sexta-feira, 11 de abril de 2014

Tema esotérico: bīja Ā

P.: Prezado Dharmānanda Mahācārya,

Antes de mais nada, permita-me parabenizá-lo por sua erudição, e por sua disposição em compartilhá-la por meio de seu blog e sites.

Ultimamente, venho pesquisando sobre os bījas na tradição budista. Encontrei bastante material sobre o bīja A, em especial no Mahāvairocana Sūtra, além de outras fontes incluindo seu excelente artigo:http://chakubuku-aryasattva.blogspot.com.br/2012/05/terra-pura-do-buda-amitabha.html

No entanto, não consigo encontrar praticamente nada de substancial sobre o bīja Ā.

O sr. saberia me dizer qual é o significado desse bīja (Ā), de uma maneira mais aprofundada?

É exatamente o mesmo que o do bīja A? Também está relacionado a Vairocana?

Desde já agradeço.

abç,


R.: Prezado sr. XXX,


Essas questões mais esotéricas encontram poucas respostas na internet ou em locais mais abertos.
Poucos monges se dedicam a estudar tais questões, se voltando quase exclusivamente só para os rituais.
O bīja Ā tem o significado esotérico de Ākāśa, ou seja, o espaço em todos os seus significados esotéricos.
Há duas ligações importantes com o panteão budista. O Bodhisattva Ākāśagarbha (cujo bija é trāh) e com Avalokiteśvara, cuja primeira sílaba do mantra é o bīja Ā .
Em relação a Vairocana, seu bīja composto (da Mandala do Ventre) ĀMH, que é a composição das características esotéricas essenciais de Vairocana, tem o Ā em seu centro, demonstrando a incomensurabilidade e intangibilidade das manifestações de Vairocana, como o espaço (intangível, ilimitado e todo penetrante). As outras sílabas indicam similitude, limites, ajustamento e consolidação na realidade, ou seja, indicam as circunstâncias da pervasão de Vairocana no mundo Saha.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Sucessão apostólica

P. Arya,

Mais uma vez obrigado por sua resposta.
Gostaria de entender um pouco mais sobre a questão da sucessão apostólica cristã, que você mencionou.
Você poderia me explicar? Assim, talvez, fique mais fácil entender a coisa das linhagens e da mentalidade mágica.

Abraço!

R.: Vou tentar simplificar ao máximo, para abreviar a resposta. 
A teoria cristã é a seguinte:
Deus Pai enviou ao mundo seu filho unigênito, Jesus Cristo, para resgatar o gênero humano do pecado.
Dentro da lógica bíblica, o pecado é resgatado pelo sacrifício. Ao longo de todo o Antigo Testamento o pecado era perdoado pelo sangue das vítimas (animais) que expiavam os crimes sendo sacrificadas no Templo de Jerusalém.
De acordo com essa visão, e para resgatar o homem do primeiro pecado (o pecado original, que manchou no nascedouro todo o gênero humano), o Deus-Pai enviou seu filho unigênito (não dá pra explicar aqui a teoria das hipóstases divinas, pq a resposta vai ficar gigante), Deus-Filho, para se encarnar como homem e oferecer-se em sacrifício cruento por toda a humanidade. Uma vez que o pecado entrou no mundo por um homem (o simbólico Adão), também por um homem (Jesus Cristo), o pecado seria redimido. Sendo assim, Jesus Cristo é o "Novo Adão" e todos os que aceitam sua missão salvífica, confessando seu nome e seu status divino, são redimidos pela graça batismal, que lava a mancha original e faz surgir uma nova-criatura, redimida do pecado e convidada a andar na "graça" divina.
Dito isso, fica claro que, segundo a teologia cristã, depois da morte e ressurreição de Jesus Cristo, inaugurou-se uma nova época da humanidade, ou seja, a era da graça. Antes a humanidade vivia sob o jugo da Lei Mosaica, que exigia, para a purificação, o sacrifício dos animais e a observância das regras do Pentatêuco (Torah). Já na era da graça, o próprio Deus, o Filho-de-Deus, se ofereceu como vítima expiatória perfeita e lavou os pecados do mundo.
Os sacerdotes de antes da redenção operada por Jesus Cristo, sacrificavam animais e os ofereciam a Javé para redimir os pecados do povo. Obviamente, tendo esse tipo de sacrifício perdido o sentido, uma nova classe sacerdotal deveria surgir, os sacerdotes do "sacrifício perfeito da cruz".
Aqueles a quem o próprio Filho-de-Deus nomeou como seus ministros foram os doze apóstolos. Segundo os relatos do Novo Testamento, depois de uma sequência de ensinamentos e relatos miraculosos, o Espírito-Santo (terceira pessoa da Santíssima Trindade) desceu sobre eles e eles ficaram, assim, aptos a transmitir seu ministério divino através da imposição das mãos.
O que se transmite, então, é uma graça especial, um carisma que é infundido na alma do recipiendário e que, foi se propagando, século após século, dos apóstolos até os bispos atuais que, como sucessores apostólicos, têm o poder divinamente instituído de impor as mãos e ordenar validamente novos sacerdotes.
Essa teoria é válida tanto para a Igreja Católica Apostólica Romana, quanto para igrejas independentes que crêem em sucessão apostólica (Igreja Católica Brasileira e Anglicana, por exemplo) e também para as Igrejas Ortodoxas Orientais e Pré-Calcedonianas (Copta, Siríaca, Armênia e Etíope).
Os protestantes históricos (Luteranos e Calvinistas) não aceitam a teoria da sucessão apostólica. Para eles o sacerdócio é compartilhado por toda a comunidade dos crentes no Evangelho, sendo o pastor e presbítero um indivíduo que é escolhido dentre os fiéis para pregar, ensinar e coordenar as atividades da igreja sem que, no entanto, tenha o poder santificador e a "marca indelével" do sacerdócio. Para os protestantes, o sacerdócio de Cristo é dado a todos os fiéis batizados e que crêem em Jesus Cristo.
Na prática, algumas igrejas protestantes acabam atribuindo funções "sacerdotais" aos seus presbíteros e pastores sem que, no entanto, haja uma sustentação teológica muito firme e exata para apoiar essa postura.
Os neo-pentecostais não têm, propriamente falando, uma "Teologia da Ordem", sendo tudo uma questão de como as lideranças carismáticas encaram o tema.
Comparar tudo isso com o Budismo pode parecer maluco, mas algumas escolas pretensamente budistas acham que não é.
Buda nunca pregou uma "graça" ou um "poder" que seria transmitido dele através de seus discípulos. Buda se negou a dizer que era o chefe da Sangha e se negou a nomear alguém para ser o chefe ou sucessor depois que ele morresse. 
As formas de "ordenação budista" variaram muito ao longo dos séculos. Buda não recebeu uma missão divina, não era um ser divino, não tinha a missão de redimir o pecado de ninguém e nunca disse que os monges teriam uma missão santificadora distribuindo "graças" ou sacramentos.
Na mais antiga forma de ordenação monástica budista conhecida, Buda simplesmente dizia ao indivíduo que queria se tornar monge "Ehi bhikshu" (Venha monge!) e mais nada.
As vestes dos monges simbolizam sua adesão aos preceitos e ao modo de vida ascético, não são símbolos do "munus sacerdotalis" e nem dos poderes conferidos pela ordenação.
Espero ter esclarecido a questão!



