buda se atualize e faça sentido para o tempo e o lugar em que é pregado, sem apegar-se em demasia aos detalhes das formas transmitidas.
Em outras palavras, em vez de se preocupar em comer com palitinhos, adorar a imagem X em vez da imagem Y, dar 3 voltas em sentido horário, fazer a prostração no sentido x-y, pegar o anel do kasaya com o dedinho ou recitar em chinês, o importante mesmo é fazer com que a MENSAGEM do Dharma chegue às pessoas de maneira que faça sentido para o tempo em que elas vivem e para os costumes do lugar. Toda a preocupação excessiva com as formas sempre acaba em superstição e magia...


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O grande esvaziamento

Chamo de "grande esvaziamento" ao fenômeno de esvaziamento religioso-doutrinário do Budismo, retirando sua seiva vital e conservando-lhe apenas a casca exterior.
Imagino-o como algo semelhante a empalhar um animal. O animal está morto, nele não há sangue, não bate mais o coração, não respira, não tem vitalidade, está inerte...Então, preenche-se-lhe o corpo com substâncias artificiais, colocam-se enchimentos inertes nas cavidades, se detém o processo de decomposição dos tecidos externos e, dessa maneira, o animal se transforma em um enfeite de mau gosto.
No caso do Budismo não é difícil observar isso.
O que se tem e se pratica como "budismo" hoje em dia, de maneira geral, é uma casca de costumes e superstições. Não há mais o elemento genuinamente religioso, não há mais comprometimento ideológico, não há o envolvimento integral com a mensagem, com o espírito do Dharma. Acabou-se o desejo de vivenciar, de agir de acordo com a mensagem, de corporificar os ensinamentos dos sutras. O que sobrou é a conservação, deficiente e, muitas vezes, de mau gosto, das aparências, das superficialidades, de costumes populares e de instituições mecanizadas, engessadas, preocupadas em se retro-alimentar, sem um objetivo religioso genuíno definido.
No caso do Budismo, chamo de 'objetivo religioso genuíno' a busca pela Iluminação, o acúmulo de Sabedoria, a manifestação clara e inequívoca de profunda modificação pessoal como fruto da prática do Dharma.
Não se trata de raspar a cabeça, vestir mantos ou aparentar cara de sábio. Se trata de uma reforma completa da pessoa, a adesão firme aos preceitos, uma moralidade e uma ideologia que gravitam em torno do eixo Dharma e anti-Dharma. Obviamente incluo aí o acréscimo de erudição relativa ao Dharma, que possibilita, cada vez mais, uma opção consciente pelo que é do Dharma e uma oposição decidida contra o anti-Dharma.
A grande massa de instituições budistas de hoje não oferece qualquer objetivo religioso genuíno, tratando, apenas, de oferecer cargos, títulos, posições ou rituais para objetivos muito diversos de buscar a Iluminação ou transcender as próprias limitações em busca de transcendência.
Em países como o Japão, a completa ausência de qualquer identificação com o Budismo na vida das pessoas é algo impressionante. Os templos funcionam apenas como locais onde se busca por graças, favores, proteções ou onde se vai para cumprir uma obrigação social. A mensagem religiosa mesmo, a idéia de que a religião influencia no pensamento, na ação e que deve ser mesmo o eixo em torno do qual gravitam preferências, idéias, posicionamentos etc., simplesmente não existe. Em outras palavras, para o japonês o Budismo não existe. Só existe como uma formalidade, como ritos que garantem coisas materiais ou o livram de infortúnios e dissabores. Não como ideologia, não como modus vivendi, não como algo que realmente faça diferença em sua visão de mundo e escala de valores.
O indivíduo faz meditação sentada, recita o nembutsu ou reza para Amaterasu com os mesmos objetivos, ou seja, obter sorte e proteção. Para ele, sacudir o guizo pendurado na porta do santuário xintoísta, fazer uma reverência na frente da igreja de São Paulo Miki e seus companheiros mártires ou acender incenso em um templo budista, jogando umas moedas na caixa de ofertas depois, é a mesma coisa. Tudo isso "dá sorte"...
Para grande parte dos taiwaneses é algo bem parecido. O sujeito tem um bar onde vende carne e bebidas alcoólicas. Ao mesmo tempo, em cima do balcão, há imagens de Avalokitesvara, Amitabha, Maitreya e adesivos com a invocação de Amitabha. Quando ele vai ao templo, veste sua túnica e pede proteção, saúde e prosperidade. Mas, para ele, em seu limitadíssimo arcabouço mental, não há nada de contraditório, de profundamente hipócrita, de quase demoníaco...
Nem os sacerdotes nem os fiéis percebem o esvaziamento porque, para eles, tudo está "normal". Nasceram em um ambiente assim, aprenderam a agir assim, viam seus pais e avós mergulhados na mais profunda ignorância em relação ao Dharma, tudo não passando de um amontoado de idéias confusas e sem relação clara entre si.
No caso dos "budistas" brasileiros, o grande esvaziamento é também ocasião para se utilizar um novo "recheio" exótico. Não sendo conhecedores do Dharma, não buscando estudar os sutras, não se esforçando para realmente compreender a mensagem religiosa e filosófica do Budismo, adotam parte das formas exteriores que lhes são transmitidas pelos asiáticos, inclusive as mais estúpidas superstições, e, onde sentem alguma deficiência ideológica, a preenchem com as mais variadas, antagônicas e descabeladas doutrinas, de acordo com o próprio gosto, não importando o quão anti-Dharma elas possam ser.
Diante desse quadro se explicam os "budistas comunistas", "budistas psicologistas", "budistas abortistas", "budistas feministas", "budistas sexistas", "budistas hippies", "budistas Foucault", "budistas New Age", "budistas teosofistas", "budistas maconheiros", "budistas etílicos", "budistas perenialistas", "budistas kung fu", "budistas ninja", "budistas USP" e assim por diante.
A maioria mistura alguns desses recheios em seu boneco oco de "budismo", preenchendo-o na proporção que acham mais adequada aos próprios pendores.
Essa mistura também se reflete na tosca adaptação das formas exteriores. Com maiores dificuldades que os asiáticos para conservarem as formas cerimoniais e mesmo dos objetos de prática, fazem uma emulação grotesca, mulamba e bizarra das formas que receberam. Se não têm, por exemplo, uma estátua digna de Buda, metem no altar qualquer coisa, uma boneca de brinquedo com um pano enrolado, por exemplo, para lhe fazer as vezes. Se não têm um incensário, usam um penico ou uma escarradeira que estiver à mão.
Isso reflete, exatamente, esse estado de espírito de esvaziamento, de 'tanto faz como tanto fez', de brincar de religião e de substituir aquilo que não se tem com facilidade por algo que esteja ali, ao alcance imediato.
O budista asiático adora um animal empalhado. O brasileiro, um boneco de plástico que imita o animal empalhado.
Eu prefiro continuar com o Leão dos Shakya, bem vivo e saudável, a orientar minha vida.


quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Budista Tradicionalista

P. Bom dia Arya Dharmananda!

Por gentileza, o sr. poderia explicar, de forma bem geral e didática, como podemos definir um budista tradicionalista?
Pergunto não só no aspecto da prática budista em si, o que o sr. deixa bem claro em todos os seus textos doutrinários, mas sim na postura, no modo de se relacionar com os outros e por aí vai.

