domingo, 14 de setembro de 2014

Para quem quer obter mais alguma informação sobre Linhagens e Escolas

Novo texto no site oficial traduzido do inglês pelo Upasaka Pundarikakarna (Marcelo Prati) diretamente da Itália para o site da THIRB.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Liturgia budista

P. Caro Arya,

1-Na sua concepção, como deve ser a liturgia budista para os brasileiros?

R.: A liturgia budista, de maneira geral, deve se guiar pelo princípio de nobre simplicidade, ou seja, nada apalhaçado, vulgar ou excessivo. 
A liturgia deve ser voltada para o objetivo central, que é a transmissão e a meditação dos ensinamentos do Dharma.
A utilização dos instrumentos que acompanham tradicionalmente as liturgias (peixe de madeira, tambor, sino, címbalos etc.) deve ser realizada com prudência e circunspecção, de forma que os sons não abafem a mensagem que está sendo recitada.
Obviamente, os textos devem ser recitados em língua vernácula e de forma clara e audível. Nem se recita baixo demais nem há necessidade de berrar.
Recitar de forma cantada ou falada é uma questão de avaliar a situação. Se a recitação cantada vai atrapalhar a clara compreensão do que se recita, então é melhor que apenas se fale o texto.
A parte cerimonial da liturgia (os deslocamentos dentro do templo, deitar o incenso granulado, os mudras, as prostrações etc.) deve ser simples e objetiva, evitando futilidades, deslocamentos desnecessários, gesticulação excessiva e outras coisas do gênero. O presidente da celebração não deve chamar atenção sobre si mesmo e nem distrair as pessoas que estão na assembléia com meneios, balancês, falas fora do contexto, maneirismos etc.
Obviamente que liturgias com "bicho-grilagem" do tipo violão, dancinhas, balanços de mãos etc., estão completamente fora de questão.
Não deve haver na assembléia durante as liturgias nenhum tipo de coação ou "instrução" para que se faça isso ou aquilo. As pessoas devem se inteirar naturalmente dos procedimentos litúrgicos sem que haja alguém gritando ou "instruindo" (como fazem alguns templos chineses, colocando gente impertinente para gritar no ouvido das pessoas e que, ainda por cima, "instruem" errado), pois tal conduta tende a distrair a mente do que está sendo recitado.
O ideal é que as liturgias não sejam longas demais e que não desgastem as pessoas que delas participam. Liturgias que passam muito de uma hora, uma hora e meia, tendem a ser maçantes, desagradáveis e inúteis (tendo em vista que a maioria das pessoas já está, há muito tempo, querendo que aquilo acabe logo).
Muita afetação, como dezenas de prostrações, gesticulação a todo momento ou cantorias, tendem a tornar a liturgia um ato teatral de mau gosto que não cumpre com seu objetivo.
Para resumir podemos dizer que nobre simplicidade é igual a objetividade, bom senso, brevidade, língua compreensível e bom gosto.

2- E os templos, altares etc.?

Da mesma forma que a liturgia, o espaço celebrativo deve ser resguardado de todo tipo de coisa supérflua.
Altar não é lugar para enfiar toda e qualquer bagulhada com cara "oriental" e nem para se ficar improvisando.
O altar deve ser nobre e digno, ainda que simples e sem excessos.
É melhor que se coloque poucos e dignos objetos, feitos de material nobre e sólido, do que se encha o altar de coisas estranhas aos atos litúrgicos.
Em geral, algumas imagens (exclusivamente budistas e poucas!), vela, incensário, um vaso com flores, uma oferenda de água e alimento e mais nada.
É recomendável que os objetos de altar sejam realmente confeccionados para o altar. Xícara de café, copinho de pinga, pires etc., devem ficar no armário da cozinha. Colar velas em pires ou outras barbaridades do gênero não se justificam.
Nada de fazer o altar de depósito de rosários, ou espalhar livros litúrgicos sobre ele. Deve-se ter uma mesinha ou um atril (porta livros) com esse objetivo. Fotos de parentes mortos, ihais etc., não devem disputar espaço com imagens de Budas e Bodhisattvas.
Templo é espaço de prática litúrgica, de meditação e de reflexão. Não é depósito. Altar é um símbolo da mente que aspira a Iluminação, não vitrine de lojinha de importados...



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Prajnaparamitastotra - Louvor à Perfeição da Sabedoria


Traduzido para o italiano por Raniero Gnoli
Vertido para o português pelo Upasaka Pundarikakarna



1. Homenagem à Ti, ó imensurável e perfeita Sabedoria, além de toda representação mental! Todos os Teus membros estão além de toda culpa, Tu, contemplada por aqueles que estão além de toda culpa.

2. Imaculada como o espaço, além todo argumento discursivo, de toda palavra, quem Te vê como realidade, vê o próprio Tathagata!

3. Entre Ti, rica de santas virtudes, e o Desperto, mestre do mundo, os sábios não encontram mais diferenciação entre a lua e a luz da lua.

4. Aqueles que, cheios de compaixão, se achegam a Ti, aqueles aos quais tens anunciado o Dharma do Desperto, tais atingirão facilmente, ó Bela, a majestade sem igual.

5. Sendo puros de coração, mesmo que apenas por uma vez Te tenham visto, o sucesso de tais é então certo - ó Tu, cujo simples vislumbre oferece os frutos!

6. De todos os heróis que se consagraram ao benefício do próximo, ó Tu és aquela que nutre, a genitora, a mãe cheia de amor!

7. Os Despertos, os piedosos mestres do mundo são Teus filhos, e assim Tu, bendita, és a avó de todos os seres.

8. Toda imaculada perfeição, em cada momento, Te circunda, do mesmo modo que as estrelas cortejam o crescente lunar, ó Tu, santa, ó Tu, desprovida de manchas!

9. Dotada de muitas formas, Tu estás em todos os lugares, invocada sob os nomes diversos dos Tathagatas, de forma a converter os seres.

10. Não diferente de gotas de orvalho sob o sol ardente, os deficiências e as teorias dos estudiosos, diante de ti desvanecem.

11. Aparenta-te terrível, Tu geras o terror nos estúpidos; aparenta-te doce, gerando a confiança nos sábios.

12. Aquele que, dotado de Tua proteção, não sente afeto por Ti, como pode, ó Mãe, sentir afeto ou ódio por outra coisa?

13. Tu não vens de parte alguma, nem vai a parte alguma; e em nenhum lugar é percebida pelos sábios.

14. Mas não ver-Te dessa maneira, é como ter obtido e atingido a Liberação Final - ó, quão extraordinária compreensão!

15. Aquele que Te vê é aprisionado, aquele que não Te vê é aprisionado. E aquele que Te vê é liberado, assim como aquele que não Te vê é liberado!

16. Pois Tu és surpreendente, profunda e gloriosa; Tu és difícil de conhecer e, como por mágica, Tu és vista e não és vista.