O Cânone inteiro é válido?

P. Arya, você considera todos os sutras e escritos do cânone budista válido?
As escolas japonesas do período Kamakura têm sim base na literatura canônica, tendo em vista que as obras dos fundadores constam no cânone.

R. A THIRB considera canônicas as obras contidas no cânone CHINÊS, com exceção daquelas que são notórias falsificações japonesas.
Grosso modo, na edição Taishô, do volume 1 ao volume 55.
Algumas obras do "Mijiao-bu"(T.905-T907, por exemplo), que constam na versão nipônica, são falsificações japonesas praticadas por alguns monges da Escola Tendai e Shingon do século IX. As obras sectárias japonesas do cânone Taishô ou Korai, não são vistas por nós como autenticamente canônicas, mas sim obras que foram juntadas às coleções para fins de estudo do Budismo Japonês.
Além disso, nem todas as escolas Kamakura são heréticas. A  Escola de Eizon Shonin, por exemplo, não pode ser considerada herética. A reforma da Kakuban também não.

domingo, 6 de abril de 2014

O real motivo das linhagens alegadas

P.: Arya,

Tenho acompanhado seus textos e, ao mesmo tempo, também acompanho os argumentos de seus opositores em comunidades, listas de discussão etc.
Vejo que eles realmente dão muita importância à questão do reconhecimento e da linhagem, duas coisas que você nega de forma decidida.
Sendo assim, (1) ao que você atribuiria essa importância toda dada às tais linhagens? Aliás, (2) de onde você acha que se origina esse pensamento tão aferrado a uma transmissão histórica?

Obrigado e um abraço!

R.: 1) A importância dada pelas instituições japonesas (as chinesas se importam muito menos com isso) às linhagens se deve, pura e simplesmente, à necessidade de haver alguma legitimação.
Não seguindo preceitos, não tendo referenciais canônicos claros e pregando coisas que nada têm a ver com o Budismo Tradicional (o que está nos sutras e nos shastras), é preciso inventar algum referencial, se apegar a alguma coisa que possa, ao menos, justificar a própria existência. Essa "coisa" é a "linhagem".
Na verdade, tudo não passa muito de mentira e mentalidade mágica.
Mentira porque nada disso tem base factual, histórica. Mentalidade mágica porque as pessoas envolvidas nesses engodos acreditam que "algo" é transmitido através de uma cerimônia. O que é esse "algo"? Não faço idéia. Tendo em vista que o Budismo não tem nenhuma "graça sacerdotal" e nem a "marca indelével sacramental da Ordem" da teologia católica - que seria transmitida por uma "sucessão apostólica" válida (dos bispos) e cujo poder derivaria do próprio deus, na pessoa de Jesus Cristo que teria ordenado os apóstolos, não há o mínimo sentido em se acreditar que a ordenação budista seja algum tipo de raio mágico, graça invisível ou "marca indelével na alma" que teria sido dada pelo Buda Shakyamuni aos seus discípulos e que esses a transmitiriam como os bispos católicos fazem, através de seu poder episcopal conferido pela sucessão apostólica. 
A ordenação budista não passava (e não passa) de um processo de admissão a uma determinada comunidade, feita pela aceitação de uma série de preceitos morais comuns àquela comunidade e não da "transmissão" de um poder, uma graça ou seja lá o que for.
Sendo assim, quem toma os votos de leigo, de sramanera ou de sramana de algum dos códigos morais budistas (Patimokkha, Pratimoksa ou Brahmajala-Sutra) não recebe nenhum poder, nenhuma graça especial e nenhum poder em "transmitir" poderes sobrenaturais. Simplesmente se compromete com uma determinada prática em uma determinada comunidade, só isso.
A única transmissão que há no Budismo é a transmissão do conhecimento dhármico e da correta prática. Isso é feito através da convivência com um mestre dentro de uma determinada comunidade.
O Dharma é corretamente transmitido se está de acordo com os sutras, os shastras e a lógica. Não porque há um alegado "pedigree" vinculado a ele.

2) A origem disso é a quebra de um preceito.
Todo budista se compromete com o preceito de não falar mentiras e não usar fala enganosa.
Quem alega que sua "linhagem" remonta ao Buda Shakyamuni, que há uma cadeia ininterrupta de sucessão, que recebeu "poderes" advindos de iniciações etc., está, pura e simplesmente, mentindo.
Qualquer pesquisa histórica, até a mais superficial, desmonta o mito de uma cadeia de transmissão dhármica ininterrupta. Quem inventou isso, mentiu. Quem forjou falsos certificados para seus mestres, mentiu. Quem tentou atribuir a mestres indianos do passado uma "sucessão histórica" mentiu. Quem sustenta essas lendas, mente. Quem usa isso para se legitimar é mentiroso. Quem escreveu no passado histórias fantasiosas sobre transmissões e iniciações, mentiu. Qualquer instituição que use uma suposta transmissão histórica que remonte ao Buda histórico ou às primeiras comunidades para se legitimar, mente. E mente institucionalmente, ou seja, eleva a quebra de um preceito ao status de política institucional.
Houve inumeráveis falsificações no passado. Há inumeráveis falsificadores também no presente. Budistas de verdade não constroem suas práticas em cima da quebra de um preceito. Budistas de verdade querem encontrar a Verdade, ou seja, não podem alicerçar tal busca em mentiras, sejam do passado ou do presente.






quarta-feira, 26 de março de 2014

A THIRB é budista mesmo?