Muito obrigado!

R. Podemos dizer que o budista tradicionalista é alguém que:

- Conhece bem o nível de decadência, de heresia, de caos, de imoralidade e de desordem ideológica promovidos pelas instituições pseudo-budistas e, em contraposição, conhece o que é realmente o Dharma, com sua ordem, sua lógica, sua beleza, sua moralidade e seus métodos.

- Ama o Dharma e a ordem harmônica à qual ele conduz livrando o homem das trevas da ignorância e revelando a verdadeira natureza da realidade.

- Odeia o caos, as mentiras, as desordens e a decadência aos quais o anti-Dharma conduz.

- Baseado nos ensinamentos do Sutra Mahayana do Nirvana, ele faz do seu amor pelo Dharma e do seu ódio pelo anti-Dharma, um eixo em torno do qual giram seus ideais, seus gostos, suas atividades e, sobretudo, sua prática.

O budista tradicionalista não participa de atividades heréticas,  não faz concessões ideológicas e não se dobra diante de heréticos ou de suas doutrinas. Ao contrário disso, ele repreende e denuncia os erros desmascarando-os de maneira integral, desmascarando suas manifestações, mesmo as que aparentem inocência ou insignificância.
Por sua fidelidade aos ensinamentos, e como está previsto no Sutra do Lótus, é muitas vezes atacado, desprezado e ridicularizado, no entanto, mantém-se firme, de pé entre as ruínas de um mundo decadente.

Declaração sobre aquecimento global, ecologia etc.

Ao contrário da imensa maioria das instituições budistas anti-tradicionais, a THIRB não apóia, não subscreve e não divulga fantasias esquerdistas com finalidades políticas ocultas.
Justamente por conta disso, cabe esclarecer que:

1) Nós não endossamos a farsa do “aquecimento global”.
O “aquecimento global” é um mito sem embasamento científico. Não passa de estratégia utilizada para alarmar a opinião pública e pressionar países economicamente desenvolvidos a reduzirem sua produção tecnológica e industrial.
“Não há evidência científica convincente de que a liberação humana de dióxido de carbono, metano ou outros gases-estufa está causando, ou será causa num futuro próximo, de aquecimento catastrófico da atmosfera da Terá e desestabilização do clima da Terra.”
Essa afirmação foi assinada por nada menos que 31.478 cientistas norte-americanos.
Os catastrofistas deveriam ler a “Declaração de Leipzig”, a qual denominou os drásticos controles climáticos  de “advertências doentes, sem o devido suporte científico”
Também há  o “Apelo de Heildelberg, assinado por 4000 cientistas, dentre os quais 72 ganhadores do Prêmio Nobel em suas áreas de pesquisa.
No Brasil, há cientistas renomados que contestam essa instrumentalização de uma pseudo-ciência patrocinada por interesses escusos.
Um deles, o Professor Luiz Carlos Baldicero Molion, formado em Física pela USP, com doutorado em Meteorologia pela Universidade de Wisconsin e pós-doutorado na Inglaterra, foi diretor e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e leciona atualmente na Universidade Federal de Alagoas, em Maceió, onde também dirige o Instituto de Ciências Atmosféricas (ICAT), simplesmente destruiu a tentativa de “confirmação científica do aquecimento global” feita por um programa de televisão.



2) Nós fazemos uma clara diferença entre vegetarianismo ético e ecoterrorismo.
Há uma imensa diferença entre vegetarianismo ético e o ecoterrorismo que tenta, de forma irracional, instrumentalizar o vegetarianismo e arregimentar grupos fanáticos para adotarem uma ideologia esquerdista em bloco.
Já há, até mesmo, os que dizem ser “indissociável” o pensamento esquerdista do vegetarianismo...E esses, obviamente, são aqueles promotores da imagem do vegetariano como um tipo de paspalho meio hippie, que anda com roupas sujas, mal composto, barba por fazer, indisciplinado, apoiador do consumo de maconha e outras drogas...Desgraçadamente, os meios vegetarianos estão cheios de representantes dessa espécie que, inclusive, fazem o “favor” de afastar pessoas com bom senso e racionalidade de uma possível adesão à dieta vegetariana.
Obviamente, a esquerda se utiliza habilmente desses indivíduos para promover idéias que prejudiquem o agro-negócio e,  também, faz de tudo para que se misture terminologicamente  a agricultura com a pecuária de corte...
O crescimento do agro-negócio tem a ver com o implemento de melhorias no plantio e na produção de alimentos. Se tivéssemos um agro-negócio mais bem desenvolvido também teríamos mais opções alimentares sem matança...É uma ilusão achar que esse primitivismo no campo, advogado pelos comunistas verdes, é benéfico à causa dos animais e dos vegetarianos. Os silvícolas são o maior exemplo disso. Não dispõem de tecnologia para a produção de alimentos e, portanto, vivem de uma insípida agricultura primitiva e da caça de animais...Da mesma forma, na Índia pré-ariana, os drávidas tinham muito menos tecnologia agrícola, plantavam muito menos e, como conseqüência, matavam muito mais...Achar que o quilombola, o índio e o sem-terra "respeita" a vida dos animais é pura ilusão. É justamente o contrário. Eles matam o tempo todo e, como não têm tecnologia para produção, optam pelo "mais fácil", ou seja, a matança. Diversos casos de invasões de terra seguidos de matança de animais para o “churrasco” do MST têm sido noticiados pela mídia.
A expansão do vegetarianismo passa pela melhoria na produção e na qualidade de alimentos não cárneos. Justamente o contrário do que dizem os comunistas verdes e ecoterroristas.
O que devemos nos preocupar em apoiar e estimular é o direcionamento da produção de grãos, vegetais e derivados para o consumo humano. Se houvesse um implemento nesse sentido e se, através disso, os lucros obtidos da venda dos alimentos vegetais dobrasse ou  triplicasse através de uma maior demanda, haveria estímulo econômico crescente para a diminuição dos rebanhos de abate, diminuição da "pastificação" (o que aumentaria as áreas úteis de plantio) e uma indústria cada vez mais focada na produção de alimentos vegetarianos.
O ideal é que se chegasse ao ponto de equilíbrio, em que a matança de animais se tornasse desnecessária para a economia devido ao alto nível de satisfação dos consumidores em relação aos alimentos vegetarianos.
Em outras palavras, é muito mais fácil ser vegetariano em um país rico e desenvolvido, onde há prateleiras com 30 ou 40 opções para substituir a carne, do que numa titica de um país não industrializado, onde as pessoas ou comem carne ou comem mandioca...


quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Recomendações eleitorais aos budistas

Budistas!
Votar em quem apóia o aborto é apoiar a quebra do Primeiro Grande Preceito.
Votar em quem apóia a liberação das drogas é apoiar a quebra do Quinto Grande Preceito.
Votar em quem apóia campanhas sexistas, movimentos que promovem a imoralidade, o despudor, a exibição pública de ato ou preferência sexual etc., é apoiar a quebra do Terceiro Grande Preceito.
Quem apóia a quebra do Preceito, quebra-o também.
Os sutras dizem: "encorajar outros a matar, matar por meios hábeis, louvar a matança", "negociar com intoxicantes, encorajar outros a fazê-lo...não criar causas, condições, métodos ou karma para a venda e consumo de qualquer intoxicante que seja, pois os intoxicantes são causas e condições para todos os tipos de ofensa" e "engajar-se em atos licenciosos ou encorajar outros a fazê-lo".
Ao dar seu voto a qualquer candidato ou candidata que apóia essas condutas, você estará TRAINDO o DHARMA e criando um karma negativo gigantesco. Quem vota em quem aprova essas ações está encorajando tais ações e, portanto, quebrando os preceitos.
Não se deixe enganar. Não promova uma sociedade ainda pior e não faça com que o karma negativo da nação aumente e venha bater em sua porta.
A lei do karma é impiedosa. Contra ela não há recurso possível. 
Ao entrar na cabine de votação, PENSE BEM NO QUE VAI FAZER. Ao apertar as teclas, sua ação está completa e as sementes kármicas foram lançadas. O amadurecimento delas é só questão de tempo.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Discurso de ódio x Liberdade de expressão

"Discurso de ódio" é mais um chavão da esquerda que tem chic e elegância.
Na real não quer dizer coisa nenhuma.
O ódio, por si mesmo, não é "discursável", tendo em vista que as sensações, em si, não são expressas por palavras. As palavras descrevem a sensação apenas de maneira aproximativa, tentando trazer à memória dos outros uma representação de sensação semelhante.
Tomás de Aquino define o ódio como uma forma dinâmica de tristeza. Assim como posso descrever os efeitos da tristeza e/ou agir tristemente, também posso descrever os efeitos do ódio e/ou agir de forma irada, odienta.
Exemplo: Se tenho dor, descrevo a dor como "pulsante", "latejante", "cortante", como se fosse um "aperto", "fina", "ardida" etc., tentando fazer com que o outro, utilizando a memória, tenha uma representação mental aproximada do que estou tentando dizer. Não há como representar a sensação com exatidão. Também é impossível representar sentimentos dessa forma. Se sinto amor, descrevo-o como "grande", "enorme", "amplo", "sufocante" etc., mas não consigo ter, propriamente, um "discurso de amor".
Nem uma declaração de amor é, propriamente, um discurso de amor. É uma elegia, em que se elogiam as virtudes e qualidades do ser amado, dando os motivos do sentimento que tal ser desperta no apaixonado declarante.
Posso descrever os efeitos do amor nas minhas ações, mas não posso despertar em outros o amor que sinto através dessa mera descrição. Da mesma forma, não consigo incutir no outro a dor que sinto ou fazer com que ele compreenda, de maneira completa, a extensão e as particularidades dessa dor.
Se a esquerdinha estudasse um pouquinho mais de Filosofia Escolástica, não diria essas baboseiras que vive dizendo. Se o zé-povinho fosse um pouquinho menos ignorante, não engoliria, todo santo dia, esse monte de merda.
Ter ódio é sentir aversão e raiva de algo. Essa aversão pode ser justificada por argumentos, mas não é uma causa, ao contrário, é o efeito.
Exemplo: Tenho ódio de alguém como efeito de uma ação ou omissão, real ou atribuída, mas não tenho ódio anterior à causa. O ódio é efeito, não causa.
Um "discurso de ódio" seria algo bastante interessante e quebraria todas as leis da lógica mais elementar. Em vez de descrever as causas pelas quais alguém odeia (que seria um discurso descritivo de ações ou omissões moralmente odiáveis dentro de um determinado sistema, portanto um discurso moral e não um "discurso de ódio"), o discurso principiaria por descrever a sensação do ódio em toda sua extensão, mostrando que as causas vêm depois do efeito...
Em outras palavras: Eu odeio porque odeio. Odeio suas ações porque são suas, e não por elas serem, em si, más e condenáveis. Odeio você independentemente de suas ações e odeio suas ações pelo ódio que sinto de você...
Isso seria, simplesmente, um raciocínio circular, sem sentido algum...
A expressão "discurso de ódio", por mais estapafúrdia e sem definição que seja, pegou e virou o chavão da nova censura, a censura do "politicamente correto".
Quando os movimentos "engagé" falam o que querem, aí é "liberdade de expressão". Quando alguém discorda, aí é "discurso de ódio".
Se você concorda com todas as pautas e agendas políticas desses movimentos, você é livre para expressar seus sentimentos, seus pensamentos e tem "liberdade de consciência" mesmo que seja para enfiar o crucifixo no ânus em praça pública (como fizeram na tal "Marcha das Vadias"). Se você não concorda e tenta raciocinar sobre as causas pelas quais não concorda, aí é "discurso de ódio" e você não tem mais o direito de se expressar.
Se um evangélico, por questão de crença religiosa, condena a prática homossexual, é discurso de ódio. Se um partícipe de um movimento gayzista diz que vai "pegar em armas" para "matar esses desgraçados" (os evangélicos), aí é liberdade de expressão.
Mulheres nuas e pintadas podem interromper cultos religiosos aos berros, podem tentar atacar o papa, podem ficar nuas e histéricas no meio da Praça de São Pedro ou podem acender velas na Av. Paulista para pedir a liberação do aborto. Tudo isso é pura, puríssima, liberdade de expressão. Invadir a catedral de Notre Dame de Paris berrando pelada é liberdade de expressão. Fazer panfletagem pedindo aos católicos que se manifestem contra o aborto é discurso de ódio e merece pedradas e achaques (como aconteceu recentemente em Curitiba).
Se um pastor evangélico, baseado no livro sagrado de sua religião, disser que a relação sexual entre dois homens ou duas mulheres é pecado, é "discurso de ódio". Se um gayzista disser que o papa é um "genocida em potencial", aí é liberdade de expressão.
Já li várias vezes em redes sociais o novo slogan da mordaça: Discurso de ódio não é liberdade de expressão.
Obviamente que ninguém define o que é, propriamente, "discurso de ódio" ou no que ele difere da livre expressão do próprio pensamento ou da liberdade de consciência, prática e expressão religiosa. No entanto, esse chavão é repetido várias e várias vezes, como uma fórmula para justificar o pretenso direito de impedir o incômodo discordante de falar e se expressar.
Agora, em vez de simplesmente mandar o outro calar a boca porque eu não quero que ele fale, basta jogar o tal do "discurso de ódio" na jogada e isso te livra automaticamente de ser considerado um censurador da consciência e da palavra alheia. Pelo contrário. Como você "ama demais" a liberdade, vai impedir seus inimigos de a terem também...
Curioso como isso lembra o esquema de politização e padronização da "novilíngua" do clássico 1984.
"Inconsciência é ortodoxia".
Vamos praticar o "crimideter" e impedir as "crimidéias" para não virarmos "impessoas".
Repitam todos: "Discurso de ódio, discurso de ódio, discurso de ódio..."