17. Tu és venerada pelos Despertos, pelos Pratyekabuddhas e pelos discípulos. Tu és o único caminho da liberação e nenhum outro existe, certamente!

18. Os protetores do mundo, movidos pela compaixão, falam de Ti e não falam, servindo-se da linguagem comum para que sejam compreendidos pelos seres.

19. E quem é capaz de louvar-te, desprovida de signos e letras? Que transcenda o reino da palavra, sem apoiar-Te em lugar algum?

20. Mas, não obstante as coisas sejam assim, nós Te louvamos da mesma maneira, segundo a realidade convencional, por intermédio de tais palavras - Tu, que estás além de toda homenagem. E louvando-te somos satisfeitos e felizes.

21. Que os méritos que obtive com esta homenagem à Perfeita Sabedoria possam ajudar a todos os seguidores a atingir tal Sabedoria sem par!




segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Rosário Budista: Origens, utilização etc.

P. Revdo. Dharmananda,

Gostaria de saber em que sutra está baseado a utilização do rosário (juzu, nenju).
Obrigado!

R. Está baseado no Munimandala-Sutra ou Mounimantuoluojing.
Nesse sutra, o rosário é chamado de bosaimo ou shuzhu.
O sutra afirma que o rosário é um "instrumento que auxilia a concentração da mente e a disciplina da prática".
Há um outro sutra, o Aristaka-Sutra (Muhuanzijing) onde há o seguinte relato:

"Certa vez havia um soberano chamado Boliuli. Ele disse ao Buda: "Sendo meu país pequeno e localizado em uma região remota, eu tenho me sentido inseguro. O depósito do Dharma é tão profundo e amplo que é impossível para uma pessoa praticar tudo. Por favor, ensine-me os fundamentos do Dharma"
O Buda respondeu: "Se você quer aniquilar seus obstáculos mentais, faça um colar de contas, furando um buraco em cento e oito sementes de fruta-de-sabão (sapindus saponaria, conhecida no Brasil como jequitiguaçu), e carregando tal colar consigo o tempo todo. Relembre o nome dos Três Tesouros: 'Namo Buddha, Namo Dharma, Namo Sangha', e depois de completar cada repetição dessa frase, mova uma conta com seu dedo indo para a outra e, dessa maneira, gradualmente alcançando cento e oito vezes até dez mil vezes. E se você não sentir distúrbios físicos e mentais, então você será capaz de abandonar essa vida atual e renascer no Paraíso Yama, que é preenchido com a Suprema Luz. Quando você alcançar o número de um milhão de vezes, você será capaz de remover os cento e oito obstáculos kármicos e, dessa maneira, realizar o fruto da Eterna Bem Aventurança."
O rei então respondeu que assim como fora instruído ele agiria."

Há outros sutras com passagens significativas sobre a utilização das contas.
No Sutra do Lótus, no capítulo Samantamukha (XXIV) há a passagem em que Akshayamati oferta a Avalokitesvara um valioso colar de pérolas, que o reparte entre Shakyamuni e Prabhutaratna.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Por que Tendai?

P. Olá Aryasattva Dharmananda,

Se você não tem ligação com o Japão e nem com a China, porque foi colocar o nome "Tendai Hokke" na sua escola?
Pq vc não inventou outro nome? Isso te livraria de um monte de problemas não é?


R.: Por que a linhagem Tendai começa com Nagarjuna que nunca pisou na China e morreu tanto tempo antes do segundo Patriarca, Hui-wen? Por que motivo Hui-wen e Hui-ssu se diziam discípulos de Nagarjuna? Por que não inventaram um outro nome, chinês...Isso não os tornaria mais confiáveis?
Por que Hui-ssu é o terceiro patriarca na linhagem se, segundo as esparsas informações que temos sobre ele, era um auto-ordenado?
Hui-wen e Hui-ssu pisaram alguma vez no Monte Tiantai? Então, por qual motivo são dessa Escola?
Por que Kumarajiva é um dos patriarcas, sendo que nunca se encontrou com nenhum outro patriarca Tendai? Por que o próprio livro do Sutra do Lótus aparece como um dos patriarcas? E por que o leigo Fu Ta Shih também é um dos patriarcas?
Por que a linhagem Ryozen diz que as pessoas que compreendem e praticam o Sutra do Lótus receberam os ensinamentos diretamente no Pico do Abutre? E por que o Sutra do Lótus afirma que Buda continua pregando no Pico do Abutre?
Depois de responder tudo isso, talvez você compreenda.
Seria um tanto curioso se eu que SIGO OS ENSINAMENTOS DE TIANTAI, tivesse que inventar outro nome...

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Reconhecimento de instituições japonesas

P. Arya, a Shinnyô-En e a Agon-Shu são escolas reconhecidas pelos budistas em geral?

R. Sim.
Elas não fazem parte da Federação das Seitas Budistas do Japão pelo simples fato de não desejarem. São reconhecidas em diversos países como Sri Lanka, Tailândia, China e Taiwan.
A Shinnyô-En foi fundada por dois "Dai-Ajaris" da Escola Shingon Daigo-Ha. A atual líder também é uma "Dai-Ajari" da Daigo-Ha e foi a primeira mulher a presidir uma celebração no "Hondô" (Salão Principal) do Templo Daigo Samboin.
A doutrina da Shinnyô-En tem médiuns, mensagens de espíritos, curas espirituais, reencarnação etc.
De fato, uma das doutrinas fundamentais dessa instituição é a orientação espiritual através dos dos filhos do fundador, mortos ainda quando crianças (ryôdoji).
Atualmente, há um templo dedicado ao fundador da Shinnyô-En dentro do Daigoji Samboin. Se chama "Shinnyô-Sanmaya-dô" ou "Salão do Sanmaya Shinnyô":



O título de "Grande Acharya" da atual líder foi concedido com grande pompa pelo "Daisojô" (Grande Arcebispo) da Escola Shingon Daigo-Ha.
No caso da Agon-Shu, o fundador foi titulado pela Shingon-Shu Omuro-Ha e é reconhecido pelo escritório do atual Dalai-Lama, tendo, inclusive, relações bastante estreitas com ele:


Já em 1984, ele e o Dalai-Lama conduziram juntos uma cerimônia do fogo (Homá), cada um em um altar:


Além disso, a Agon-Shu é reconhecida por diversas instituições Theravada (no Sri Lanka) e outras muitas na Ásia (Mongólia etc)

Selo comemorativo do Sri Lanka com o fundador da Agon-Shu.

Passagens interessantes dos livros de Seiyu Kiriyama:

"A glândula pineal, cujas funções começaram a ser entendidas finalmente, é uma pequena glândula coniforme grudada no lado de baixo do cérebro, que se supõe seja o vestígio do terceiro olho que o ser humano vem herdando de seus antepassados, desde a era primitiva."

"...o ser humano, de fato, possuía o terceiro olho. De fato, ainda possui. Encontramos claras evidências quando examinamos as glândulas endócrinas (!?), que exercem papéis primordiais no corpo humano."