Esses dias, conversando com um discípulo, me veio à imaginação um insólito diálogo que poderia muito bem acontecer entre alguém curioso sobre a THIRB e um monge de uma ou outra escola asiática das muitas radicadas no Brasil.
O interessado, curioso sobre a confiabilidade dos ensinamentos da THIRB procura, em um templo qualquer, um monge, devidamente reconhecido, e se inicia o interessantíssimo colóquio que passo a reproduzir:

O curioso: -Bom dia reverendo!
O monge: - Bom dia!
O curioso: - Eu queria lhe fazer algumas perguntas sobre um site que vi na internet.
O monge: -Ah, sim, claro...
O curioso: -Na verdade há um site e um blog, de uma tal THIRB...
O monge: -Iiiihhh...
O curioso: -O que foi?
O monge: -Essa é uma seita inventada, não são uma ordem tradicional, séria e reconhecida...
O curioso:-É mesmo?
O monge: - É sim. O fundador é um louco, um auto-ordenado, nenhuma instituição budista séria os reconhece.
O curioso:-É mesmo?
O monge:-Sim, é. Há muitos falsos budismos por aí...
O curioso: -Ah, então eles são falsos budistas?
O monge: - Sim, seguem as invenções do fundador, um auto-ordenado.
O curioso: - Então eles não tomam refúgio nas Três Jóias do Budismo?
O monge: - Tomam sim...Tomam refúgio nas Três Jóias e recebem os Cinco Preceitos de leigo. Os monges recebem os preceitos de Bodhisattva.
O curioso: - E eles inventaram preceitos?
O monge:- Não, na verdade eles seguem os preceitos que há no Sutra Mahayana da Rede de Brahma, e também os preceitos que estão no Sutra do Lótus e do Nirvana...
O curioso: -E eles seguem esses preceitos?
O monge: - Ah, são fanáticos. Seguem os preceitos, interpretam e tentam adaptá-los à realidade de hoje. Querem que todo mundo seja vegetariano, abstêmio e que controle a própria vida sexual com moralidade. Um horror.
O curioso: - E o sr. e sua Ordem seguem os preceitos?
O monge: - Bem, não precisamos disso...Basta recitar o...a frase que nosso fundador recomendou...
O curioso: - Então os senhores não seguem os preceitos? Mas Buda não disse que os preceitos seriam o mestre da Sangha depois que ele morresse?
O monge: - Ah, mas isso é questão de interpretação dos sutras e...
O curioso: - E eles, na THIRB, recitam os sutras? Ou inventam sutras?
O monge:-Ah sim, recitam. Recitam os sutras budistas em português até, porque acham importante que as pessoas entendam o que estão recitando...
O curioso: -E isso é mau? O Budismo não se espalhou por toda a Ásia com as traduções?
O monge:- Bem, sim mas...O caso é que eles são fanáticos e atacam os outros.
O curioso: -O sr. me disse que eles são falsos budistas. Eles tomam refúgio nas Três Jóias, mantêm os preceitos de bodhisattva e recitam os sutras. Então devem pregar alguma heresia condenada no cânone budista, não é?
O monge:-Bem...Eu não conheço muito bem a doutrina deles mas, me parece que seguem o que está escrito nos sutras mesmo...
O curioso: -E eles misturam os ensinamentos budistas com outras religiões? Sei lá, são eternalistas, acreditam em deus, superstições etc.?
O monge:-Não, não...Eles são declaradamente ateus e odeiam superstições. Os textos deles vivem condenando qualquer superstição ou crendice não apoiada na literatura budista...
O curioso:-Eles inventam alguma doutrina sem base nas escrituras budistas?
O monge:-Não, na verdade eles usam as escrituras como justificativa o tempo todo. Mas torcem a interpretação.
O curioso:-E como fazem isso? O sr. sabe então a interpretação correta?
O monge:-Bem, há muitas interpretações possíveis...
O curioso:-Inclusive a deles?
O monge:-Não, a deles é errada...
O curioso:-Não me parece nada aberrante, não há nenhuma perda de nexo muito visível nas interpretações deles...
O monge:-Eles enganam as pessoas...São uma seita!
O curioso: -Então, por qual razão eles são falsos budistas? Por qual razão o sr. disse que é uma seita?
O monge:-O fundador deles é um auto-ordenado! Eles não têm linhagem!
O curioso: -Mas o fundador da THIRB confere os preceitos de Bodhisattva como ordenação monástica, assim como o monge Saichô, o patriarca Tiantai Ming-Guan e outros monges que defenderam esse tipo de ordenação como ordenações monásticas completamente Mahayana. Ele recebeu esses preceitos de uma linhagem chinesa, cujos documentos estão à disposição de quem quiser ver. Além disso, se esse não fosse o caso e ele fosse mesmo "auto-ordenado", seria como patriarca do Tiantai Huisi que, segundo o próprio Saichô, era um auto-ordenado. 
Mesmo nunca tendo pisado na Índia e mesmo tendo se auto-ordenado, se considerava discípulo direto de Nagarjuna, por ter absorvido seu conhecimento através do tratado de Nagarjuna chamado "Dazhitulun". Se não me engano, o próprio Sutra Mahayana da Rede de Brahma permite que, na ausência de um mestre, o desejoso por receber os preceitos de Bodhisattva os tome sozinho. Ao longo da história budista, inúmeros são os exemplos de monges que se ordenaram assim.  Isso se chama "Jisei-Jukai". O monge Eizon, por exemplo, abandonou os preceitos que recebeu do Hinayana e se auto-ordenou no templo Saidaiji diante de uma imagem de Kannon, junto com outros discípulos. Esse foi o começo da Ordem Shingon-Ritsu...
O monge: -Não, isso não é bem assim não...
O curioso: - Então como é?
O monge:-Ah, se fosse assim qualquer um se auto-ordenava...
O curioso: - Há condições específicas que são relatadas no sutra. Não é "qualquer um" e, mesmo porque, há pouca gente disposta a seguir qualquer tipo de preceito hoje em dia, não é?
O monge:-Bem...Não é bem assim...
O curioso: - E como é então? O sr. teria textos budistas canônicos que demonstrem que isso não funciona assim?
O monge:...
O curioso:- Aliás, quem ordenou Shakyamuni?
O monge:-Ah, mas é diferente...
O curioso:-Por que é diferente?
O monge:-Porque ele era Shakyamuni...
O curioso: -E as outras pessoas não têm a mesma natureza búdica?
O monge:- Têm...
O curioso:-Então?
O monge: ...
O curioso: -E então Huisi, considerado o Terceiro Grande Patriarca do Tiantai, era um falso monge, já que era auto-ordenado?
O monge: - Não, mas é diferente!
O curioso:-No que consiste a diferença?
O monge:-Olhe, eu estou ocupado agora...E vejo que você está meio fanatizado por essa seita...
O curioso:-Por qual razão a Ordem do sr. é uma ordem budista e a THIRB é uma "seita"?
O monge:-Por que eles não são reconhecidos!
O curioso: -E quem é que reconhece?
O monge:-As outras ordens ué...
O curioso: -Então por qual motivo, no começo da história da sua Ordem, tocaram fogo no templo matriz várias vezes, perseguiram seu fundador, ameaçaram de morte os adeptos etc.? Por que era todo mundo amigo?
O monge: -Ah, mas eram outros tempos!
O curioso:- E hoje vocês se reconhecem?
O monge:-Sim!
O curioso: - Quer dizer que se o sr. quiser ir para qualquer outra Ordem japonesa, vão lhe receber e reconhecer seu status atual?
O monge: -Não. Aí eu tenho que começar do zero. No caso, entrar como um fiel leigo etc.
O curioso:-Ué? Mas não se reconhecem?
O monge: - Mas não assim...
O curioso:-E como é então?
O monge:-Todos fazem parte de uma federação de Escolas que, por sua vez, faz parte de uma Fraternidade Mundial de Budistas...
O curioso: -Mas para fazer parte dessa fraternidade mundial de budistas, basta ter um grupo de praticantes e pagar uma taxa, segundo está no site deles mesmos...Ou seja, sua "federação" é reconhecida por um organismo internacional que reconhece qualquer grupo, reconheceria a THIRB, inclusive, se ela se dispusesse a fazer parte e pagar a taxa...
O monge: -Onde você viu isso?
O curioso: - Na internet. Se o sr. entrar no site da federação das escolas budistas japonesas, na qual a do sr. se baseia, verá que eles fazem parte dessa organização mundial. Se o sr. entrar na parte de membrezias dessa organização mundial, verá que basta mandar alguns documentos e pagar uma taxa, ou seja, é bem simples obter o mesmo reconhecimento internacional que a sua federação mantém...
O monge:-Olha, você já está fanatizado. É um ótimo exemplo do que o fanatismo pode fazer com uma pessoa. Você troca o certo pelo duvidoso!
O curioso: Oi?
O monge:-Na verdade você não veio aqui para perguntar, mas apenas para me desrespeitar! Eu sou um monge! Me respeite! Buda mandou respeitar os monges!
O curioso:-Buda também mandou seguir certos preceitos éticos e declarou que não havia nenhum líder indicado por ele para governar a Sangha...
O monge:-Retire-se do templo! Seu fanático! Herege! Desrespeitador!
O curioso:???
O monge:-Você é da seita da THIRB! É um fanático! Um falso budista!
O curioso:????????
O monge (furioso): -Está torcendo as coisas!!!
O curioso: -Seu argumento é circular. Não responde as perguntas e fica afirmando em círculos as mesmas coisas. A THIRB é uma seita porque não é reconhecida. Não é reconhecida porque é uma seita...É falsa porque não é verdadeira. Não é verdadeira porque é falsa...
O monge: - Vou chamar a segurança! Seu fanático, seu terrorista, seu filho da serpente cujo ovo foi gerado no nosso maternal seio...
O curioso: -Ok. Ficou bem clara a lógica de sua argumentação.