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Homofobia

Os jornais relataram que um dos candidatos à presidência da República, o sr. Levi Fidelix, teve um comportamento considerado "homofóbico" e que, inclusive, alguns grupos querem a cassação de sua candidatura e mesmo seu aprisionamento graças a algumas declarações dadas em um debate televisionado.
O tema 'homofobia', bem como a utilização desse termo, são bastante recorrentes nos dias de hoje. 
A acusação de 'homofobia' ou o pedido de criminalização da homofobia fazem parte da pauta de discussões da sociedade contemporânea.
Parece-me também que entre as instituições ditas budistas há grande preocupação em não mostrar-se "homofóbico" e de ter (e demonstrar enfaticamente) opiniões de acordo com o "politicamente correto".
Tendo em vista o relevo que o tema ganha hodiernamente, resolvi estudar um pouco sobre o assunto e compartilhar com os leitores algumas constatações e reflexões interessantes advindas de minhas pesquisas.
Primeiro, fui pesquisar sobre a definição de fobia.
Dos diversos manuais e dicionários de psiquiatria que consultei, a definição é sempre bem parecida:


Fobia: Reação de evitação; transtorno fóbico, neurose fóbica; histeria de ansiedade. Fobia é um tipo de transtorno de ansiedade que consiste em medo excessivo, irracional ou imoderado, sugerido pela presença ou pela antecipação de um objeto ou de uma situação específica. Exposição ao estímulo fóbico quase invariavelmente provoca uma resposta de ansiedade imediata, que pode aumentar para um ataque de pânico. A fobia é mais que medo, entretanto, pois o objeto ou a situação temidos devem ser evitados ou podem ser tolerados apenas com sofrimento marcante, devido à resposta de ansiedade ou ao ataque de pânico que ela provoca. (Campbell, Robert J. Psychiatric Dictionary, 2004)

A fobia é um transtorno de ansiedade.
Transtorno, de acordo com os mesmos dicionários e manuais, é doença, ou seja, um estado alterado de funcionamento do psiquismo que causa sofrimento.
A ansiedade é definida como "Um afeto que difere de outros afetos em suas características desprazerosas específicas. Ansiedade consiste em um lado somático, fisiológico (respiração perturbada, atividade cardíaca aumentada, alterações vasomotoras, distúrbios musculoesqueléticos, como tremor ou paralisia, sudorese aumentada, etc.), e em um lado psicológico. Este inclui "uma atitude interior consciente específica e um estado de sentimento peculiar caracterizado por (1) consciência física e mentalmente dolorosa de ser impotente para fazer qualquer coisa em relação a um problema pessoal; (2) pressentimento de um perigo iminente e quase inevitável; (3) alerta tenso e fisicamente exaustivo, como se diante de uma emergência; (4) auto-absorção apreensiva que interfere na solução efetiva e vantajosa de problemas da realidade; e (5) dúvida insolúvel com relação à natureza do mal ameaçador, à probabilidade do aparecimento real da ameaça, ao melhor meio objetivo de reduzir ou remover o mal à própria capacidade subejtiva de fazer uso efetivo daqueles meios se e quando a emergência surgir" (Piotrowski, Z. Perceptanalysis, 1957)

O primeiro ponto então a se destacar é: Se é "fobia" é um estado mórbido, uma doença e, portanto, não é algo voluntário ou desejado por quem é acometido pela mesma. A mim, isso parece bastante lógico e claro.
Passando à pesquisa do termo 'homofobia' propriamente, é interessante notar como as definições vão mudando à medida que avançam as agendas políticas dos movimentos gayzistas.
As definições mais antigas, fiéis ao princípio de que se trata de uma doença, ou seja, de um transtorno de ansiedade,  traz como definição:  "Medo irracional e persistente de homossexualidade, frequentemente manifestado em reações de raiva extrema para com homossexuais. Ver: Síndrome do Exorcista"
Na entrada "Síndrome do Exorcista" encontramos: 
"Tipo de homofobia expressa em ataques físicos ou psicológicos, ou ambos, a homossexuais. Um exemplo é o espancador de gays que aceita o assédio de um homossexual, faz sexo com ele e, então, o espanca ou até o mata; tal comportamento é frequentemente interpretado como sendo a forma do espancador livrar-se de (i.e. exorcizar) a culpa por sua própria bissexualidade ou homossexualidade latente."