"Além desses dois (olhos), na verdade havia um outro olho que estaria ligado ao cérebro no hipotálamo do diéncefalo. É justamente esse que chamamos de terceiro olho, e que nos possibilita enxergar o mundo espiritual."

"Naturalmente, para o terceiro olho ter se fechado, há uma grande razão. O campo da espiritualidade, que está localizado no hipotálamo do diencéfalo..."

Reconhecimentos interessantes, não? Coisa muito valorizada em certos círculos aqui no Brasil...


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Diga-me com quem andas...














Segundo alguns "budistas" brasileiros, só as mais "tradicionais escolas" são reconhecidas pelo Dalai-Lama...Muito razoável não é?

sábado, 9 de agosto de 2014

Estátuas nas portas dos templos

P. Olá Aryasattva!
Não sou budista mas me interesso muito pela cultura oriental.
Estive fazendo uma viagem pela China e pelo Japão (além de outros países da Ásia) e gostaria de lhe perguntar algo para o qual não achei explicação.
Em alguns templos da China, logo na entrada, há um tipo de construção mais simples, um pavilhão, onde há quatro grandes estátuas que os guias turísticos dizem se tratar dos "Celestial Kings". Em outros templos, em vez desses quatro, há duas estátuas grandes, com o corpo musculoso desnudo, um com a boca aberta e outro com a boca fechada.
No Japão as entradas dos templos, quase todas, são com esses dois últimos personagens sendo que, na China, há mais com os "Celestial Kings". 
Por que há essa diferença? O que significam essas figuras.
Fiquei muito impressionada com as expressões severas dessas personagens e gostaria de saber algo sobre elas.

Obrigada!

R. Olá,

Sua pergunta é bem específica.
O costume mais antigo, registrado no Vinaya (na parte "Matérias Diversas" ou "Miscelânea"), é que o próprio Buda teria indicado a Anathapindada que este deveria adornar a entrada da comunidade (no jardim que o próprio Anathapindanda doou ao Buda) com dois Yaksha portando bastões ou vajras.
O trecho, onde Anathapindada pergunta ao Buda como adornar com pinturas às construções, tem a seguinte resposta de Buda: " Excelente! Deves pintar de ambos os lados da porta a dois Yaksha levando um bastão!"
Algumas pesquisas indicam que tratava-se de um mesmo personagem, o Yaksha Guhyaka, que leva o título de "Vajrapânibalin" (Jinganglishi).
Na Dinastia Tang, cortaram o nome em dois e deram um pedaço do nome a cada imagem. O de boca aberta chamaram de Jingang e o de Lishi ao de boca fechada.
Há muitos desenvolvimentos posteriores a esta história, alguns dando características e identidades específicas (Narayana etc.) a cada um dos personagens. Não vamos entrar nisso agora para não alongar demais a resposta.
A explicação mais simples para as bocas aberta e fechada é que, sendo a boca a porta do rosto, simbolizam a proteção dos Yaksha estando a porta do templo aberta ou fechada.
No Mikkyô/ Mijiao, as bocas dos guardiões (Niou/Renwang 仁王) estão ligadas às síbalas seminais (bija) A e UN, por isso são denominados "Agyo"(阿形) e "Ungyo"(吽形)
A letra seminal A está ligada à expansão, à criação, ao nascimento, enquanto a sílaba seminal UN está ligada à contração, à retração e, em certo sentido, à morte.
No Japão, como você relatou, segue-se o costume mais antigo, derivado das dinastias Sui e Tang (581-618 e 618-907 da E.C.).
A substituição dos Renwang/Niou pelos Reis Celestiais (Tianwang/Tennou 天王) é algo mais moderno, que aparece pela primeira vez na Dinastia Ming (1368-1644 da E.C.). Nos templos mais antigos, eles aparecem nos quatro pontos cardeais ao redor das stupas ou nos pontos cardeais em torno da Sala de Buda.
Na nossa Ordem, seguimos o costume antigo Sui-Tang.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Antiguidade institucional e nome de Dharma

P. Olá, estou no budismo há mais ou menos 3 anos e tenho lido ultimamente seus textos.
Gostaria de comentar e perguntar duas coisas.
Penso que as instituições mais antigas dão uma maior confiabilidade aos ensinamentos, tendo em vista que já passaram por muita coisa e acumularam pelos séculos muita sabedoria e informação.
Sendo assim, não acho saudáveis suas críticas aos irmãos mais velhos de outros templos bem mais antigos e experientes que o seu.
A pergunta que faço é baseada no fato de no templo que eu frequento, o XXX, recebermos o Homyo (nome de Dharma) sem nenhum tipo de preceito junto.
Soube que nos templos chineses tradicionais, as pessoas podem tomar refúgio e não necessariamente receber os preceitos. Nesse caso, elas só usam a túnica sem o manto. Você acha isso errado? E quanto ao homyo?

R. Sr., creio que lhe falta a lógica mais elementar. Suas colocações, em tom professoral, revelam um conhecimento frágil e nenhuma reflexão.
Instituições mais antigas são mais confiáveis?
Então por qual razão Buda rompeu com as práticas bramânicas de seu tempo? Não eram elas antiquíssimas? Por que Confúcio condenou os costumes tidos por "tradicionais" da China de sua época, atacando-os e classificando aos mesmos como desumanos e impiedosos?
Era mais legítimo enterrar os servos junto com seus senhores?
Uma prática heterodoxa é "mais confiável" se for mais antiga? Então, por qual motivo o senhor não frequenta uma igreja católica que, no Brasil, é a mais antiga instituição religiosa presente? Por que, em vez de seguir uma seita budista do século XIII da E.C., não se converte ao candomblé? Ele é mais antigo que todas as religiões do Japão. Se o sr. prefere antiguidades do leste da Ásia, siga a religião popular chinesa, com seu xamanismo, oráculos de ossos de tartaruga, sacrifícios cruentos e outras práticas que datam da Idade da Pedra. Assim o sr. estará seguro quanto à antiguidade de suas práticas e terá a certeza quanto a "passaram por muita coisa"...
O que torna uma instituição confiável em relação a uma religião é sua ortodoxia doutrinária baseada nas fontes legítimas de transmissão que, no caso do Budismo, é o cânone. O resto é parte da fantasia e do pensamento mágico que anima muita gente.
Templos antigos sem doutrina, sem reflexão séria, sem ensinamentos...Paredes velhas abrigando moscas e cupins...
Em relação ao nome de Dharma sem preceitos trata-se, simplesmente, de mais uma coisa sem qualquer sentido real.
Há inclusive uma falsa dicotomia fabricada entre "Nome de Dharma"(Houmyou) e "Nome de Preceitos"(Kaimyou), mais uma das muitas invencionices sem base tradicional nenhuma.
Informo ao sr. que, inclusive, dão nome de Dharma (e de Preceitos) a defuntos que nunca pisaram em um templo budista ou sequer sabiam quem era o Buda. Basta marcar uma cerimônia funerária e os templos metem um nome qualquer no morto. No Japão, nomes mais pomposos custam mais caro. Há sites que oferecem nomes retumbantes e certificados de todas as seitas, cujo diploma vem em uma bela caixa de madeira laqueada com um crisântemo imperial dourado estampado. O celebrante é um alto dignitário, o que garante uma vida mais confortável ao morto...Interessou-se? Basta acessar o site http://kaimyo.net/
Tomar "refúgio" nas Três Jóias só para vestir um roupão sem o manto de leigo (manyi), usado por quem toma os Cinco Preceitos de Upasaka,  é só um jeitinho de agradar a gente que financia os templos mas que não quer se comprometer de verdade com o Dharma. São os comerciantes da fé que acreditam que tudo se compra, inclusive a "proteção" e a "Iluminação" e, para não ficarem sem nenhuma "veste especial", usam esse subterfúgio para se sentirem mais "praticantes".
Tomar refúgio sem assumir preceitos é o mesmo que dizer: -Ah sim, eu acredito no Buda e nos ensinamentos dele mas não quero segui-los, vou viver do meu jeito mesmo...E a Sangha, ah, ela é boa, mas eu não vou viver como ela deve viver...Estou em cima do muro, nem lá nem cá, bem chocho, bem gelatinoso...