domingo, 23 de março de 2014

Budista devoto

P. Arya,

Como você classificaria um budista devoto?
Pode-se dizer que alguém que faz zazen todos os dias ou que recita os ofícios todos os dias ou que recita nembutsu, daimoku etc. com fé e sinceridade é um devoto budista?
Há sacerdotes budistas que diariamente oficiam nos templos, logo pela manhã e depois à tarde. Isso, no seu conceito, não é ser devoto?

Obrigado!

R.: Para mim só há uma devoção verdadeira e existem muitas que são vãs e falsas.
É importante não se deixar enganar por pseudo devoções tolas e supersticiosas.
Em geral, cada um se deixa levar por suas próprias paixões e inclinações.
Um acha que se levantar às quatro da manhã e esfregar a madeira do altar deixando-a limpa e brilhante é uma forma muito grande de devoção, embora dissemine mentiras, coma carne, adore poder, fama e prestígio sob os mantos da humildade.
Um outro acha que tomar banhos gelados com um cuecão japonês no quintal é uma grande devoção, apesar de não se importar com a moralidade que é prescrita nos sutras, de beber, de pagar pela carne de animais mortos e de difundir idéias contrárias àquilo que é estabelecido no Dharma.
Um terceiro adora cerimônias e longos ofícios, mas, quando sai do altar, se compraz na maledicência, em imputações caluniosas  contra quem pratica o Dharma, se arvorando arrogantemente como um grande sábio reconhecido com grande estardalhaço enquanto vive de forma execrável, entregue aos vícios, às piores paixões e desvarios.
Uma mulher  que recita diariamente ofícios religiosos diante do altar de Buda se considerará devota, por causa disso, ainda que desmande a língua em palavras coléricas, arrogantes e injuriosas contra todos aqueles que a desagradem.
Um quinto tem o hábito de se sentar em meditação durante uma ou duas horas por dia. No entanto, não consegue disciplinar a própria vida e as próprias inclinações em nada, conduzindo seus atos como um barco à deriva, arrastado pela força das ondas...
De fato, há monges que praticam meditação e não conseguem controlar seu próprio vício por cigarros e bebidas...Acham que vão atingir o ápice do auto-controle, a Iluminação, imitando a posição de Budas sentados em meditação profunda, quando, na verdade, se enganam com essa imitação barata. É o mesmo que alguém achar que renascerá na Terra-Pura do Buda Amitabha apenas lhe imitando os gestos da mão e a postura...
Todas essas pessoas são tidas como "devotas" e se têm na conta de devotas, ainda que, na verdade, de modo algum o são.
Esse é um engano similar a se vestir um boneco e fazer de tal forma que as pessoas considerem aquele boneco, por conta de seu aspecto exterior, uma pessoa. Esses são os "bonecos de devoção".
A verdadeira devoção é o ornamento da prática do Dharma. 
A devoção, as cerimônias, a leitura dos textos etc., dão o suporte ideológico, a força necessária para que a mente se conforme com as verdades do Dharma. A prática das virtudes, dos preceitos, do estudo continuado do Dharma etc., são ornados pela devoção que fixa na mente os ensinamentos, de maneira simbólica e bela.
Alguém que recita textos e participa de cerimônias sem praticar os ensinamentos de Buda, é como um livro com bela encadernação, com belo título e com as folhas em branco, sem nenhum conteúdo. Um livro sem mensagem, sem essência, sem ensinamento nenhum para oferecer. O máximo que se pode fazer é apreciar sua encadernação e mais nada. Belas cerimônias, solenidades, exterioridades vazias, apenas uma capa bonita para conteúdo nenhum.

Mais um tiro no moribundo...

Para completar a obra de subversão e destruição da tradição budista, nunca basta de propaganda, equívocos e heresias.
Publicações que prestem, as editoras renegam, fazem-se de difíceis e não publicam. Mas lixos, heresias, baboseiras e MENTIRAS, sempre há alguém disposto a publicar e ganhar dinheiro às custas do embotamento mental dos leitores.
Para dar mais um tiro no moribundo budismo do mundo contemporâneo, mais uma obra falsa e recheada de equívocos que faz a apologia da quebra deliberada dos preceitos:


"Quem disse que cerveja e sexo não combinam com Budismo?" R: Buda.
Agradecemos ao autor e aos editores por mais esse desserviço ao Budismo. Que os devas e os Budas os amaldiçoem.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Vergonhas do dia-a-dia