Em publicações mais modernas, as definições vão se tornando cada vez menos claras. Uma das que achei mais genéricas diz: "Atitudes negativas para com os homossexuais e a homossexualidade, refletindo medos e reações conscientes e inconscientes."
Obviamente, não há nenhuma definição clara do que seja "atitude negativa" e nem como essa atitude negativa reflete medo e reações conscientes e inconscientes.
Se eu não simpatizo com um homossexual é uma "atitude negativa"? Sim.  Mas, e se minha antipatia não tem absolutamente nada a ver com a sexualidade dele? Ele poderá me taxar de "homofóbico"? Mas, se fobia é uma das manifestações do amplo espectro do transtorno de ansiedade, onde é que ela se manifesta nessa minha antipatia? E qual a relação de minha "atitude negativa" em relação a um indivíduo determinado com uma fobia específica?
Se uma determinada crença religiosa condena a prática homossexual, mesmo que baseada em pressupostos completamente diversos de "medo e reações conscientes e inconscientes" (como a crença de que o sexo só é lícito para a procriação e que, como a relacão sexual entre indivíduos do mesmo gênero impossibilita a reprodução, obviamente está incluído nas espécies de sexo ilícito), são crenças religiosas "homofóbicas"? Onde é que a fobia entra aí? Os legisladores religiosos tinham medo excessivo, irracional ou imoderado dos homossexuais, caracterizado por uma reação de ansiedade e pânico? E todos os religiosos que adotam tais condutas também têm?
Quando falamos em "criminalizar a homofobia" estamos falando em criminalizar uma doença? Criminalizar um tipo de transtorno de ansiedade? Ou estamos falando em criminalizar todo e qualquer tipo de comportamento considerado "negativo" em relação ao indivíduo homossexual, desde que ele, SUBJETIVAMENTE, se considere vítima de um comportamento negativo e ao qual ele atribui, ainda que erroneamente,  uma causa ligada à sua orientação sexual?
No primeiro caso, criminalizar uma doença seria um completo absurdo. Aquele que sofre de um transtorno mental e age impulsionado por tal transtorno, de maneira irresistível, é inimputável. Isso é verdade para todo e qualquer tipo de crime, tanto é que existem os manicômios judiciais, onde os inimputáveis que representam risco real para a sociedade permanecem internados. No entanto, ninguém vai parar no manicômio por ter ataque de pânico, crise de ansiedade ou se sentir mal e irritado em decorrência de um transtorno psiquiátrico. Para isso existe psicoterapia e remédio. Se é realmente homofobia, é preciso ser tratado como tal, ou seja, doença, não crime.
No segundo caso, onde toda e qualquer atitude negativa relativa ao indivíduo homossexual ou à prática homossexual (mesmo as baseadas em pressupostos filosóficos e/ou teológicos) é taxada de "criminosa", criaríamos uma verdadeira "caça às bruxas", impondo uma terrível censura à liberdade de consciência, expressão e crença, onde o homossexual seria visto como indivíduo inatacável, protegido por uma lei absurda que o isenta de ser objeto de qualquer mínima antipatia, divergência ou oposição, tendo em vista que qualquer ação pode ser taxada como "comportamento negativo" e, subjetivamente, atribuída ao preconceito relativo à homossexualidade ou a uma quimérica "homofobia".
Os debates que eu já assisti sobre o tema se mostram fiéis a grande parte do que acontece hoje em nosso mundo. Desprovidos de qualquer profundidade, eivados de "palavras de efeito", sentimentalismo barato e ausência de clareza e definição.
Pedir a prisão de alguém por que esse alguém disse o que pensa? Isso é censura brava. Já pediram a minha prisão também e sei bem o quanto isso é revoltante.
Criminalizar algo para o qual os defensores da criminalização não oferecem definição clara. Utilizam uma palavra ao léu, sem se preocupar muito com o que ela significa ou, propositadamente, a utilizando de maneira completamente alheia ao seu real significado, esvaziando seu conteúdo e a preenchendo com suas próprias idéias, elásticas, mutantes e intercambiáveis...
Lamentável mundo onde a ignorância impera.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A necessidade de nada fazer

Vivemos em um tempo em que é bonito ser loucamente ocupado.
Ocupado com o smartphone, ocupado com o facebook, ocupado com jogos, ocupado com fofocas, ocupado com papo furado.
As pessoas nunca têm tempo. É preciso trabalhar e, nesse trabalho, é preciso "fazer coisas" o tempo todo.
Se você não "faz coisas", seu trabalho não é trabalho.
Mesmo que você fique ao computador olhando coisas sem nenhuma importância, o importante mesmo é estar ocupado com algo. Pelo menos, você está lá "se ocupando" com a leitura de lixo inútil e a visão de imagens desconexas, uma atrás da outra.
Matamos o tempo para não perceber que é o tempo que nos mata. Aliás, não matamos o tempo nada. Quem morre somos nós. O tempo continua...
O puro pensar, de acordo com o modo contemporâneo e pós-moderno de ver os fatos, é pura "perda de tempo".
É preciso fazer, fazer, fazer...
E quando não houver o que fazer, então, corra para a frente de uma tela, instale um jogo qualquer e atribua a esse jogo uma importância muito grande.  Iluda sua mente com "aventura" que só acontece na tela. Se sinta "guerreiro" sem correr nenhum risco. Seja um sujeito "aventureiro" e faça seu "nome" mostrando aos outros suas incríveis táticas de matar personagens inexistentes e vencer monstros de luz e som...
Use o smartphone como um aparelho do qual depende sua vida e sua morte. Se ele for desligado, é como se interrompessem o funcionamento de seu pulmão artificial ou da máquina que mantém seu coração pulsando.
Ficar parado, pensando, num ócio filosófico...Nem pensar!
Role a tela do facebook para cima e para baixo, revendo tudo que você já viu no dia de hoje. Lamente a falta de "atividade" nas redes sociais.
O mundo pós-moderno é inimigo do silêncio e do ócio. A palavra "ócio" é vista como representante de algo negativo, é a própria definição de "vagabundagem".
A reflexão, o calmo vagar do pensamento sobre questões da existência, voltar as luzes da razão para dentro de si mesmo e daí retirar definições, axiomas, aforismos, idéias, paradigmas etc., é pura "perda de tempo". 
Semana passada me deparei com uma matéria sobre monges usando i-phones, tablets, i-pads, redes sociais, instagram etc. Dizia a matéria que tudo isso é muito positivo, que faz parte da adaptação que um monge esteja postando "selfies" com sua turma num bar enquanto toma cerveja e come petiscos.
A própria definição da vida de um monge não é a ruptura com os padrões impostos pela sociedade secular?  A vida monástica não é um modo de contemplar a Verdade, refletir sobre a própria vida e dar o exemplo de virtude? Não são virtudes próprias do monge o silêncio, a reflexão, o pensamento e o combate às próprias fraquezas?
Silêncio não é só a ausência de som na boca. Silêncio é a ausência de dispersões interiores, é o foco preciso, livre de interferências, livre de ruídos internos e externos...Não adianta nada manter a boca fechada e estar com a cabeça no smartphone ou no tablet.
Não adianta trajar-se como monge e esconder o secularismo por debaixo do hábito.
A sociedade não valoriza o pensamento. O pensamento, com sua natureza intangível, não é um "produto" e,  portanto, não é valorizável por uma sociedade imediatista e consumista. Só se torna um produto quando é instrumentalizado para o ganho e aí aparecem as "palestras motivacionais", a "auto-ajuda" e toda a abominável indústria que tenta fabricar pseudo-líderes para vender coisas e liderar equipes de autômatos para ganhar dinheiro em cima do vazio da vida das pessoas.
No ano passado, fui convidado a palestrar para professores de Filosofia e filósofos do Estado de São Paulo.
Diante de um auditório lotado, com mais de 800 pessoas, falei durante 45 minutos sobre a busca do Bom, do Belo e do Verdadeiro. Falei sobre o papel da reflexão filosófica na construção da personalidade do homem,  falei sobre a idealização platônica como um paradigma em busca de uma perfeição crescente das ações humanas e de como o verdadeiro filósofo deve fazer de sua vida um exercício filosófico, uma ascese demonstrativa de que a verdadeira felicidade se encontra na prática das virtudes e em uma vida simples e contemplativa.
Ao terminar minha fala, o auditório estava mudo. Muitas pessoas cochilavam nas cadeiras. Eu abri a palestra para perguntas e duas pessoas levantaram a mão. A primeira, uma professora, disse que ela própria era um "exemplo de virtude" pois tinha dormido no sofá para não perder a hora daquele encontro, que trataria de questões importantes  como a falta remunerada e o abono de ponto para os professores da rede municipal e estadual de ensino. A segunda pessoa que levantou a mão era um professor. Ele disse que esperava que os temas das palestras fossem mais voltadas para "o social" e para a "realidade" do professorado. Depois deles, o zumbido dos ventiladores no ar.
Na sequência da minha palestra, um professor da rede estadual de ensino fez uma palestra sobre a implantação de um modelo mais socialista de filosofia, onde os alunos seriam ensinados a participar das lutas do "proletariado da educação" e levariam essa ideologia da "luta de classes em todos os recantos da sociedade" para os pais e amigos. Dentre outras idéias, afirmou que o professor que faltasse à aula para "panfletar" ou para se juntar a algum "movimento social" estava "filosofando" e, portanto, não tinha que ter nenhum desconto na folha de pagamento ao final do mês. Quando terminou essa palestra o auditório estava em chamas, com pessoas agitadas levantando as mãos para falar. Mais de 40 pessoas fizeram perguntas, sendo que algumas perguntas inflamaram debates sobre o aumento de salário, o abono de ponto para quem estivesse numa palestra como aquela, o direito de faltar sem ser descontado etc.
Saí de lá com a nítida sensação de ter cantado para uma platéia de surdos.
O que interessa uma "vida contemplativa", a "idealização", os "paradigmas morais", uma "ascese de virtudes", "o Bom, o Belo e o Verdadeiro" etc., a quem só tem mente para relógios de ponto, bater ponto, ganhar abonos salariais e fazer panfletagem?
Os presentes à minha palestra queriam saber de "atividades sociais" e não de contemplação da Verdade. Queriam "fazer" e não ser. Não compreenderam que o filósofo exerce uma ação sutil, de influência, de exemplo e também de reflexão desapaixonada sobre os fatos, de uma voz da razão em meio ao tumulto febricitante dos que querem agir loucamente.
Não são filósofos os socialistas, comunistas, capitalistas, libertários e politiqueiros de todos os matizes que querem instrumentalizar o pensamento em torno de uma causa política. Filósofos são os que amam a sabedoria, que buscam contemplar a Verdade e que, através de seu ócio e das reflexões dele nascidas, conseguem oferecer uma visão límpida e clara sobre os fatos, propiciando, a alguns, um encontro, ainda que breve, com a Bondade, a Beleza e a Verdade.
Nossa sociedade precisa parar um pouco. As pessoas precisam diminuir o ritmo. Os celulares precisam ser desligados e os livros abertos novamente. 
O silêncio, interno e externo, está se tornando um artigo cada vez mais raro e mais precioso.
Temos necessidade de nada fazer. Precisamos de mais gente ociosa e "inútil".