quarta-feira, 30 de julho de 2014

O inegável dever


"Uma ação implacável deve agir de modo que sua força mais pura chegue a se manifestar, como algo invencível, pronta para transformar em cacos as carapaças da retórica, dos sentimentalismos, dos moralismos e da hipócrita religiosidade, com os quais o Ocidente recobriu e humanizou a tudo. Aquele que penetra no templo – seja também esse um bárbaro – tem o inegável dever de expulsar dali, como corruptores, todos aqueles que fizeram um “monopólio” do Espírito, do bem e do mal, da ciência e do Divino, e que obtêm vantagens de tudo isso proclamando-se como seus anunciadores, enquanto que em verdade, todos esses não conhecem outra coisa que não seja a matéria e aquilo que as palavras, o medo e a superstição dos homens estratificaram sobre a matéria. (Julius Evola. Imperialismo Pagão. 1928)



quinta-feira, 24 de julho de 2014

Essência dos Preceitos e das Transmissões

P. Arya Dharmananda,
Gostaria que me esclarecesse alguns pontos.
De forma geral, me parece que você não se apega muito aos rituais como elementos essenciais para que alguém receba o Dharma ou passe a fazer parte de uma linhagem tradicional. Vide suas críticas em relação aos rituais de “Transmissão do Dharma” do Zen, que você diz que não transmitem nada.
Mesmo assim, você realiza cerimônias de conversão, onde a pessoa recebe preceitos e faz alguns votos de maneira ritual.
Eu gostaria de entender, dentro de uma ótica mais teológica/filosófica, como é a relação de sua instituição com as cerimônias para os preceitos e as transmissões de linhagem tradicional (não precisa dizer que não são linhagens históricas porque essa parte eu entendi bem e acho bem interessante a idéia de serem supra-históricas, como a “iniciação mariana” do René Guénon. Aliás, vejo como materialista o apego a uma pseudo-historicidade).
Abraço!

R. Bem interessante a pergunta.
Para respondê-la, precisamos compreender alguns elementos chave.
Quem recebe um preceito deve manter em mente que há quatro aspectos da moralidade budista. São eles:

1) Os elementos da moralidade;
2) A essência da moralidade ;
3) A ação da moralidade ;
4) A forma da moralidade.

Dentre esses, o mais importante é a essência da moralidade.
O que isso tem a ver com sua pergunta?
Vamos chegar lá...
O indivíduo recebe o preceito de “Não Matar”. Os elementos da moralidade são o valor da vida e o veto à sua interrupção. A essência da moralidade é a consciência  do direito que todo ser tem de completar seu ciclo biológico de vida sem interferência quanto à duração ou qualidade (observadas as causas e condições necessárias para esse ciclo e a quantidade de sofrimento causada por essa interrupção). A ação da moralidade é o ato de negar-se a, por qualquer modo, extinguir a vida de outro ser. A forma da moralidade é não atirar em ninguém, não esfaquear, não financiar a morte (comendo carne, comprando carne, vendendo carne, mandando um matador matar alguém, estimulando a matança etc.).
A essência da moralidade é a energia consciente, a firme impressão recebida através da confiante e fiel aceitação do preceito. É o efeito do voto feito de todo coração, na ocasião solene do ritual de Transmissão dos Preceitos.
Essa energia deve se manifestar no pensamento, nas palavras e na ação, todas as vezes que for necessário e deve guiar o indivíduo a agir de acordo com essa disciplina moral. A essência da moralidade é uma força, uma energia moral, agindo na mente e manifestando-se como consciência moral.
A essência da moralidade é uma força moral não-manifesta (musa), imanente à mente de quem recebe os preceitos. Sendo assim, o efeito espiritual do ritual está na mente de quem faz os votos e recebe os preceitos, e não na execução ritual e cerimonial.
Podemos dizer que deve haver uma sinergia. O ritual transmite um dado conteúdo, a formalização dos votos, a forma da moralidade. Por outro lado, a mente deve estar preparada, deve haver completo convencimento da importância de tais votos, do real objetivo por trás deles, deve haver clareza em relação à execução e prática dos votos. Sem isso, a energia moral, que subjaz na própria Natureza Iluminada da mente, não será ativada e tudo não passará de uma encenação ritualística.
A mesma base pode ser utilizada para o caso da Transmissão do Dharma ou de uma Linhagem do Dharma.
A Linhagem do Dharma é uma idéia. Ela não tem uma existência objetiva, não é material, não é um objeto tangível. Eu não posso guardar uma Linhagem do Dharma dentro de uma caixa ou em um armário, porque ela é imaterial, intangível, só é acessível através do pensamento e se manifesta pela fala e pela ação (seguindo preceitos, ensinando, realizando determinadas práticas etc.).
Um papel dizendo que tal fulano recebeu uma “Linhagem” é um papel, não a Linhagem em si mesma, pois esta é imaterial. Da mesma maneira, um antigo templo ou edifício não guarda “a Linhagem”, mas sim os elementos que podem (ou não) manifestá-la.
Sendo assim, a conexão de um indivíduo a uma determinada Linhagem Tradicional, está condicionada à capacidade desse indivíduo em absorver, se adaptar e praticar uma determinada linha de raciocínio exegético e de práxis.
Esse raciocínio exegético e essa práxis são manifestados nos indivíduos que a eles se conformam e os difundem. Esses são os chamados “Portadores da Linhagem” que vai se transmitindo através do tempo.  No entanto, o processo de transmissão depende da fidelidade de quem recebe os ensinamentos e da fidelidade de quem transmite. O modo como se transmite pode variar muito também.
Dito isso, fica claro que uma Linhagem do Dharma pode ser transmitida por escritos e oralmente. Pode ser transmitida de um indivíduo para o outro, assim como pode ser transmitida de um mestre que já morreu há séculos para alguém que compreendeu e passou a praticar fielmente seus ensinos.
Na Linhagem Tradicional Tiantai, se diz que Nagarjuna foi o primeiro Patriarca. Seu sucessor, Hui-wen, nunca pisou na Índia e nasceu séculos depois de seu antecessor. Em outras linhagens, como a Linhagem Hua-yen (Avatamsaka), o Patriarca Ch’êng Kuan nasceu por volta do ano 760 da E.C., sendo que seu antecessor, Fa-tsang, morreu em 712 da E.C.
Tudo isso demonstra que se não houver REAL COMPROMETIMENTO, ou seja, uma completa adoção dos ensinamentos, sejam eles os ensinamentos morais na forma dos Preceitos ou os ensinamentos filosóficos de uma Linhagem do Dharma, aliados a um REAL CONHECIMENTO E CONSCIÊNCIA do que se está fazendo, toda cerimônia e todo ritual não passam de encenação vazia.
Qual é a realidade da transmissão de um indivíduo ignorante ir a um templo no Japão, passar por cerimônias, fazer reverências, vestir um manto e receber papéis de “Transmissão” se sua mente não aderiu àquilo e, pior, nem conseguiu compreender completamente qualquer ensinamento?
Qual é o sentido de um “mestre” que come carne, financia a morte, louva a matança, adora um “churrasco”, bebe álcool, fuma etc., “transmitir” preceitos de não matar e não tomar inebriantes ou intoxicantes? Se ele não recebeu verdadeiramente, não tem nada para transmitir...