Um encontro fortuito com um monge beneditino esses dias me fez pensar um pouco sobre ter vergonha.
Monges beneditinos, de forma geral, são pessoas bastante cultas, gentis, comumente poliglotas, cujo descortino cultural é facilmente percebido. Sabem latim, têm noções bastante aprofundadas de grego e eventualmente hebraico (além de línguas modernas como inglês, francês, alemão). Para a ordenação sacerdotal cursam filosofia e teologia, muitos são exímios pianistas ou organistas, apreciam boa música e têm uma cultura geral muito boa.
O ambiente das comunidades beneditinas propicia saudáveis trocas de informação, leitura de jornais do mundo todo e intercâmbios culturais bastante interessantes.
Pensando em tudo isso, fui inevitavelmente levado a compará-los com alguns sacerdotes budistas...Cultura geral sofrível ou nula, nenhum descortino cultural, nenhum interesse por nada que saia do seu mundinho de gente intelectualmente embotada, nenhum "savoir-faire", conhecimento nenhum sobre filosofia ocidental, conhecimento tosco sobre outras religiões (e sobre o Budismo também, obviamente), alguns estão no Brasil há mais de dez anos e não sabem nem português (e acham isso lindo), outros são lavradores semi-analfabetos vestidos de monges, cheios de superstições e crendices estúpidas, outros são brasileiros e escrevem em português errado, subservientes aos estrangeiros mais ignorantes ainda, grosseiros ao trato, cercados de pessoas grosseiras, imbecis, supersticiosas, arrogantes, pregando um arremedo tosco de "budismo" feito para agradar aos filhotes de imigrantes cuja maior sofisticação cultural era plantar batatas, café ou, atualmente, vender eletrônicos e bugigangas em camelódromos xingando os clientes aos berros, escarrando pela rua e botando moedas, pedidos e incenso para "agradar" aos "deuses da fortuna", cuja imagem ensebada fica em algum canto da lojinha.
Penso nas bibliotecas monásticas que freqüentei, nas lições de grego, de latim e de filosofia, na educação que recebi de minhas tradições familiares e comparo-as com as publicações dos "animais reencarnados", do rei que "virou cobra" (porque tomou um peteleco no nariz em seu velório), das rezas para "acalmar os espíritos" e de toda a baboseira infinita que se prega com ar de "sublimidade" nos púlpitos de tantos templos. "Quando você achar que entendeu, aí é que você não entendeu...", "Cantigos" (sic), "Não leia sutras, só ore", "Repita CONS-TAN-TE-MENTE", "Não se cozinha de noite no templo para não dar mais fome aos fantasmas famintos", "os ombros ficam pesados na stupa (cinerário) por causa dos espíritos dos mortos", "a linhagem transmite algo fora das escrituras", "minha linhagem vem desde o Buda, ininterrupta", "água energizada", "remédio de cinzas do incensário", "remédio de cera de vela", "benzimento do Buda"etc etc...
Confesso que, não em poucas ocasiões, tenho medo e vergonha de que, ao me declarar budista, seja comparado com isso tudo...
Olha moço, sou budista mas daqueles do Nagarjuna, do Vasubhandu, do Zhiyi, dos tratados filosóficos do cânone...Não os da "linhagem", nem os da "paz, amor e comunismo", não carrego amuletos, não faço rezas também e nem gosto do Dalai-Lama, por favor, não me confunda, não me compare, não misture as coisas, não me mate de vergonha...

domingo, 23 de fevereiro de 2014

A imagem real de muitos budistas

Essa imagem poderia retratar a realidade da imensa maioria dos budistas no Brasil e em outros países.
Os templos estão infectados pela praga comunista que é disseminada por monges que, como esse aí da imagem, têm uma cabeça pequena, não têm feição própria se limitando a repetir as papagaiadas do grupo majoritário.



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O interessante caso de Eizon Shonin

Nascido da relação ilícita de um monge do templo Kofukuji (Nara), na localidade onde hoje está a cidade de Yamato-Koriyama, Eizon entrou para a vida sacerdotal em 1217 (Ano 5 da Era Kenpô) no templo Daigoji de Kyoto com a idade de 17 anos. Recebeu a ordenação plena segundo os preceitos do Vinaya (Shibunritsu/Su Fen Lü) na plataforma de preceitos do grande templo Todaiji no mesmo ano. Depois disso, voltou-se aos estudos do Mikkyô (Budismo Esotérico) no templo Daigoji e em outros importantes centros do Budismo Esotérico Shingon.
Dezenove anos depois, profundamente decepcionado com a decadência da moralidade dentro das instituições monásticas oficiais, e tendo consciência da invalidade dos preceitos conferidos por mero formalismo, resolveu, junto com Kakujô (1194-1249) e outros companheiros, tomar os preceitos de Bodhisattva diante da imagem de Avalokitesvara no salão do Lótus (Hokkedô) do templo Todaiji. Através dessa auto-ordenação (jisei-jukai), Eizon proclamou-se um "bosatsu sô" (monge bodhisattva) e renegou as ordenações anteriores, passando do status de "kansô" (monge oficialmente reconhecido) para o de "tonseisô, ou seja, um recluso, não reconhecido pelas instituições monásticas de sua época, ou melhor, apenas tolerado (assim como vários fundadores do período Kamakura).
Eizon começou um trabalho de reviver o Budismo de sua época tendo o templo Saidaiji, em Nara, como sua sede. Ele encorajava as pessoas a seguirem os preceitos e a não se apegarem ao cerimonialismo vazio dos grandes templos com suas "ordenações" vazias.
Eizon fundou a chamada "Shingi-Ritsu-Shu" (Nova Escola da Disciplina) e foi fortemente influenciado pela idéia de Saichô sobre "monges bodhisattvas" que seriam ordenados apenas com base nos votos do Mahayana Brahmajala-Sutra.
O famoso autor Junjiro Takakusu explica o arcabouço doutrinário de Eizon e da Shingi-Ritsu-Shu da seguinte maneira:

"Na disciplina formal é preciso ter um tutor privado (upadhyaya), um mestre de cerimônias (karma-acarya) e algumas testemunhas. Uma ordenação deve ser conduzida através de uma convocação da comunidade (sangha). Quando os artigos do código disciplinar (vinaya) são lidos, o recipiendário faz votos de obedecê-los. Mas, em alguns casos, quando tais requerimentos formais não podem ser preenchidos, pode-se receber tais preceitos fazendo uma auto-ordenação informal. Isso pode ser chamado de "disciplina do auto-voto", como foi gloriosamente exemplificado pela Rainha Srimala no Srimala Sutra. O Príncipe Shotoku leu esse texto duas vezes diante do trono. Na segunda vez a Imperatriz Suiko levantou-se diante da imagem de Buda e repetiu os votos da Rainha (Srimala) por si mesma. Este foi o primeiro exemplo do auto-voto praticado no Japão. A ordenação por auto-voto é permitida no Sutra Brahmajala (Mahayana). Ao se falhar para obter um instrutor adequado para a disciplina, pode-se aceitar os votos pelo auto-voto. Esse é um tipo de ordenação de bodhisattva.
Em oposição à ordenação formal, uma ordenação ideal foi proposta por Dengyô Daishi. Ele chamou-a de "ordenação perfeita e abrupta". Como dissemos antes, "perfeita e abrupta" é uma referência à doutrina do Sutra do Lótus, a doutrina perfeita, cujo efeito pode-se obter repentinamente. Isso é puramente Mahayana e é considerado pela Escola Tendai como uma ordenação apenas para bodhisattvas. De acordo com a doutrina do Lótus, toda a moralidade da disciplina (vinaya) é originalmente imanente à própria mente e não o produto de um esforço especial. Pode ser chamada de disciplina auto-imanente e é especial da Escola Tendai."

Cabe lembrar que a doutrina da disciplina perfeita, ou dos "Preceitos Perfeitos" através da compreensão profunda do Sutra do Lótus é enunciada por Zhiyi (Tendai-Daishi) e outros luminares da tradição Tiantai. A THIRB prega exatamente isso.

O Bodhisattva Eizon 


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Reflexões sobre o que somos...

1) A THIRB é o resto do Budismo.
Somos um resto. Não no sentido de algo ruim, desprezível, mas sim no sentido de sermos aquilo que sobrou. Somos um resto do passado que os modernos budistas já enterraram. Nós pegamos as cinzas, as ruínas, os cacos que foram esmagados pelos budistas modernos. Nós amamos essas cinzas, veneramos as ruínas, colocamos esses cacos em relicários e, desprezando a passagem do tempo, construímos nossa prática em cima daquilo que todo mundo já esqueceu, que ninguém dá mais importância. Nós fazemos com que a passagem do Sutra do Lótus de que "essa é uma doutrina difícil de aceitar" tenha sentido hoje, em 2014.
2) A THIRB é um eco.
Somos um eco. Um eco do passado. Um eco longínquo que já não mais é ouvido e ao qual ninguém dá mais importância. É algo que, quando cai nos ouvidos de alguém, soa como uma música estranha, como os acordes de um instrumento musical que já não é mais conhecido, que pertence à arqueologia da música. Nós usamos terminologias antiquadas, incômodas, rigorosas...Não participamos da vidinha alegre e socialmente interessante das "sanghas" sorridentes.
3) A THIRB é a conclusão inevitável da fidelidade.
Durante anos eu procurei, com um microscópio, por alguma instituição fiel ao Dharma. Com quantas esperanças eu entrei em cada um dos templos. Com quanto respeito e veneração eu falei com cada um dos mestres. Com quanta dor eu descobria as infidelidades, as falcatruas, as falsificações. Como me doía cada porta fechada, cada desprezo aos ensinos contidos nos sutras, cada conduta incompatível com o Dharma.
Até hoje me dói ver gente que se dizia ética, fiel, tradicional etc., esfaqueando o Dharma pelas costas, atacando quem o defende, defendendo os traidores, defendendo publicamente àqueles que, na surdina, chamava de "prostitutas", "vendilhões", "corrente contra-iniciática" e por aí vai...
Se vocês conhecem alguém que seja fiel ao Dharma, por favor, me apresentem. Com que alegria eu me submeteria de boa vontade a uma instituição fiel, ortodoxa, de conduta e doutrina corretas! Como eu gostaria de ter irmãos de prática em muitos templos! Como me seria prazeroso poder olhar para um monge ancião e dizer "nesse eu posso confiar", "nesse há fidelidade", "nesse não há interesses espúrios", "esse está de acordo com os ensinamentos dos sutras!". No entanto, onde está essa instituição? Onde estão esses mestres? Onde eu posso praticar fielmente os ensinos do Sutra do Lótus, sem superstições e traições? A qual mestre eu poderia me submeter sem restrições? Qual instituição respeita minha nacionalidade? Qual instituição respeita meu país? Qual instituição está realmente preocupada em lançar raízes em solo brasileiro? Paremos de tanta hipocrisia!
Eu diria que "interroguei o silêncio e ele nada me respondeu..."
Então, a fundação da THIRB, foi a conclusão inevitável da minha fidelidade aos ensinos.
Pode parecer arrogante dizer isso, mas, infelizmente, se eu não tivesse fundado a THIRB, o primeiro budista verdadeiramente fiel que surgisse depois de mim, teria que fazê-lo. Era isso ou acabou a prática e o estudo do Dharma institucionalizados.





domingo, 2 de fevereiro de 2014

A Antiga Guerra...

"Em consequência da antiga e irreconciliável guerra, que sempre e por toda parte é conduzida pela incapacidade e pela estultícia contra o espírito e o entendimento - aquelas representadas por legiões; estes, pelos indivíduos-, cada um que produza algo genuíno e de valor tem de passar por uma árdua luta contra a incompreensão, a estupidez, o gosto corrompido, os interesses particulares e a inveja, todos em digna aliança, ou seja, naquela que diz CHAMFORT: En examinant la ligue des sots contre les gens d'esprit, on croirait voir une conjuration de valets pour écarter les maîtres. (Ao examinar a liga dos estultos contra os homens de espírito, poderíamos acreditar estar vendo uma conjuração de criados para afastar seus senhores)".
(Schopenhauer - Fragmentos sobre a história da Filosofia)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A verdadeira Sangha

P. Arya,

Em sua opinião, fora da sua própria instituição, onde estão as verdadeiras sangas?

R. Eu não vejo a Sangha como algo institucional. Não classifico como "Sangha" aquilo que meramente pertence a uma instituição chamada de "budista" ou ao "budismo escola X" ou "budismo escola Y".
Ninguém forma uma Sangha só fazendo um registro no cartório ou passa a fazer parte da Sangha ao se filiar a um templo ou instituição budista.
Para mim, a verdadeira Sangha Budista é espiritual, ou seja, é o conjunto de todas as pessoas no mundo que adotam os Três Refúgios, praticam a moralidade budista e se baseiam nos sutras e nos ensinamentos AUTENTICAMENTE BUDISTAS (baseados no cânone) para conduzir suas próprias vidas. Essa é a verdadeira Sangha.
No tempo em que Buda Sakyamuni era vivo, a comunidade monástica se dividiu em dois grupos devido a diferenças de opinião concernentes ao Dharma. Buda reconheceu a legitimidade de ambos os grupos dizendo que era como se um pedaço de ouro se partisse em dois, ou seja, as duas partes continuariam sendo ouro (T.1421:22.160c9-10)
Buda, antes de morrer, não apontou nenhum sucessor para dirigir a Sangha. Disse que ele mesmo era um membro da Sangha e não o dono da Sangha (ao contrário de muitos que, hoje em dia, apontam com a maior cara de pau quem é "legítimo" e quem não é, se achando possuidores do "selo de qualidade" e, inclusive, usando esse termo ridículo). Ele disse a Ananda: "O Tathagata não diz que ele governa a Sangha ou que ele comanda a Sangha"(Agama - Youxing Jing T1:1.15a28-29)
Também ensinou que estariam perto dele aqueles que se guiassem pelos seus ensinamentos e praticassem os preceitos e que estariam longe dele aqueles que se desviassem de seus ensinamentos e abandonassem os preceitos:


"Isto foi dito pelo Abençoado, dito pelo Arahant, assim ouvi: “Mesmo se um bhikkhu, agarrando a borda do meu manto externo me seguisse de perto, colocando os seus passos nas minhas pegadas, se no entanto ele for cobiçoso pelos prazeres sensuais, intenso nas paixões, com má vontade na mente, com os pensamentos corruptos, com a atenção plena confusa, sem plena consciência, sem concentração, com a mente dispersa e as faculdades não controladas, então ele estará distante de mim e eu dele. Por que isso? Porque ele não vê o Dhamma. Não vendo o Dhamma ele não vê a mim."