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A "elite" que não é...

Camisa pólo com "brasão" no peito. Mangas apertadas para mostrar os bracinhos de suflê de batata. Há também a versão camisa social, com botões abertos e mangas dobradas. Camisa cara, de pano bom.
Calça jeans ou sarja, com sapato social. 
Mulheres sempre maquiadas, num estilo que lembra sempre o mau gosto de suas contra-partes masculinas. Vestidos curtos, agasalhos com pêlos saltados, bolsinhas etc.
Celular na mão o tempo todo. Gírias "pra frentex" e muitos "meeeeu", "tiiipo assim" etc.
As posições políticas seguem as do que eles consideram "gente diferenciada". Sabe, gente diferenciada?
As velhas senhoras da "gente diferenciada" têm a cara toda cheia de plástica. Andam bem maquiadas, com umas roupas sociais, laquê no cabelo, anéis, colares e perfume. Olham para os outros com um certo ar de desprezo.
Gostam da palavra "snob", acham que soa elegante. A palavra, em si, é uma contração de "sine nobilitas" (sem nobreza), mas é vista por muitos como coisa de muito chic.
A linha "gente diferenciada" é bem comum em certos locais. Locais caros, onde se chega só de carro.
Gente diferenciada frequenta clubes. Não que eles vão lá para treinar forte alguma coisa. Não...Gente diferenciada não treina forte nada. Tudo é só um deleite, um local de conversas e de vida social.
Gente diferenciada gosta de votar no PSDB. 
Apesar do PSDB ser composto por uma turma bem grande de comunistas da velha-guarda, a "gente diferenciada" não faz grandes raciocínios para perceber ligações ideológicas bastante óbvias.
O candidato a vice do Aécio Neves era guerrilheiro e chegou a assaltar bancos. Isso é só um detalhe.
FHC panfletava com o Lula. Outro detalhe.
Serra foi exilado. Mais um detalhe.
Tudo isso não diz nada sobre a ideologia. Nada. Pelo menos, para a gente diferenciada, não diz nada.
O que importa é que o PSDB não tem aquela cara de pobre e nem fica fazendo referência aos pobres. É gente que tem chic, com comitês em lugares que tem chic. 
Apesar deles acharem que têm chic, eles se dizem chiques. Chic é uma gíria para "classe", usada, a princípio, para ridicularizar a burguesia. Ninguém é "chic", ninguém 'é' classe...As pessoas têm classe, ou seja, têm chic...Mas isso é um detalhe que não importa às pessoas diferenciadas.
A gente diferenciada gosta de mostrar seu status. Seu status vem do dinheiro. Eles não lêem muito, não estudam, não cultuam grandes esforços de virtude e nem têm história familiar muito nobre. Em geral, descendentes de mascates, comerciantes e pequenos proprietários que enriqueceram. Mesmo assim, se sentem a "elite".
A imprensa reforça a fantasia de "elite". O discurso desavergonhado do PT e de outros partidos também reforçam a idéia das "elites". No fundo, a gente diferenciada adora ser vista como "elite".
É curioso como  essa "elite" tem verdadeira repulsão por hierarquia.
Todas as vezes que eu convivi com essa "elite", senti nela a repulsa pelo fato de eu ter sangue nobre e por ser cavaleiro da mais antiga casa real da Europa. Eles também não gostam de me olhar como um eclesiástico. Acham isso tudo muito "démodé". Afinal de contas, ando de carro velho, me visto com roupas baratas, não voto no PSDB e não concordo com quase nada do que eles acham muito bom e até essencial.
A falsa elite está por todos os lados. É a "elite" que não é e nunca será...





sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O espírito protestante e o Budismo