quarta-feira, 23 de julho de 2014

Sūtra -Dhāranī do ‘Selo Stupa Tesouro das Relíquias de Todo o Corpo’ O Segredo do Coração de Todos os Tathāgatas

(T19n1022B)
Traduzido do Sânscrito para o Chinês na Dinastia Tang
pelo
Mestre Tripitaka Amoghavajra da Índia

Assim ouvi:

Em uma ocasião o Buda estava no lago Brilho da Jóia no Jardim Imaculado do reino de Magadha. Cercando-o estavam centenas de milhares de Mahāsattvas, grandes Shravakas, Devas, Nagas, yakshas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, humanos, não-humanos e outros. Naquele momento, na assembléia estava o grande brâmane chamado Luz Imaculada, que era bem educado e inteligente. Pessoas deleitavam-se em vê-lo. Tendo tomado refúgio nas Três Jóias, ele persistentemente realizou os dez bons karmas. Benevolente, opulento e sábio, ele intencionou que outras pessoas adquirissem tais benefícios, grande fortuna e prosperidade.

Luz Imaculada levantou-se de seu assento, veio ao Buda,  deu sete voltas em torno dele e ofereceu ao Honrado Pelo Mundo incenso e flores. Ele também cobriu o Buda com trajes, colares e tiaras de gemas maravilhosas e sem preço. Depois de se curvar aos pés do Buda, ele deu um passo para trás e para um lado e disse, "Eu peço para que o Honrado Pelo Mundo e a enorme assembléia venham à minha casa amanhã de manhã para aceitar minhas oferendas."

O Buda deu a ele permissão em silêncio. Sabendo que o Buda aceitou seu convite, o brâmane  se apressou rumo à sua casa. Ao anoitecer, ele ordenou uma vasta preparação de alimentos e bebidas de uma centena de sabores para o banquete. Água foi dispersada, os salões foram varridos, tendas, dosséis e bandeiras foram erguidos.

Na manhã seguinte, trazendo incenso, flores e instrumentos musicais, junto com seu séquito, o brâmane veio ao Buda. Ele disse, "A hora chegou e eu peço para que o Honrado Pelo Mundo agracie minha casa."

O Buda cumprimentou ao brâmane Luz Imaculada com palavras gentis e fez um anúncio para a enorme assembléia: "Todos vocês deveriam ir até o lar deste brâmane aceitar suas oferendas, pelo  propósito de permitir a ele grandes benefícios."

Então o Honrado Pelo Mundo levantou-se de seu assento. No instante em que o Buda se pôs de pé, Seu corpo emitiu todo o tipo de radiâncias com maravilhosas cores entremeadas, iluminando e preenchendo o espaço nas dez direções. Assim então, de imediato todos tomaram a estrada. Respeitosamente acompanhando o Buda, o brâmane trouxe maravilhoso incenso e flores com um coração reverente. Ele liderou o caminho, junto com sua comitiva, os reis Brahma, os rei deuses Śakra, os Quatro Reis Celestiais e as oito classes de Protetores do Dharma, como deuses e dragões.

O Honrado Pelo Mundo, tendo viajado não tão longe pela estrada, chegou a um jardim chamado Opulência Abundante. Nesse jardim estavam as ruínas de uma antiga stupa, em mau estado e desmoronado. Com o pátio coberto por cardos e as portas seladas por erva daninha rasteira, os escombros se assemelhavam a um monte de sujeira. O Buda foi direto em direção à stupa. Imediatamente, a stupa tornou-se vasta, iluminadamente brilhante, reluzindo e resplandecendo. Uma voz do monte de terra louvou, "Muito bom! Muito bom! Śākyamuni, Sua ação de hoje é excelente! E você, brâmane, receberá grandes benefícios hoje!"

O Honrado Pelo Mundo ofereceu reverências à stupa em ruínas circulando-a em sentido horário por três vezes. Ele retirou seu manto exterior, cobriu a stupa e chorou lágrimas de sangue. Ele então sorriu. Enquanto isso, todos os Budas [nos mundos] das dez direções, contemplando juntos, todos derramaram lágrimas, cada um emitindo luz para iluminar tal stupa. A multidão estava tão impressionada a ponto de perder a cor e todos eles quiseram por um fim naquela perplexidade.

Vajrapāni e outros Bodhisattvas também derramaram lágrimas. Girando seu vajra em chamas flamejantes ele veio ao Buda e perguntou: "Honrado Pelo Mundo, através de que causas e condições essa radiância se manifesta? Por que razão os olhos do Tathāgata derramaram tais lágrimas? E por que os Budas [dos mundos] nas dez direções emitem vasta luz auspiciosa? Eu rogo para que o Tathāgata ponha fim em minha perplexidade."