“Mas mesmo se um bhikkhu estiver distante cem léguas, se no entanto ele não for cobiçoso pelos prazeres sensuais, não for intenso nas paixões, não tiver má vontade na mente, sem os pensamentos corruptos, com a atenção plena estabelecida, com plena consciência, com concentração, sem a mente dispersa e as faculdades controladas, então ele estará próximo a mim e eu dele. Por que isso? Porque ele vê o Dhamma. Vendo o Dhamma ele vê a mim.
” - Itivuttaka 92; Sanghatikanna Sutta

O Budismo não possui nenhum organismo regulador internacional, não tem um centro administrativo unificado, não está preso a um país, a uma etnia ou a uma ou outra instituição. A Sangha são as pessoas que praticam o Dharma, não as meramente filiadas a instituições. Não há nenhuma autoridade central no Budismo, nenhum núcleo inerrante, nenhum "reconhecimento universal". Instituições não são a Sangha, instituições são locais onde a Sangha se congrega. A Sangha está acima das instituições. A Sangha é composta por pessoas e essas se congregam em instituições para poderem praticar juntas o Dharma. Para estar na Sangha é preciso praticar o Dharma transmitido pelas escrituras budistas. Para estar fora da Sangha, basta abandonar a prática. Um eremita no alto da montanha, sem nenhuma instituição e nenhum mestre, se entender e praticar o Dharma, é membro da Sangha. Um homem filiado há muitos anos a uma instituição com grandes templos e títulos, se não praticar o Dharma está fora da Sangha.
Alguém se torna platônico ao ler, compreender e adotar as concepções filosóficas de Platão. Ninguém vira platônico só porque é membro de um clube cujo nome é "Platão", "amigos de Platão" ou por morar na cidade onde Platão ensinou. Também não se vira platônico comprando pedaços de ossos de Platão ou comprando um busto de Platão e acendendo incenso para ele sem entender nada do que ele ensinou ou praticando o oposto do que ele defendia. Com o Budismo não é diferente.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Depoimento de um budista brasileiro no Japão

Um amigo meu, que estudou Budismo comigo por uns quatro anos, está nesse momento estudando no Japão. Está lá há quase um ano em um intercâmbio como parte de sua graduação. Fala, lê e escreve fluentemente japonês, estando atualmente em uma universidade na cidade de XXX.
Falamo-nos sempre e ele sempre me conta sobre suas experiências budistas no Japão, país tido e havido como “grande e tradicional centro budista” que expede muitos “reconhecimentos” e “autorizações”, além de ordenações sacerdotais que são tidas em altíssima conta pelos auto-denominados “budistas tradicionais” aqui no Brasil.
Pois bem…Vamos ouvir um pouco sobre o que ele conta do “budismo japonês”?
Diz ele, literalmente, que o Budismo no Japão está morto e enterrado. Leia novamente:  MORTO E ENTERRADO.
Ele visitou grandes centros budistas no Japão como o Enryakuji no Monte Hiei (antigo centro da Escola Tendai no Japão), visitou o Hasedera (antigo centro da Escola Shingon Buzan-Ha), visitou vários templos em Kyoto, em Nara (Todaiji, Kofukuji etc) e outros templos menores, tanto na cidade em que está quanto em outras cidades.
Conversou com as pessoas desses templos, com os responsáveis, leu suas publicações (as quais prometeu me trazer para fazermos posts futuros), participou de rituais, cerimônias e ouviu pregações.  Teve acesso ao material que é expedido pelos templos matriz para os templos filiais e que é vendido ao povo que frequenta esses templos.
Na universidade, ouviu os professores explicando sobre budismo e, a cada vez que se dispôs a falar para seus colegas e professores japoneses, causou admiração. Em uma aula, uma colega perguntou à professora japonesa por qual motivo se batiam os sinos dos templos 108 vezes no Ano-Novo e a professora dirigiu-se ao aluno brasileiro que estuda budismo e ele explicou para a professora e o resto da turma o sentido desse ritual, sentido este que a própria professora disse que era mais técnica do que a dos monges. Nos templos há algumas pessoas que sabem que é Siddham (bonji) escrito nas pinturas, mas não sabem ler e dificilmente sabem o que significa.
Além de tudo isso, ele, o que ouviu na THIRB que não existe reencarnação no Budismo e que aprendeu a interpretar corretamente os textos do cânone, está escrevendo um trabalho, em japonês, para demonstrar que a idéia de reencarnação é uma interpretação errônea que não aparece nos textos da literatura clássica japonesa, mas apenas nas traduções e adaptações modernas… Espanto geral entre os professores e alunos que sempre escutam algum monge falando em reencarnação ou, não menos trágico, alguém se metendo a dizer que “não é a alma que transmigra, mas a consciência” (explicação pífia muito comum entre os grandes “intelectuais budistas” do  Brasil que, não entendendo a interpretação budista sobre a morte física, e achando “chic” dizer que não existe reencarnação, acabam reproduzindo os mesmos erros com outras palavras).
Em resumo, a história é cíclica…Mais uma vez, vai do Oeste para o Leste o Buddhadharma.

Quando perguntei a ele o que sustentava a existência dos templos ainda hoje no Japão, que, segundo ele, já não tem nem sombra de Budismo, foi categórico: “Se acabar a superstição no Japão, não sobra um templo…”
Um domingo desses, ele esteve em um templo reconhecido pela Federação das Seitas Budistas do Japão como parte da “denominação Tendai”. Trata-se de um templo da Nenpô-Shinkyô. Confira o reconhecimento aqui, na parte “Tendai Denomination” na nona linha (Nenpou Shinkyou).
Lá, antes do culto, ele fez questão de comprar, como prova ineludível das superstições estúpidas que se vendem como “budismo tradicional” (é isso que a Federação das Seitas Budistas do Japão, como a do Brasil, diz que congrega explicitamente "Each organization represents traditional Buddhism in Japan", no mesmo link anterior, bem no começo da página.), um “hashi” que cura dor de garganta, tira espinha de peixe e faz milagres guturais diversos graças ao “poder de Amida” e com a soleníssima aprovação do templo principal de Nenpô-Shinkyô que, por sua vez, é aprovadíssimo pela Federação das Seitas Budistas do Japão, federação essa que serve de modelo à congênere brasileira...
As fotos e a tradução são do próprio Y. (esse amigo que está no Japão):




Tradução (Y.) do que está no envelope do hashi salvador das gargantas doloridas:

"É dito que ao se alimentar usando o Hashi de Proteção contra o Mal que foi aprovado pelo Nenpô Gohonzon (Amida Nyorai), as pessoas por cuja garganta não passa comida conseguirão se alimentar. Ao ficar com uma espinha de peixe presa na garganta, ao acariciar a garganta com ele a espinha será retirada. Através deste hashi eu confio no Nempô Gohonzon e peço que eu possa receber sua divina proteção."

Como se não bastasse essa descabelada prova de superstição, Y., ao informar que era vegetariano à responsável pelo templo, obteve como resposta que não havia nada com carne servido no lanche, apenas um molho com camarões (!), completando a colossal besteira com : “mas aqui no templo não tem problema”, ou seja, aqui o Amida libera uma carninha...
A interpretação dada nesse templo sobre o Buda Amitabha é completamente literal. O fundador da religião, Reigen Ogura, para eles, foi “encontrado” pelo Buda Amida como o “único” digno no “mundo inteiro” para fundá-la...
Abaixo, transcrevo sem alterações as palavras do próprio Y. (destaques de minha responsabilidade), e foi com sua expressa autorização que escrevi esse texto citando-o.
Leiam e tirem suas próprias conclusões:

“Ao se visitar templos budistas é necessário entender que aquelas construções são a imagem de algo que fez parte da vida dos japoneses há séculos no passado, mas que hoje são apenas museus. A sensação de se entrar nos templos histórico como o Kyomizudera, Todaiji, Enryakuji, Hasedera etc é a mesma de se entrar num museu onde ocorre a exposição de um artista que você só ouviu falar. E mesmo sabendo a história do lugar, a sensação não muda. Você e todos os que estão ali fizeram fila para comprar um ingresso, fazem filas para tirar fotos de estátuas para depois guardar estas fotos em alguma pasta escondida em um canto qualquer do computador e, talvez, mostrar um dia para um amigo ou conhecido. Os mais famosos são cheios de pessoas tagarelando e comprando lembrancinhas, amuletos de proteção ou alguma coisa bizarra que prometa boa sorte.
O budismo no Japão se tornou algo enfadonho, algo que se preserva simplesmente porque é visto como um patrimônio histórico, cultural, templos que devem ser respeitados por terem seiscentos anos, setecentos anos, mesmo que seja apenas uma construção de madeira com imagens sem vida onde só se ouve o silêncio de um passado. Na maioria dos templos não se veem monges, quando se veem eles estão sentados dentro das lojinhas olhando para o nada até que venha um cliente. Cerimônias são raras, normalmente feitas em dias festivos ou em Serviços Memoriais, outra parte triste do “budismo” japonês. Todos os monges que estiverem presentes ficarão ocupados porque há uma família fazendo um “gohôji”, então todas as atenções devem ser dirigidas aquela família que faz algo simplesmente porque tem que fazer, afinal de contas, deve-se acalmar a alma do morto que está transitando por aí até reencarnar em outro corpo...
Exceto nestes dias, o budismo não faz parte do dia a dia dos japoneses. Eles não sabem explicar os ensinos básicos do budismo. O que eles compreendem é uma amálgama, muitas vezes insípida, de crenças e superstições talvez herdadas do xintoísmo, confucionismo e algumas vezes, de um esboço do cristianismo. Me arrisco a dizer que a religião japonesa hoje é o xintoísmo e simplesmente combina com o modo de vida deles. Não exige grandes conhecimentos, apenas acreditar nas forças da natureza e jogar moedas em uma caixa de doações na frente de algum jinja para que os Kami possam ajuda-los em seus planos.
Sinto que hoje o budismo é mais que nunca uma religião estrangeira dentro do próprio país que o recebeu, que o adaptou, que o reformulou, inseriu elementos para criar um rosto mais reconhecível, mas que se tornou um enorme Frankenstein desconhecido aos próprios japoneses.”

Acho desnecessário acrescentar qualquer coisa a esse depoimento bombástico.


sábado, 18 de janeiro de 2014

Budismo Ortodoxo e os que não o seguem

P. Arya,

De onde você tirou que existe um "budismo ortodoxo"? Inventou isso é? Nunca ouvi falar disso em templos verdadeiros, só no seu bloguezinho.
Outra coisa, como você classifica os que não seguem esse budismo que você inventou? Budistas heteroxos?

R. Suas perguntas dizem bastante sobre você.
Procure algo sobre 正信的佛教 e depois responda você mesmo de onde eu "tirei" ou inventei. Não consegue ler? Azar o seu.
"Heteroxos"? Você fugiu da aula de português? O contrário de ortodoxo é heterodoxo não "heteroxo", palavra que você sim inventou.
Eu chamo quem não segue o 正信的佛教 de romântico pseudo-budista. E antes que você, na magnitude de sua cultura, acredite que "romantismo" é colocar coraçõezinhos pelos templos e fazer declarações apaixonadas ao Buda, dou-lhe a feliz definição de Novalis:

"Enquanto dou ao que é vulgar um alto significado, ao que é comum um aspecto enigmático, ao conhecido a dignidade do desconhecido, ao finito uma aparência infinita, eu o torno romântico."

Em outras palavras, romantizar é dar valor sublime ao prosaico, ou tratar vulgarmente ao sublime, coisa que você e seus amigos fazem com maestria desprezando os sutras e os sastras para dar um "alto" significado pseudo-sublime a besteiras retumbantes, ditados imbecis de seus "mestres" e às tergiversações oportunistas de quem nada sabe ou sabe muito pouco, mas se cobre com as camuflagens de "mestre", "monge", "soryô", "fashi", "lama" etc.

Nota: É notável a disposição desses grupos para serem publicamente derrotados em quaisquer debates doutrinários embasados na literatura canônica. No entanto, voltam sempre com aquela felicidade e arrogância próprias dos burros motivados, achando que descobriram o "ninho da égua"e que, agora, vão mostrar ao mundo que são os proprietários incontestáveis dos corretos ensinamentos...
Chegam como possantes cavaleiros de lança em riste e saem fugidos como zebras a correr dos leões. No seu descabelado desespero para justificar a própria grandeza imaginária, precisam constantemente atacar as pessoas que não concordam com eles. Não atacam a doutrina porque não encontram onde atacar e, pior, nem sabem direito a doutrina, ou seja, vivem a dizer besteiras gigantescas sem nenhuma base canônica e, nessas besteiras, baseiam sua "grandeza e status".
É muita gente "heteroxa"(sic) para o meu gosto...