O protestantismo histórico nasce, aparentemente, do debate religioso entre as teses de Martim Lutero e a tradição Católica Apostólica Romana.
Depois disso, como um incêndio que se alastra, o espírito protestante toma conta de grande parte da Europa, multiplicando grupos e tendências que iam desde a doutrina de "justificação pela fé" e "predestinação", até os grupos da Reforma Radical que pregavam a necessidade das boas obras para a salvação e a separação entre cristãos "eleitos" e o resto da sociedade.
Exemplo dos primeiros são os luteranos e calvinistas e, dos últimos,  os anabatistas, mennonitas e amish.
Grafo "aparentemente" por entender que, mais que isso, o que deu verdadeiramente impulso ao protestantismo foi o ódio à hierarquia, à tradição e à disciplina imposta pelo sistema clerical.
Ao longo do texto, procurarei justificar minha posição.
Se analisarmos, por exemplo, o Grande Cisma de 1054, quando Roma rompeu com os demais patriarcados orientais, criando uma Igreja exclusivamente "romana", veremos que as divergências relativas à doutrina eram muito mais profundas do que as que separaram Lutero da Igreja Romana. 
Se tomarmos os grupos das chamadas Igrejas Apostólicas Pré-Calcedonianas, como os coptas, etíopes, siríacos e armênios, veremos que ainda há mais profundas e marcadas diferenças com a Igreja Romana. 
Apesar disso, nenhuma dessas divisões doutrinárias causou o impacto social e o furor que o protestantismo causou.
As Igrejas Ortodoxas e Apostólicas Orientais não vendem e nunca venderam indulgências. Não acreditam e nunca acreditaram em purgatório. Não há dogma da Imaculada Conceição. Os padres podem se casar. Não há definição clara sobre "transubstanciação" (termo aristotélico) e se fala em "transmutação" do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, também não há infalibilidade papal ...
No caso das Igrejas Pré-Calcedonianas há divergências cristológicas profundas, ao ponto de serem acusados de "monofisitas" e "monotelitas". A tradição siríaca ordena "diaconisas". Não há consenso em relação ao número de sacramentos e nem diferença clara entre sacramentos e sacramentais.
Como fica evidente, as questões que Lutero coloca como "as grandes questões teológicas" de divergência com Roma seriam muito mais facilmente sanáveis do que as divergências entre tais igrejas orientais e a igreja latina. No entanto, há um ponto insuperável no protestantismo: O ódio à hierarquia e à obediência.
Enquanto as igrejas orientais e a igreja latina mantiveram-se fiéis ao princípio hierárquico, ou seja, de comunidades encabeçadas pelos bispos que, por sua vez, se congregam sob um sínodo que é presidido pelo patriarca ou pelo papa, os protestantes abandonaram toda a estrutura hierárquica óssea e bem ordenada para adotarem um sistema gelatinoso de lideranças carismáticas, onde cada "liderança" é "inspirada" pelos próprios apetites e onde, em uma congregação com 150 fiéis, é possível ter 150 teologias diferentes tendo em vista o "Princípio da Livre Interpretação".
Abandonando todo o patrimônio legado pelo passado, de tradição e exegese, os protestantes inauguram a idéia de "Somente a Escritura" (Sola Scriptura), sem darem maior atenção à correta interpretação da mesma.
Sendo assim, as igrejas protestantes se multiplicam abundantemente, sem necessidade de teologia expressa, de tese de sustentação, de clareza hermenêutica ou de qualquer metodologia exegética. Tudo se resume a "sentir", a receber "inspiração", a "pedir ao Espírito Santo que ilumine" etc.
É necessário afirmar que ainda houve um sério agravante nesse quadro. A emergência do pietismo e do pentecostalismo pioraram sensivelmente esse panorama desolador.
De fato, pentecostalistas e neo-pentecostalistas crêem-se inspirados diretamente pelo Espírito Santo que visita os cultos e fala com eles em sessões recheadas de música alta, gritos, danças, espasmos musculares, fonemas sem sentido, pedidos que variam desde a cura de frieira até a solução de problemas financeiros e amorosos.
Os cultos são completamente irregulares na maioria das vezes. Não há ordenamento litúrgico nenhum, nenhum objetivo determinado, tudo sendo inundado pelo mais primitivo sentimentalismo, pelas ondas de sensações, pela pregação da liderança carismática que conduz o culto como bem entende e de acordo com o que "sente". Tudo é programado para mexer com a emoção e trazer à tona os mais comezinhos problemas como se fossem "questões espirituais".
O papel do Diabo e dos demônios é também muito importante.
O Diabo e os demônios são "expulsos" por que causam doenças, problemas financeiros, familiares, vícios etc. e impedem o pleno gozo da vida.
O papel do mal é subvertido. Se antes o Diabo e os demônios se dedicavam a tentar virtuosos eremitas, na tentativa de fazê-los pecar, apostatar, desesperar da própria salvação e perder a virtude, nos cultos pentecostais de hoje o papel do Diabo é dar dor na coluna, fazer perder o emprego, gerar dívidas, encher a cara e impedir o sujeito de ter casa própria, carro e dinheiro.
Santo Antônio do Deserto (chamado "O Grande") foi tentado por um imenso disco de prata caído no deserto. Os pentecostais são testados ao contrário, já que os demônios os deixam sem nenhuma prata e Deus a restitui a eles como prêmio por suas rezas e clamores.
Não há nenhuma necessidade de doutrina teológica estabelecida nesse meio. O pastor é um "inspirado". A "teologia" pode ser qualquer uma e, de fato, há algumas instituições que vendem diplomas de "teólogo" evangélico e credenciamentos de teólogo e de pastor pela internet. Não importa a igreja, a formação ou seja lá o que for. Títulos de "pós-graduação" também estão disponíveis por módicas quantias. Se o indivíduo desejar, pode ser ordenado em um grande culto que é marcado por essas instituições. Divergências teológicas, enunciados claros etc., não existem.
Há também manuais para "fundar seu próprio ministério". Os fiéis são cativados pelo "carisma" do pastor, ou seja, pela capacidade do pastor em atender as demandas pessoais dos fiéis. Se o pastor não atender essas demandas, é fácil, basta mudar de igreja. 
Os fiéis não vêem no pastor um fiel intérprete ou um guardião do depósito da Tradição. Vêem no pastor alguém que pode lhes conseguir soluções, bençãos, ensinar a lidar com problemas diários e que as faz "sentir" algo ou as inspiram a agir de um jeito que satisfaça suas necessidades emocionais.
É um tipo de xamã, de primitivo curandeiro que entra em contato com forças misteriosas que ele domina e coloca à disposição de sua vontade.
O pastor tem que fazer o fiel "sentir Deus", "sentir a presença do Espírito Santo" etc., sem necessidade de transmitir ou justificar nada com base em coisa nenhuma. A teoria que o pastor ou a igreja propõem é completamente irrelevante e, justamente por isso, é fácil trocar de igreja e se voltar contra um e defender o outro de acordo com as próprias vontades e "inspirações".
Para o Budismo, essa estrutura de pensamento é completamente catastrófica.
A comunidade budista, tradicionalmente, é hierárquica e ordenada em cima de uma estrutura quádrupla: Monges, monjas, leigos e leigas.
Os sutras trazem, abundantemente, as demonstrações de respeito dos discípulos em relação ao Buda. Descobrir o ombro, prostrar-se, juntar as mãos e prostrar-se, circuambular em sentido horário, sentar-se ao lado etc.
Além disso, os sutras estabelecem que os monges nunca devem pregar de um plano inferior aos leigos, que o mestre deve estar sentado confortavelmente enquanto ensina o Dharma e num assento mais elevado que os discípulos. A ordem ao se sentar em uma comunidade varia de acordo com o tempo de vida monástica, e mesmo monges muito idosos devem ceder lugar aos jovens se esses foram ordenados primeiro.
Os leigos precisam se levantar sempre que um monge entre em um ambiente. Se um leigo de 80 anos estiver sentado em um local e entrar nesse local um noviço de 15 anos, o leigo deve se levantar e saudar o noviço respeitosamente. No entanto, se esse noviço estiver em um local e um rei de 80 anos entrar, ele não precisa se levantar.
Na China Imperial, os únicos que não precisavam se levantar e se curvar diante do Imperador eram os monges.  
Os superiores dos templos, os abades (zhuchi 住持), são os "Residentes Portadores do Dharma" e, mesmo que sejam jovens, são denominados de "ancião" (zhanglao 長老). 
O abade é o ápice de uma hierarquia múltipla e complexa nos templos grandes. Nada se faz sem seu consentimento e a ele é devida uma reverência similar a que se deve ao próprio Dharma personificado.
A liturgia budista reflete com clareza sua filosofia. Todas as doutrinas expostas devem estar baseadas firmemente nas escrituras e nas tradições registradas pelos intérpretes ortodoxos (shastras, abhidharma e tratados contidos no cânone), sem invenção, sem "inspiração" e sem nenhuma "livre interpretação". A própria interpretação dos textos deve estar de acordo com métodos exegéticos bem estabelecidos pelos grandes mestres do passado.
Adaptar as doutrinas às necessidades modernas é um trabalho árduo e que deve ser realizado com cuidado e imensa parcimônia, sempre tendo como guia doutrinas bem estabelecidas na milenar tradição.
Comunidades budistas modernosas, que adoram falar em "democracia" ou em que não há uma hierarquia claramente estabelecida, estão fadadas ao caos e a um tipo de reprodução do que acontece nos meios evangélicos-pentecostais.
"Budismo" gelatinoso, sem hierarquia, sem estrutura óssea, onde cada um faz e pensa o que bem entende, onde não há mestres e discípulos, mas "facilitadores" e "palestrantes" em vez de autênticos Portadores do Dharma, não é Budismo.
O famoso fenômeno do "pula-pula", onde pessoas desequilibradas e instáveis pulam de uma organização religiosa para outra, em busca da mandinga mais poderosa, é reflexo desse estado de coisas. Se não há mestre, nem Portador do Dharma, nem cânone, nem base teórica estruturada etc., então não há razão para se estabelecer uma relação firme com o que quer que seja e cada um faz o que bem entende. A pura mentalidade protestante em ação.
No entanto, onde há mestre, onde há Portador do Verdadeiro Dharma, onde há base teórica estruturada, sair dali é o mesmo que trair o próprio Dharma. Virar as costas ao mestre não é desprezar uma pessoa. É desprezar o que aquela pessoa representa, é subverter a ordem adequada da prática em nome dos caprichos, das vaidades, do orgulho e da própria ignorância.
Só se abandona uma Sangha se essa Sangha pregar/praticar heresias, pregar doutrinas não estabelecidas no cânone, praticar clara e indubitavelmente a quebra sistemática dos Preceitos, introduzir doutrinas não budistas ou práticas não budistas na comunidade, se houver impedimentos graves na compreensão do Dharma (língua, costumes etc.) ou se, sendo um praticante do Mahayana, perceber que tal comunidade é pertencente ao Hinayana ou que favorece as práticas Hinayana em detrimento do Mahayana, e ainda se houver a perversão ou a deturpação dos verdadeiros significados do Dharma por uma interpretação equivocada, que não segue o que é estabelecido pela autêntica tradição budista.
Fora desses motivos gravíssimos, abandonar a Sangha é trair a própria tomada de Refúgio nas Três Jóias.
No mundo religioso de hoje as idéias protestantes, com sua explosão de ódio à toda hierarquia e sua insubmissão às tradições verdadeiras, são onipresentes. 
Nos ambientes católicos há a "Renovação Carismática", onde o papel sacramental da hierarquia é substituído pelas lideranças amorfas, pelos animadores e pelos grupos que se consideram a si mesmos como "portadores de carismas" por externarem de maneira emotiva e, por vezes, histérica, seu fervor religioso.
Em geral, pessoas completamente ignorantes em matéria de religião, de teologia, de filosofia etc., se sentem tranquilas em criticar ao Papa, aos teólogos e a quem mais lhes aprouver em suas mesas de boteco ou cervejadas entre amigos.
Em algumas comunidades cristãs ortodoxas orientais, alguns fiéis se sentem bem à vontade para corrigir aos clérigos e até zombar deles, tratando-os como a iguais, sem grandes considerações em relação ao seu estado clerical.
No Budismo, a praga do igualitarismo, do bicho-grilismo e das idéias revolucionárias já corroeu quase todo o edifício, sobrando, aqui e acolá, quiçá, uma ou outra comunidade que se mantém dentro das bases de hierarquia e disciplina.
Se antes os discípulos tomavam pancadas, bastonadas e eram lançados de janelas com reverência pelos mestres, hoje basta uma bronca para que o espírito protestante de insubmissão se manifeste e o orgulho brote como um fluxo de água represado. Não importa que o Dharma seja precioso e que a reprimenda do mestre seja uma valiosa lição. O que importa é o orgulho, a vaidade, o apego ao próprio ego inflado...
O homem moderno parece ter sido infectado por um vírus que o torna frágil, volúvel, romântico, cheio de apreço por uma vaidade estúpida que é ocultada sob o manto do "politicamente correto". Todo o discurso de "respeito ao próximo" tão caro ao homem moderno é, na verdade, um disfarce para sua própria incapacidade de lidar com críticas que firam seu ego de seda.
É preferível não ter nenhum progresso e nenhum auto-desenvolvimento do que ser repreendido. Assim se formam as  sombras humanas do mundo moderno. 
Fistula dulce canit, volucrem cum decipi auceps (A flauta toca suavemente enquanto o passarinheiro apanha o pássaro), já disse Catão.
A natureza é aristocrática, hierárquica e anti-igualitária. Quanto mais se desrespeita esse princípio, maior o caos que se traz para a humanidade.