O Honrado Pelo Mundo respondeu para Vajrapāni, "Esta Stupa do Grande Tesouro das Relíquias de Todo o Corpo dos Tathāgatas contém inumeráveis kotis das dhāranīs do coração, o selo secreto dos fundamentos do Dharma de todos os Tathāgatas. Vajrapāni, por causa dos fundamentos do Dharma contidos nela, a Stupa tornou-se organizada em camadas, perfeitamente como as sementes [na vagem] de gergelim. Os corpos de 100.000 kotis de Tathāgatas são também como tais sementes de gergelim. Contida na stupa está a acumulação das relíquias de todo o corpo de 100.000 kotis de Tathāgatas e ainda o repositório de 84.000 Dharmas. Também contidas nele estão 99 bilhões kotis de coroas de Tathāgatas. Por causa dessas coisas maravilhosas, o local dessa stupa tem soberbas, incríveis virtudes e serve como testamento espiritual. Ela pode preencher por completo o mundo com eventos auspiciosos."

Quando a multidão ouviu as palavras do Buda, eles afastaram a poeira e sujeira [suas aflições] e adquiriram o puro olho do Dharma. Pelas capacidades da multidão serem tão variadas, cada um recebeu um benefício diferente. Alguns tornaram-se Pratyekabuddhas; alguns atingiram o fruto de Sravakas, tornando-se Srotāpannas, Sakrdāgāmins, Anāgāmins ou Arhats. No caminho do Bodhisattva, alguns atingiram o nível de avinivartanīya ou adquiriram sarvajña; alguns atingiram o Primeiro Nível, Segundo Nível ou mesmo o Décimo Nível; e alguns completaram as seis pāramitās. O brâmane afastou a poeira e sujeira [de suas aflições] e adquiriu os cinco poderes transcendentais.

Testemunhando tais ocorridos sem precedentes, Vajrapāni exclamou, "Honrado Pelo Mundo, quão maravilhoso e quão extraordinário! Se as pessoas adquirem tais excelentes méritos por meramente ouvir sobre esse assunto, quanto mais mérito hão de adquirir se ouvirem a profunda verdade e manifestarem sua confiança com uma mente diligente?"

O Buda respondeu, "Ouça com atenção, Vajrapāni! Em tempos futuros, se dentre homens de fé, mulheres de fé e meus quatro grupos de discípulos, houver aqueles que forem inspirados a copiar este sūtra, eles em efeito copiam todos os sūtras pronunciados por 99 bilhões kotis de Tathāgatas. Todos os Tathāgatas apoiam, protegem e lembram-se deles da mesma forma que eles cuidam de seus próprios olhos ou como mães amorosas cuidam de seus filhos pequenos. Se uma pessoa recita este sūtra curto, ele em efeito recita todos os sūtras pronunciados pelos Budas do passado, presente e futuro. Por essa razão, 99 bilhões kotis de Tathāgatas, também chamados de Arhats, Samyak-Sambuddhas virão, um ao lado do outro, sem nenhuma lacuna entre eles, como as sementes de gergelim empilhadas. Dia e noite eles aparecerão e apoiarão essa pessoa. Então, todos os Budas Tathāgatas, que são numerosos como as areias do Ganges virão. O primeiro grupo deles sequer deixa o local e o próximo já haverá chegado. Eles todos instantaneamente se afastam e retornam novamente, como areia fina girando em um turbilhão de água rápida. Incessantemente, eles vêm novamente e tão logo quanto, se afastam. Se uma pessoa faz oferendas de incenso, flores, perfumes sólidos, guirlandas, vestimentas e ornamentos maravilhosos a este sūtra, ele em efeito faz uma completa perante 99 bilhões kotis de Tathāgatas [nos mundos] nas dez direções, de incenso divino, flores, vestimentas e ornamentos constituídos dos sete tesouros, todos empilhados à altura tal como a do Monte Sumeru. O plantio de raízes de bondade de alguém pode ser realizada da mesma forma."

Tendo ouvido tais palavras, as oito classes de protetores do Dharma, tais como deuses e dragões, assim como humanos, não humanos e outros, completamente maravilhados, disseram uns aos outros, "Quão maravilhosa é a incrível virtude deste velho monte de terra! Sua miraculosa manifestação tem que ter sido causada pelo poder espiritual do Tathāgata."

Vajrapāni em seguida perguntou ao Buda: "Honrado Pelo Mundo, através de que causas e condições é que esta stupa, constituída dos sete tesouros, agora se manifesta como uma pilha de sujeira?"

O Buda respondeu para Vajrapāni: "Isto não é uma pilha de sujeira, mas uma maravilhosa, grande Stupa dos Tesouros. Ela está oculto por causa da inferioridade dos frutos kármicos dos seres sencientes. Embora a stupa esteja oculta, os corpos dos Tathāgatas são indestrutíveis. Como poderiam os corpos depósitos-vajras dos Tathāgatas serem destruídos? Depois que eu houver abandonado meu corpo, o fim do Dharma será implacável em tempos futuros. Seres sencientes que agem contra o Dharma estão inclinados a cair no inferno, pois eles nem confiam nas Três Jóias nem plantam raízes de bondade. Por tal razão, o Dharma do Buda deverá ser escondido. Mas tal stupa ainda será sólida e não será demolida, pois é sustentado pelo poder espiritual de todos os Tathāgatas. Contudo, seres ignorantes, cobertos e obstruídos por sua delusão, não sabendo como desenterrar e usar o tesouro, simplesmente o deixam sepultado. Por tal razão, eu agora verti lágrimas e outros Tathāgatas verteram lágrimas da mesma forma."

O Buda então disse a Vajrapāni, "Se uma pessoa copia este sūtra e consagra a cópia em um pagode, esse pagode se tornará a stūpa repositório vajra de todos os Tathāgatas e a stūpa sustentada pelo segredo do coração do dhāranī de todos os Tathāgatas. Ela será a stūpa de 99 bilhões kotis de Tathāgatas e a stūpa da coroa do Buda e olho do Buda de todos os Tathāgatas e será protegida por seus poderes espirituais. Se você consagrar este sūtra dentro de uma estátua do Buda em uma stūpa, a estátua será, em efeito, constituída dos sete tesouros. Essa estátua será tão eficaz e suscetível que os desejos de tal pessoa serão realizados sem exceção.

"De acordo com sua habilidade, construa para a stūpa tais coisas: tendas, redes, colunas, rodas recolhedoras de orvalho, finos beirais, sinos, alicerces ou plataformas. Mesmo que você use terra, madeira, rochas ou tijolos, eles se transformarão em sete tesouros devido aos incríveis poderes deste sūtra. Além disso, todos os Tathāgatas aumentarão o poder deste sūtra. Mantendo uma promessa sincera, eles sustentam-no incessantemente.

"Se um ser senciente presta reverências e faz uma oferta de apenas um pouco de incenso e uma flor a este pagode, suas graves faltas, que causariam 80 kotis de kalpas de vida e morte, serão todas apagadas de uma só vez. Ele estará livres de catástrofes durante sua vida e depois da morte renascerá numa família de Buda. Mesmo para uma pessoa que tenha caído no Inferno Avīci, se ele fizer apenas uma reverência para o pagode ou circulá-lo em sentido horário, a porta do inferno estará bloqueada e a estrada para bodhi será aberta.

"Além disso, o local do pagode ou sua imagem serão protegidos pelo poder espiritual de todos os Tathāgatas. o local não será danificado por furacões e raios. Nem será perturbado por cobras peçonhentas, víboras, escorpiões e outros insetos venenosos, nem prejudicado por leões, elefantes descontrolados, tigres, lobos, chacais ou outros animais. Estará livres do terror de yaksas, raksasas, pūtanas, piśācas, espíritos, monstros e epilepsia. Não será perturbado por doenças, tais como calafrios, febres, chagas, cistos, sarnas e psoríases. Alguém pode evitar todos os desastres por observar o pagode brevemente. No local do pagode, cavalos, seis tipos de suprimentos e pessoas, incluindo jovens meninos e meninas, não serão importunados por epidemias. Eles não sofrerão mortes não naturais, mortes acidentais, nem serão feridos por facas, bastões, inundações e fogo. Eles não serão atacados por bandidos e inimigos e não terão preocupações a respeito de fome ou pobreza. Eles não estarão sujeitos ao poder de feitiçaria ou maldições. Os quatro grandes reis deuses e suas comitivas os protegerão dia e noite. E ainda as vinte e oito classes de generais yaksas, o sol, a lua, os cinco planetas e cometas semelhantes a nuvens os protegerão dia e noite. Todos os reis dragões aumentarão suas energias vitais e darão chuva no tempo certo. Todos os deuses, incluindo aqueles no Paraíso Trayastrimśa descerão durante os três períodos do dia para fazer oferendas. Todas as apsaras se encontrarão durante os três períodos para circular a stupa, cantar canções de louvor, dar graças e prestar respeitos. O rei deus Śakra e deuses descerão durante os três períodos do dia para fazer oferendas. O local  será lembrado e sustentado por todos os Tathāgatas. Assim será a stupa, pois contém este sūtra.

Se as pessoas construírem uma stupa usando terra, pedra, madeira, outro, prata, bronze e chumbo e se eles copiarem este mantra espiritual e consagrarem a cópia na stupa, tão logo quanto for consagrada, a stupa será, em efeito, constituída dos sete tesouros. As plataformas superiores e inferiores, as rodas recolhedoras de orvalho, tendas, sinos e colunas serão todos constituídos dos sete tesouros. Também os quatro lados da stupa terão imagens de Tathāgatas. Devido aos fundamentos do Dharma, todos os Tathāgatas firmemente protegerão e sustentarão a stupa, permanecendo dia e noite sem partir. Devido ao incrível poder do mantra, a stupa feita de sete tesouros, que contém o maravilhoso tesouro das relíquias de todo o corpo, se erguerá por entre os palácios do Paraíso Akanistha. Seja onde for que uma stupa se erga como uma montanha, todos os deuses o verão com reverência, manterão guarda e farão oferendas dia e noite."

Vajrapāni perguntou: "Através de que causas e condições possui este Dharma tal soberba virtude?"

O Buda respondeu: "Devido ao poder espiritual deste Dhāranī do Selo da Caixa de Tesouro."

Vajrapāni disse, "Eu rogo para que o Tathāgata, excedido em compaixão por todos nós pronuncie este dhāranī."

O Buda respondeu, "Ouça com atenção, contemple e não se esqueça! A radiância das cópias de corpos de todos os Tathāgatas do presente e as relíquias de todo o corpo de todos os Budas do passado estão contidas neste Dhāranī do Selo da Caixa de Tesouro. Os três corpos de cada Tathāgata também estão depositados nele."

Então o Buda pronunciou o dhāranī:


Namas tryadhvikānām sarva tathāgatānām | om bhuvi-bhavana-vare | vacana-vacati suru suru dhara dhara | sarva tathāgata dhātu dhare | padmam bhavati jaya vare mudre | smara tathāgata dharma-cakra pravartana vajre bodhimandālamkārālamkrte | sarva tathāgatādhisthite | bodhaya bodhaya bodhi bodhi | budhya budhya sambodhani sambodhaya | cala cala calantu | sarvāvaranāni sarva pāpa vigate | huru huru sarva śoka vigate | sarva tathāgata hrdaya vajrini | sambhāra sambhāra | sarva tathāgata guhya dhāranī-mudre | bhūte subhūte | sarva tathāgatādhisthita dhātu garbhe svāhā | samayādhisthite svāhā | sarva tathāgata hrdaya dhātu mudre svāhā | supratisthita stūpe tathāgatādhisthite huru huru hūm hūm svāhā | om sarva tathāgatosnisa dhātu mudrāni | sarva tathāgata sadhātu vibhūsitādhisthite hūm hūm svāhā ||


Depois que o Buda terminou de recitar tal dhāranī, todos os Budas Tathāgatas no monte de terra externaram seus louvores: "Muito bem! Muito bem! Śākya, o Honrado Pelo Mundo, tu surgiste neste lamacento e vil mundo para expor o profundo Dharma para o benefício dos seres  que não possuem nada e ninguém em quem confiar. Além disso, os fundamentos do Dharma permanecerão por um longo tempo no mundo, trazendo abrangentes, abundantes benefícios e alegre paz."

Então o Buda disse para Vajrapāni, "Ouça com atenção! Ouça com atenção! Os fundamentos deste Dharma possuem inextinguível poder espiritual e benefícios ilimitados! Ele é como uma jóia realizadora de todos os desejos na ponta de uma bandeira cilíndrica, constantemente aspergindo tesouros e realizando todos os desejos. Em seguida, eu brevemente descreverei um décimo de milionésimo de tais benefícios ilimitados. Você deve se lembrar e conservá-lo pelo benefício de todos os seres.

"Se um homem vil depois da morte cai no inferno, ele deve sofrer ininterruptamente, sem saber quando o alívio virá. Contudo, se seus descendentes disserem seu nome e então recitarem tal dhāranī, na completude de apenas sete repetições, o cobre derretido e o ferro ardente no inferno, de súbito, se transformarão em água potável com as oito virtudes. Tal homem terá uma flor de lótus sustentando seus pés e uma tenda de jóias sobre sua cabeça. A porta do inferno se partirá e o Caminho de Bodhi se abrirá. Sua flor de lótus voará até a Terra da Bem Aventurança Definitiva. Lá, seu conhecimento de todo conhecimento se desdobrará espontaneamente. Deleitando-se em expôr o Dharma infinitamente, ele estará pronto para atingir a Budeidade em sua próxima vida.

"E ainda, uma pessoa que, com um coração pesado, sofre das 100 enfermidades como retribuição de suas graves faltas, deveria recitar tal mantra espiritual vinte e uma vezes. Então 100 enfermidades e 10.000 angústias serão todas eliminadas de uma só vez. A duração de sua vida será alongada e sua sorte e méritos serão imensuráveis.

"Suponha que uma pessoa tenha nascido numa família pobre devido a seu karma de ganância e mesquinhez. Suas roupas não podem cobrir seu corpo e sua comida não pode sustentar sua vida. Definhado e pálido, ele é desprezado pelos outros. Tal pessoa, envergonhado de si mesmo, vai até uma montanha e lá colhe flores selvagens que não pertenciam a ninguém. Ele mói madeira velha para incenso em pó. Então ele vai à stupa para prestar reverências e oferendas, circulando-a sete vezes, arrependendo-se em lágrimas. Devido ao poder deste dhāranī e das incríveis virtudes da stupa, sua pobreza retribuída findará e sorte repentinamente chegará. Os sete tesouros aparecerão como chuva abundante. Contudo, naquela hora, ele deverá doar aos pobres e necessitados, honrando completamente o Dharma de Buda. Se ele estiver relutante em doar, sua riqueza irá de súbito desaparecer.

"Suponha que uma pessoa, plantando raízes de bondade para si mesmo, construa uma stupa para sua própria satisfação, usando terra ou tijolos que possa conseguir. A stupa seja grande como uma manga, sua altura cerca de quatro dedos de distância. Ele copia este dhāranī e consagra a cópia na stupa. Então ele presta reverências e oferece incenso e flores. Devido ao poder do mantra e seu coração confiante, vastas, fragrantes nuvens virão para fora da pequena stupa. A fragrância e a luz das nuvens se espalharão pelo reino do Dharma, largamente fazendo o trabalho do Buda com fragrância e nuvens radiantes. Os benefícios que ele receberá são como eu acabei de afirmar. Em suma, todos seus desejos serão realizados sem exceção. Durante a era do fim do Dharma, se, dentre meus quatro grupos de discípulos, bons homens, boas mulheres, houver aqueles que, seguindo a Via não excedida, façam seu melhor para construir stupas e consagrar este mantra dentro deles, eu não poderia terminar de descrever o mérito que eles hão de adquirir.

"Se uma pessoa vai à stupa para pedir por sorte, ele deveria prestar reverência e oferecer uma flor e um pouco de incenso à stupa e circulá-la em sentido horário. Devido a seus atos virtuosos, posição e glória chegarão sem que se busque. Longevidade e prosperidade aumentarão sem esforço. Inimigos e bandidos cairão sem serem subjugados. Pensamentos vingativos e maldições voltarão à sua fonte sem resistência. Epidemias e forças malignas irão embora sem necessidade de serem purificadas. Um bom marido e uma boa esposa virão sem que sejam persuadidos. Belos e bons filhos nascerão sem que se reze por isso. Todos os desejos serão realizados no momento em que forem desejados.

"Mesmo os corvos, corujas, rolinhas, gaviões, lobos, chacais, mosquitos, formigas e coisas assim, que momentaneamente venham às sombras da stupa e pisem na grama que há lá, terão seus impedimentos aflitivos todos aniquilados e reconhecerão sua ignorância. Eles de súbito entrarão em uma família de Buda e livremente receberão a opulência do Dharma. Ainda maiores são os benefícios a humanos que tendo vista a forma da stupa, ouvido o dobrar de seus sinos, ouvido seu nome ou estado sob sua sombra. Seus impedimentos causados por faltas serão todos aniquilados e seus desejos realizados. Suas presentes vidas serão pacíficas e eles renascerão na Terra da Bem Aventurança Definitiva.

"Se uma pessoa sem esforços extraordinários, aplica uma bola de lama no muro danificado da stupa ou usa uma pedra do tamanho de um punho para apoiar uma stupa inclinada, devido a seus atos virtuosos, sua sorte aumentará e a duração de sua vida será estendida. Depois da morte ele renascerá como um Rei Girador da Roda.

"Após eu ter abandonado meu corpo, meus quatro grupos de discípulos, em ordem de resgatar os seres em existência miserável, deveriam vir perante esta stupa, fazer oferendas de incenso e flores e recitar tal dhāranī, fazendo votos com diligência. Cada e toda palavra e frase do mantra [proferida] irradiará vasta, brilhante luz, iluminando os três maus caminhos da vida para acabar com todo sofrimento. Uma vez que tais seres sencientes estiverem livres do sofrimento, suas sementes Búdicas germinarão. Eles então renascerão como desejarem nas Terras Puras das dez direções.

"Se uma pessoa recita este mantra diligentemente no topo de uma alta montanha, todos os seres  na área de sua visão, incluindo aqueles que tem pelos, penas, escamas e conchas, residindo próximos ou distantes nos vales da montanha, florestas, riachos, lagos, rios e oceanos, aniquilarão seus impedimentos aflitivos e reconhecerão sua ignorância. Eles compreenderão suas três naturezas de Buda e eventualmente atingirão o grande nirvāna. Se pessoas caminhando pela mesma estrada que tal pessoa são tocadas pelo vendo que soprou em suas roupas, pisam em suas pegadas, veem sua face ou conversam com ele brevemente, suas graves faltas são todas apagadas e seus siddhis aperfeiçoados."

O Buda então disse para Vajrapāni, "Eu agora confio tal dhāranī secreto e seu sūtra a todos vocês. Reverenciem-nos, protejam-nos, conservem-nos e disseminem-nos no mundo. Não permitam que a transmissão [do Dharma] termine para os seres ."

Vajrapāni disse, "Eu estou honrado em receber a confiança do Honrado Pelo Mundo. Eu rogo apenas para que possamos retribuir o Honrado Pelo Mundo por sua profunda graça, dia e noite protegendo, conservando, disseminando e pronunciando [o mantra e o sūtra] ao mundo. Se houver seres  que copiem, conservem e se lembrem deles incessantemente, nós ordenaremos aos reis Brahma, ao deus rei Śakra, aos quatro Reis Celestiais e às oito classes de protetores do Dharma que os protejam dia e noite sem deixar o lugar nem mesmo temporariamente."

O Buda disse, "Muito bem! Vajrapāni, para o benefício de todos os seres do futuro, proteja e conserve este Dharma e torne-o infinito."

Depois do Honrado Pelo Mundo pronunciar seu Dhāranī do Selo da Caixa de Tesouro e largamente ter feito seu trabalho Búdico, ele deixou o lar do brâmane e aceitou suas oferendas, causando a humanos e deuses o recebimentos de grandes benefícios. Então ele retornou ao local onde estava.

Naquele momento os bhiksus, bhiksunīs, upāsakas, upāsikās, deuses, dragões, yaksas, gandharvas, asuras, garudas, kimnaras, mahoragas, humanos, não humanos e outros na assembléia se alegraram grandemente. Eles todos acreditaram, aceitaram e reverentemente mantiveram os ensinamentos.

Sūtra do Dhāranī do Selo da Caixa de Tesouro de Todo o Corpo,
o Segredo do Coração de Todos os Tathāgatas


(T19n1022B)





Para quem quiser ver uma animação com a história desse sutra, vale a pena assistir. Não tem legendas em português nem em inglês, mas, tendo lido o texto acima, fica fácil compreender a história: