terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

As outras religiões e o Budismo

P. Arcebispo Arya Dharmananda,

Eu acompanho seu blog há um bom tempo e, apesar de não ser budista (sou cristão), admiro muito seu estilo direto, claro e lógico.
Não sei onde podem achar um ponto menos correto em suas exposições do ponto de vista budista. O senhor sempre demonstra tudo com muita clareza, com bases  e inclusive, demonstra um profundo conhecimento de outras religiões.Eu mesmo já aprendi muito da minha própria religião lendo seu blog e já recomendei a outros cristãos como eu que o lessem.
Minha pergunta ao sr. é a seguinte: Como se dá a relação de respeito entre budistas e outras religiões, como a cristã, sem cair nas misturas e no ecumenismo barato que o sr. condena (e eu concordo plenamente)?
Desde já agradeço!


R. Prezado sr. XXX,

Agradeço seu gentil e-mail.
O sábio Nagarjuna, em seu "Tratado da Grande Sabedoria/大智度論" diz que toda palavra verdadeira, ainda que pronunciada ou escrita por um não-budista, é uma palavra do Buda.
Se estudarmos o conceito do "Perfeito e Total Buda / 圓佛", que é o próprio Dharmakaya Mahavairocana 法身大日, veremos que Ele não tem uma forma definida, não é uma individualidade, mas é a própria Natureza Verdadeira e Unívoca de toda a realidade.
Sendo assim, Ele manifesta sua realidade absoluta em todos os entes e em todos os fenômenos, de acordo com leis imutáveis e, muitas vezes, misteriosas a nós.
As formas exteriores e os costumes religiosos, como tudo que é condicionado, são destituídas de substância própria e, portanto, transitórias (as duas primeiras verdades essenciais enunciadas pelo Mestre Tiantai Zhiyi).
Como o Dharmakaya é "todo penetrante" e como toda a realidade e todos os mundos estão contidos em cada pensamento ou fenômeno (一念三千), tudo aquilo que é percebido como fato apodítico (necessariamente verdadeiro, ou demonstrável, ou que admite certeza para além de qualquer dúvida) é manifestação da Natureza de Buda.
Sendo assim, podemos dizer que o Dharma engloba todo e qualquer ensinamento necessariamente verdadeiro, venha de onde vier.
Os budistas então, reverenciam toda parcela da Verdade Absoluta, onde quer que ela se encontre. Logo, o que é reconhecidamente apodítico em todas as religiões, é parte do Dharma de Buda.
Isso é a forma de respeito mais consciente e mais honesto que se pode ter em relação às diversas manifestações religiosas. É completamente diferente da adoção cega da "geléia multicor" dos movimentos ecumenistas ou das forçadas aproximações sem análise objetiva entre as religiões.
O budista deve estudar e buscar a Verdade em todas as suas manifestações. No entanto, para realizar isso de maneira adequada, deve realizar uma análise calma e consciente de tudo, estudando os diversos pontos doutrinários e analisando a fiabilidade e a veracidade dos mesmos junto da realidade objetiva e subjetiva.
Aquilo que é necessariamente verdadeiro é parte do Dharma. Aquilo que não é, é maya (ilusão).

O que mais se vê por aí...


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Eu não sou Charlie, sou Copta

Ao contrário dos "budistas" moderninhos eu não sou Charlie.
Sou copta. Em homenagem aos 21 cristãos coptas degolados covardemente pelo "Estado Islâmico".


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A visão budista sobre causar cisão


As sagradas escrituras budistas e os códigos morais do Budismo enumeram uma série de faltas que ocasionam graves conseqüências kármicas. Uma das mais graves é causar cisão dentro da comunidade.
É importante compreender que o karma não é algo mágico, mas, simplesmente, o resultado que amadurece como fruto das ações.
A palavra karma vem da Raiz Kr = Fazer/Ato

O karma inclui vontades salubres e insalubres (kusala e akusala cetana) que manifestam ações salubres e insalubres do corpo (kayakamma), da fala (vacikamma) e da mente (manokamma).
Quando plantamos um pé de maçã, não devemos esperar que nasça um pé de mexerica. Se plantamos feijão, não é razoável esperar colher trigo ou arroz. Se plantamos pensamentos e vontades insalubres, coisas negativas e maldosas, obviamente colheremos os frutos correspondentes.
Existem, classificados nas sagradas escrituras do Budismo 12 tipos de karma, dos quais darei um pequeno exemplo:
1- Dittha Dhamma Vedaniya Kamma : Karma imediatamente efetivo.Exemplo: Dar um tiro em uma pessoa é um karma imediatamente efetivo.
2- Upapajja Vedaniya Kamma: Karma subsequentemente efetivo. Exemplo: Decidir fazer uma conversão proibida e ser atingido por um outro veículo naquele local onde não deveríamos estar é um karma subsequentemente efetivo.
3-Aparapariya Vedaniya Kamma: Karma com efetividade indefinível. Exemplo: Pensamos mal de alguém sem falarmos disso para ninguém. Não é possível definir quando e como será a efetividade de tal karma.
4- Ahosi Kamma: Karma esquecido que se torna inoperante. Exemplo: Plantamos uma semente em um vaso mas esquecemos de cuidar dela. A terra seca e a semente não germina.
5-Janaka Kamma: Karma gerativo que condiciona estados futuros de existência. Exemplo: Não cuidamos de nossa saúde, não damos adequado tratamento as nossas enfermidades. Isso condiciona estados futuros de nossa existência.
6-Upatthambaka Kamma: Karma de suporte. Exemplo: Uma ação que apóia a outra. Antes de executarmos um ato, precisamos pensar nele e em sua execução. O ato de tramar a execução é um karma de suporte à ação.
7-Upapidaka Kamma: Karma neutralizante. Exemplo: Uma ação que neutraliza a outra. Um policial que abate um maníaco que está disparando contra as pessoas em um local cheio.
8- Upaghataka Kamma: Karma destrutivo.Exemplo: Matar alguém, destruir a vida, destruir a reputação.
9-Garuka Kamma: Karma grave. Exemplo: Ação que leve a graves conseqüências físicas e morais.
10- Asanna Kamma : Karma que aproxima a morte. Exemplo: Qualquer ação que abrevie a vida própria ou de outrem.
11-Accina Kamma: Karma habitual. Exemplo: Ações que executamos habitualmente e que formam hábitos arraigados que trazem conseqüências.
12- Katattavapana Kamma: Karma cumulativo que permanece dormente e torna se ativo na presença de outros karmas de suporte. Exemplo: Uma atitude ou vício já abandonados que, ao serem revistos ou estimulados, retomam força e vigor, como se nunca tivessem sido abandonados.
Os textos sagrados budistas classificam os “Sete Atos Graves” como as piores ações que alguém pode cometer. São eles:
1-Derramar o sangue de um Iluminado (um Buda)
2-Matar um monge que eliminou todos os grilhões à Iluminação (um Arhat)
3-Matar o próprio pai
4-Matar a própria mãe
5-Assassinar um Mestre do Dharma
6-Assassinar um Mestre dos Preceitos
7-Causar cisão na Comunidade

(Cf. Mahayana Brahmajala Sutra, 40º Preceito)

Note-se que causar cisão na Comunidade é um ato equivalente a derramar o sangue de um Buda, equivalente a cometer parricídio e matricídio...
Causar cisão é rachar uma comunidade através de maledicências, buscar poder através da divisão, enganar as pessoas  dizendo a elas inverdades para que elas sigam o que planta a divisão. Quem causa a cisão prejudica a todos aqueles que o seguem (enganando-os), prejudica os que não o seguem (causando-lhes dificuldades), prejudica a si próprio alimentando uma visão incorreta e iludida, alimenta o próprio orgulho e, ainda, difunde uma visão incorreta fazendo com que seres que podiam atingir estados superiores de existência não mais tenham essa possibilidade. Em outras palavras, o que alimenta a cisão bloqueia o caminho de incontáveis seres, até por gerações, para a Verdade.
É uma ação terrível que gera uma avalanche de conseqüências nefastas e arrasta a muitos para as trevas.
As conseqüências são graves para os que são iludidos pela cisão e são terríveis para os que causam a cisão.
Aqueles que cometem quaisquer das Sete Graves Ações são impedidos de receber os preceitos budistas e é dito que eles arrancaram as sementes da Iluminação de si mesmos.



quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

As origens "humanas" do Dharma

P. Arya Dharmananda,

Primeiramente gostaria de agradecer pelas respostas de alto nível que tem me fornecido. Isso com certeza demonstra bem a nós seguidores da Tradição onde devemos buscar orientações seguras e tradicionais sobre o Budismo.
A tomar como base os resultados de meus contatos com budistas e hindus no Brasil, creio que você é o único representante Tradicional dos ensinamentos orientais em terras brasileiras.
Justamente por isso, creio também que seja o único apto a iniciar discípulos nas formas esotéricas do budismo, apesar de não iniciar interessados externos à sua própria comunidade - o que lembra o procedimento de alguns sheikhs do Sufismo das Ordens Sufis tradicionais da Turquia, do Egito e de outros locais que visitei.
Pelo nível do conhecimento demonstrado, percebo estar tratando com um Alto Iniciado e, justamente por isso, peço para abusar um pouquinho mais de sua sabedoria.
Eu li na declaração de princípios de vossa Ordem que vocês consideram o Dharma como um caminho humano, concebido por seres humanos etc. As passagens às quais me refiro são:

1- O Budismo é um Caminho Humano, concebido por seres humanos e voltado para a realização plena do ser humano. Não é uma religião dita ‘divina’, não adora deuses ou deus, nada pede para eles, não se pronuncia sobre sua existência ou inexistência, não trata de fatos tidos como ‘sobrenaturais’, doutrinas inobserváveis, deuses ou deus, existência de fantasmas, vida após a morte, espíritos ou qualquer coisa do gênero. (vide Cula-Malunkyovada Sutra – As Curtas Instruções para Malunkya – Majjhima Nikaya 63 – Chuangonkyō 221).

2 – O Budismo não se presta a fins supersticiosos como trazer boa sorte, fortuna, curas ou influenciar por meios mágicos o destino da vida humana ou os fatos pertinentes a ela. As escrituras budistas condenam veementemente tais práticas chamando-as de tiracchana-vijja - artes inferiores (vide Brahmajala Sutra – Digha Nikaya 1).

Tendo em vista que os autores tradicionais, como Guénon, Évola, Schuon, Lings etc., situam as verdadeiras tradições em um plano sobre-humano, ou em uma dimensão além da humana e mesmo a origem dos ritos como não-humana, gostaria que você explicasse o sentido desse "Caminho Humano" e dessa concepção por seres humanos. 
A parte da "vida após a morte" eu acredito que se refira à vida da personalidade individual, não é?
Também gostaria de saber sobre esse bloqueio em relação a magia etc., que é um ponto partilhado com Guénon especialmente.

Muitíssimo obrigado!

R.: Prezado XXX,

O Budismo é um Caminho Humano na mesma medida que são "caminhos humanos" todas as religiões, tradições e iniciações. De fato, são elas revestidas de características humanas, de linguagem humana, de costumes humanos, de atos condicionados pelas culturas humanas, voltados aos seres humanos etc.
O Grande Mestre Tiantai Zhiyi ensina que a linguagem e o aparato exterior do qual se reveste o Dharma, assim como toda a realidade, são transitórios e condicionados. Transitórios e condicionados são nossos pensamentos e os elementos que lhes servem de condição, de material. Condicionadas e causadas são nossas linguagens, são nossas línguas vernáculas, são também os ambientes nos quais originamos nossas caminhadas, nossos pensamentos, interesses etc.
Nesse ponto, somos limitados. Estamos limitados à nossa condição humana. Nossos símbolos só fazem sentido por se relacionarem com aquilo que faz sentido aos humanos. 
Enquanto a Verdade Suprema, a Realidade Absoluta, não é condicionada, causada ou limitada, nosso modo de expressar e de comunicar nossas experiências com essa Verdade são causadas, limitadas e condicionadas.
É a nós impossível expressar com exatidão o que é incausado ou incondicionado, porque tudo em nós é causado e condicionado.
Sendo assim, não há sentido em confundir aquilo que é expresso em nossa linguagem humana como Budismo e como Dharma e o próprio Dharma em sentido absoluto, o Dharma como ser (Dharmakaya). 
O Dharmakaya não é humano, não é causado, não é condicionado, é a própria Verdade toda penetrante. Mas, a nós, é impossível transmiti-lo dessa maneira. Estamos presos na dimensão da linguagem e dos conceitos. Só conseguimos transmitir algo pela linguagem (seja a oral, seja a simbólica) e com ela construir conceitos. 
Nesse sentido, é estúpido acreditar que aquilo que chamamos de doutrinas superiores não tenham limitações humanas. É claro que as têm. Foram concebidas no mundo humano, construídas por seres humanos e transmitidas por vias humanas a outros seres humanos.
Acreditar que o incondicionado e incausado atuará de maneira direta no material, como acreditam aqueles que acham que os Budas e os Bodhisattvas "baixam" literalmente em seus ritos e se preocupam com seus desejos mundanos, com suas questiúnculas e vidinhas, é de uma arrogância e de um reducionismo sem par.
O Dharma é o máximo que podemos atingir em nosso contato com a Verdade. O Dharma nos proporciona uma "porta secreta" pela qual experimentamos a Verdade e nos unimos a ela. No entanto, só podemos fazer isso com nossa pequena condição humana e através daquilo que nossa natureza humana permite. Obviamente que a origem dessa porta é uma experiência entre o que é humano e o não-humano, ou seja, é algo superior ao meramente humano, mas só se transmite através das condições próprias de nossa existência meramente humana.
O Buda histórico era humano. Sua realização era sobre-humana, mas sua condição sempre foi a condição humana. Não era um ente de outra natureza, mas sim um ente de natureza idêntica à nossa que atingiu um Estado de Realização sobre-humano.
Os ritos são hierofanias, uma palavra cara a Mircea Eliade, ou seja, são encontros entre o humano e o não-humano. Partem dessa percepção do que é mais que humano e, por isso, têm origem não humana. As tradições também partem dessa mesma experiência, por isso também são não-humanas. Mas, isso é diferente de dizer que elas podem se transmitir fora dos caminhos humanos. Por isso, todas são concebidas como caminhos humanos e voltadas para seres humanos, não para entes etéreos ou imateriais.
Em relação à magia ou a ciências mágicas, podemos dizer que são obstáculos efetivos em qualquer via de iniciação efetiva. Elas dispersam forças e demandam esforços que, de maneira geral, redundam em fracassos e inutilidades.
Concordo plenamente com Guénon em "O Erro Espírita", quando ele afirma que os médiuns são doentes a quem devemos ter piedade e prestar auxílio e não "seres evoluídos" ou que alcançaram qualquer realização. Também concordo quando ele diz que os tais "poderes espirituais", admirados pelos ocidentais nos faquires vulgares do Oriente, não passam de empecilhos e inutilidades para as verdadeiras realizações espirituais. Inutilidades custosas e que demandam tempo, mas, ainda assim, inutilidades.
Sim, você está certo com relação à parte da "vida após a morte". Referimo-nos à negativa da subsistência da personalidade...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A questão das relíquias

P. Arya,

Você acha que o culto inicial das relíquias no buddhismo era algo supersticioso? Ou há algum fundamento para ele? E a construção das stupas e as práticas em volta delas? Não era um culto das relíquias?

Grata!

R. O culto das relíquias tem um sentido tradicional que é  desconhecido quase completamente.
Aliás, em geral, tal sentido se encontra mais nas categorias esotéricas de comentário do que em comentários voltados para o grande público.
Vou tentar explicar de algumas maneiras possíveis, abrangendo os ensinamentos tradicionais de maneira geral.
No platonismo, os seres portam três "almas". Uma alma concupiscível que o move  para os instintos e para a satisfação dos sentidos (sensualidade). Uma alma irascível que o move para as emoções e os sentimentos. Uma alma racional que o move para as regiões do intelecto, da contemplação, das observações superiores e das realizações espirituais.
No cristianismo antigo se falava em corpo, alma e espírito.
O corpo seria a parte do homem que estava relacionada com a matéria, com as solicitações materiais, a parte "bestial". A alma era a parte que "animava" (anima - alma em latim) a estrutura material e que também realizava operações mais sutis, relacionadas aos sentimentos e às emoções (que afloravam no corpo). Daí se utilizar a terminologia de "estar com a alma em frangalhos" ou "alma partida de tristeza" etc. O espírito era aquilo que se relacionava com o que há de mais elevado, com Deus, com as virtudes e com a razão. Em outras palavras, é o mesmo esquema de Platão, só que um pouco modificado.
No Budismo, a Natureza Original ou Natureza de Buda, permeia todo o ser, mas, de acordo com as ações e os efeitos dela resultantes (karma), a Ilusão (maya) se torna um obstáculo progressivo para a manifestação da Natureza Original e acaba  a"soterrando" sob as camadas mais grosseiras, impedindo os seres de reconhecerem sua própria Natureza Verdadeira.
Não há nesses ensinamentos um dualismo rígido entre matéria e espírito, ou matéria e mente.
O platônico se divinizava à medida que permitia que a alma racional permeasse a alma irascível e concupiscível. Sendo assim, seu corpo era o veículo das verdades mais elevadas que ele podia contemplar no Hiperurânio.
O cristão se santificava à medida que dava ao espírito um maior alimento, através dos atos piedosos, da vida devota, das ações virtuosas. Ele todo se sentificava, pois também seu corpo seria ressuscitado e glorificado no juízo final.
O budista se torna um veículo da Verdade, à medida que galga os graus do "Nobre Caminho" (Arya Marga) e que faz de sua vida a manifestação da Via do Bodhisattva.
Em todos esses casos, as mais elevadas aspirações e as mudanças comportamentais que delas advém, não estão separadas do corpo. É o corpo que realiza os atos, é o corpo que se move para a Iluminação, é o corpo que recebe os influxos da "graça" ou o "adhistana" ("kaji" no Budismo Sino-Japonês).
Não há um "local" físico para a mente. A mente permeia todo o corpo. Cada célula é, de algum modo, permeado pela mente.
Sendo assim, e tendo em vista que todos os atos geram efeitos, a morte não cessa completamente os efeitos dos nossos atos. E mesmo os efeitos sutis dos influxos mentais permanecem.
Platão fala sobre os "fantasmas de cemitério" que não são mais que esses restos psicofísicos.
Os votos do Buda, dos Arhats e dos Bodhisattvas, tendo sido concebidos pela mente e sendo uma manifestação da Natureza Original, permearam todo o ser, inclusive seu corpo. Os efeitos de tais grandes votos permanecem.
Com base nisso, as relíquias do Buda e dos Bodhisattvas, de um modo sutil, influenciariam a mente daqueles que, devotamente, as venerassem e unissem a essa veneração a prática do Dharma exposta pelos Budas nos sutras.
Por isso, no Sutra do Lótus, por exemplo, se fala muitas vezes da geração de méritos de se venerar as stupas com as relíquias dos Tathagatas. É como se os efeitos dos votos desses Tathagatas continuassem em atividade, estimulando os outros seres à Iluminação.
No entanto, o mesmo Sutra do Lótus diz que o culto do Sutra é superior ao culto das relíquias de todo o corpo do Tathagatha. Isso porque as palavras do Sutra têm um efeito muito mais direto e efetivo para a prática do Dharma do que as sutis influências das relíquias. O Sutra do Lótus é um "Buda Vivo" que está constantemente pregando no Pico do Abutre.
NOTE-SE, no entanto, que esse culto das relíquias do Mahayana Primitivo, não tem nada a ver com a palhaçada atual da adoração das relíquias, promovida por notórios charlatões que atribuem às relíquias (na maioria das vezes falsas), um poder que elas não têm, nunca tiveram e nem nunca vão ter.
Adorar relíquias budistas sem a prática sincera do Dharma é pura superstição idiota, que, inclusive, gera karma negativo a quem o faz.


"Ateísmo" budista

P. Arya Dharmananda,

Gostaria que você me explicasse um pouco sobre a questão do ateísmo no Budismo.
Você afirma que o Budismo é ateu, mas, por outro lado, tem uma visão bastante tradicional sobre o sagrado, que lembra muito, inclusive, o René Guénon, o Évola e outros autores tradicionalistas.
Você poderia explicar isso?

R. Muito boa sua pergunta.
Usamos o termo "ateísta" em um sentido bem diferente do sentido dado pelos ateístas modernos, materialistas e anti-espirituais. 
No Budismo, o termo "ateísta" é utilizado simplesmente pela ausência de um outro mais adequado.
O Budismo não é um sistema, propriamente falando, de crenças. É um tipo de sistema dialético e metafísico que embasa uma prática de vida, uma conduta e uma visão da realidade.
É uma religião, no sentido de "re-legere", ou seja, de releitura da realidade através de uma visão intelectual e metafísica, não materialista e não "sensorialista" (perdoe o neologismo), ou seja, não deve se fundamentar em algo que se sinta ou perceba através dos sentidos ou das emoções.
Não há o conceito de deus criador, sustentador ou mantenedor do universo. 
Sempre que lançamos um conceito, como "deus", "ser", "pessoa" etc., torna-se necessário elaborar uma série de justificativas que sustentem esse conceito.
No Budismo, a Suprema Realidade ou Suprema Verdade ou ainda Verdade Ôntica (Paramartha Satya), não é expressa através da conceitualização, mas através da própria realização da Iluminação.
A Iluminação, em si mesma, é a identificação entre a personalidade individual, que é ilusória, com a própria Natureza de Buda, ou seja, a Realidade Absoluta que permeia todos os fenômenos e que se manifesta em todos eles.
Os entes naturais e todos os fenômenos físicos e mentais, são fruto do condicionamento. No entanto, a Verdade Ôntica é incondicionada, ou seja, não é identificável com o mundo fenomênico em si, mas é a Sabedoria que permeia a todos os fenômenos.
No Budismo Esotérico, há a personalização dessa Verdade Suprema como o Dharmakaya Mahavairocana. 
Mahavairocana não é um ser no sentido de estar apartado de outros seres. Ele é "o ser" e não "um ser". 
Fazendo uma analogia, podemos dizer que Mahavairocana é a essência única e verdadeira do todo. Não há nenhuma essência real fora dele. As essências individuais e condicionadas (tomadas em sentido absoluto e não no sentido das definições de "essência" aristotélicas) são completamente ilusórias.
Você não pode dizer que o fogo é separado dos elementos comburentes. Também não pode afirmar que o fogo de uma vela acesa hoje é o mesmo fogo da fogueira acesa há 500 anos atrás. Ou pode? Sim e não. Na verdade, você está falando de um fenômeno. Essencialmente, não há diferença entre o fogo de sua vela hoje e o fogo da fogueira de 500 anos atrás. No entanto, o fogo da fogueira de 500 anos atrás não está presente aqui e agora, seus elementos comburentes já se consumiram e a própria atualidade da luz e do calor já se extinguiram. Ou você pode iluminar seu quarto com a luz de 500 anos atrás? Mas, do ponto de vista absoluto, o fogo é sempre fogo, ou seja, luz e calor. Sendo assim, ele é constantemente existente em potência, mesmo que não seja em ato. Nesse ponto, podemos dizer que "o fogo" tem uma essência "ideal", no sentido platônico do termo, e que todo fogo só é fogo na medida que participa dessa essência ideal...Veja como o Budismo é parecido com o platonismo...
E o que dá a potencialidade de todos os fenômenos senão a constância interna de suas leis? Não há uma lei interna em todos os fenômenos? Cada pequena célula não sabe como se comportar? Cada ação não porta sua própria reação? Todas as coisas não estão limitadas por sua própria realidade intrínseca? E tal realidade não é constante e análoga em todos os tempos e lugares? Ou o fogo é diferente no Brasil e no Japão? Ou 4+4 deixam de ser 8 em algum lugar?
A percepção da verdade, ou seja, a medida da conformação do nosso intelecto com os objetos cognoscíveis e a percepção de sua real "entitude" é uma constante. Não há verdade pela metade. Não há uma verdade aqui e outra ali. Quando afirmamos algo que não é, simplesmente utilizamos um conceito de ausência, ou seja, ausência de uma verdade.
Mahavairocana é a personificação da "Realidade Completa", ou da "Suprema Verdade", que se manifesta, parcialmente, em cada pequena verdade. Mahavairocana está em tudo, tanto fora de nós quanto dentro de nós. Não há diferença entre o microcosmo e o macro-cosmo.
Nagarjuna, no Da Zhi Tu Lun (Mahaprajñaparamita-Sastra), diz que cada palavra verdadeira, cada ensinamento verdadeiro, é a palavra do Tathagatha, mesmo que não esteja no cânone.
A interiorização dessa Verdade Absoluta, a identificação completa com esse Absoluto, é a própria Iluminação.
O Iluminado não "crê", ele sabe.
É diferente do conceito de se ter um deus exterior, um deus que atua no universo de maneira semelhante às produções humanas, dotado de uma vontade que, por si só, é condicionada...
Note que, nas tradições judaico-cristãs, a vontade divina é condicionada pelas ações humanas. Adão peca e a vontade divina é condicionada para expulsá-lo do paraíso terrestre. O povo de Israel peca e a vontade divina é condicionada para castigá-lo. O povo de Sodoma e Gomorra peca e a vontade divina é condicionada para destruí-los. Os homens pecam e a vontade divina é condicionada para destruí-los pelo dilúvio universal. E assim por diante.
Por não termos esse conceito de um deus exterior, antropomórfico, com uma "vontade" que é causada e condicionada, nos dizemos "ateus", mas não no sentido comum do termo...




segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Os "defensores da liberdade" ou "dois pesos, duas medidas".

Agora, como por encanto, de todos os templos budistas surgem "defensores da liberdade de expressão", grandes partidários do "Charlie Hebdo" e "mentes abertas" para toda e qualquer crítica religiosa, por mais pesada e obscena que ela seja.
Que curioso.
Há anos eu fui colocado no ostracismo e meu nome é enxovalhado nas comunidades e redes sociais "budistas" porque critico aquilo que acho incorreto nas práticas institucionais asiáticas. 
Fui processado,  continuo sendo, pediram minha prisão, meu nome aparecia na internet numa lista de processados criminalmente e a instituição da qual faço parte é taxada de "seita obscura" publicamente em listas "budistas" de discussão.
Quase todo dia recebo um e-mail de alguém me xingando de "intolerante", de "louco" ou coisa semelhante.
Quando dei entrevista para a revista Istoé, os tolerantíssimos e gloriosos "budistas" das instituições majoritárias, escreveram para a revista de maneira histérica, deixando comentários desabonadores e até pessoalmente ofensivos.
Onde estava esse amor todo pela "liberdade de expressão"? Onde estavam vocês, defensores da "liberdade de expressão" e da "crítica completamente livre"? Estavam dormindo? Ou na privada com prisão de ventre?
Eu nunca cheguei nem perto de fazer o que o "Charlie Hebdo" faz.

Minha consciência moral não me permite agredir gratuitamente e nem fazer uso do grotesco e do obsceno para chocar a ninguém.
Minhas críticas são embasadas em pressupostos escriturísticos e filosóficos, demonstrados claramente em centenas e centenas de textos.
No entanto, para nossos amiguinhos "budistas" majoritários, eu sou um intolerante, um radical, alguém que precisa ser calado e ridicularizado publicamente. Já  a turma do "Charlie Hebdo" era legal, livre e "tolerante". Tudo o que eles faziam e continuam fazendo é belo e moral. A pura liberdade.
É muito curioso ver esse espetáculo de hipocrisia.
Quando as críticas são contra muçulmanos ou cristãos, ou contra qualquer visão tradicional do mundo, há sempre budistas batendo palmas e louvando a "liberdade". No entanto, se as críticas os atingem e mostram a hipocrisia, a traição do Dharma, o desprezo pelos ensinamentos canônicos, a ausência de prática ortodoxa etc., aí o negócio é diferente e resulta em processo, em xingamento, em perseguição, em ridicularização e em enxovalhar meu nome em todo canto possível.
Liberdade é só para ridicularizar aos outros. Aí é tudo "livre". Mas, se for para criticar a eles mesmos, aí você é um monstro, um "intolerante", um "golem" e por aí vai...
O "Charlie Hebdo" é um jornaleco de quinta categoria. Escroto, mal escrito, seguidor de clichês da esquerdinha chic francesa (filhinha da revolução de Sorbonne).
Nele nada é realmente discutido. Tudo não passa de vontade de chocar, de achincalhar o quanto possível tudo o que é TRADICIONAL, de fazer do obsceno, do hediondo, do grotesco e do bizarro um tipo de ideal.
É uma competição para ver quem consegue ser mais grotesco, quem consegue escrever mais merda, quem consegue fazer o desenho mais chocante, mais obsceno, mais ofensivo à consciência religiosa alheia.
Não há nenhum objetivo de se discutir doutrinas, de se fazer uma ou outra crítica filosófica, de se colocar as coisas sob uma lente mais racional. Nada disso. Ali há tão somente o desejo de esculhambação, de ser irracional, de permitir que as forças do caos tomem conta dos textos, dos desenhos e que, dessa maneira, consigam ofender, o mais profundamente possível, ao maior número de religiosos que se possa.
Há uma profunda diferença entre fazer críticas com base racional, ou seja, discutir doutrinas, idéias, tecer comentários sobre essas doutrinas, tanto a favor quanto contra e a agressão pura e simples, o desejo irracional de magoar, de machucar, de chocar, de ferir a visão e o pudor do outro. O "Charlie Hebdo" estava, precisamente, nesse último caso. Seu desejo não era ser um bastião da "liberdade de expressão e consciência", mas sim o desejo de ter liberdade para ofender, para ferir, para chocar aos que não concordavam com seu ideal...
A isso, a essa deformação do conceito de liberdade, nossos "budistas" majoritários aplaudem e apóiam. Mas, à liberdade de ser racional e criticá-los em sua imensa hipocrisia, nem pensar. 
Dois pesos duas medidas. A fina flor da hipocrisia.
Se você é cristão e acha que o "Charlie Hebdo" é só um modo "divertido" de atacar o "radicalismo islâmico", reveja seus conceitos...

Charlie Hebdo apóia as abortistas e profanadoras do FEMEN. O FEMEN defende, inclusive, o direito ao infanticídio...Note como a ativista do FEMEN é retratada como uma mulher bonita e seus adversários são bizarros, monstruosos etc.

Charlie Hebdo ataca a Igreja Católica e a todas as igrejas cristãs, às quais eles julgam culpadas por todo o "atraso" da Civilização Ocidental. Jesus é sempre mostrado com uma feição deformada, monstruosa e ridícula.

Charlie Hebdo é abertamente racista. Em vários números de suas revistas chama aos árabes, aos palestinos, aos iranianos, aos africanos etc., de "bárbaros", de "incivilizados", "macacos" etc.

A caracterização grotesca e ofensiva de tudo o que é sagrado, é uma das características fundamentais desse semanário. No entanto, não se vê, nunca, nenhum tipo de ataque ou satirização de líderes comunistas ou esquerdistas...

O papa Bento XVI foi retratado de forma grotesca e obscena em algumas capas da Charlie Hebdo. A sugestão é sempre a de que ele é pedófilo, pervertido sexual etc.

O mais sagrado conceito cristão, ou seja, a própria Santíssima Trindade, é retratada de maneira grotesca, obscena, bizarra. O Espírito Santo, erroneamente representado como um "Delta Radiante",  está fazendo sexo anal com Jesus Cristo que, por sua vez, está fazendo o mesmo com Deus Pai. Essa blasfêmia suprema é vista como "liberdade". "Liberdade" de quê? De ofender? De magoar? De escandalizar? O cristão que apóia isso se esquece dos ensinamentos de sua própria religião, que dizem que a blasfêmia contra o Espírito Santo é um pecado sem perdão e que "ai daqueles" que escandalizarem aos pequenos...




sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Grande Arquiteto do Universo e "regularidade" budista

P. Caro Arya Dharmananda,

Gostaria de parabenizá-lo pelos textos e fazer duas perguntas.
Primeira:
Sendo budista e maçom, como você lida com a questão do Grande Arquiteto do Universo? Não é uma alusão teísta/deísta que contraria sua visão budista?
Segunda:
Dia desses li um monge falando sobre "Ordens budistas regulares", o que me soou um tanto "maçônico". Você poderia escrever algo sobre isso? Obrigado!

R. Vou dividir as respostas para que os temas não se confundam.

Resposta da primeira pergunta:

O "Grande Arquiteto do Universo", ao contrário do que pensa grande parte dos maçons, não é, e nem deve ser, identificado com nenhum deus.
Alguns textos maçônicos trazem o enxerto "Grande Arquiteto do Universo, que é Deus" numa clara tentativa de identificação entre esse SÍMBOLO INICIÁTICO e o deus judaico-cristão (e numa inequívoca demonstração de desconhecimento).
René Guénon, em um texto datado de 1911, na revista "A Gnose", expõe com maestria o assunto ao afirmar:

"Já dissemos que, para nós, o Grande Arquiteto do Universo constitui unicamente um símbolo iniciático, que devemos tratar como todos os outros símbolos e do qual devemos, consequentemente, buscar antes de tudo formar uma idéia racional; em outras palavras, que esta concepção não pode ter nada em comum com o deus das religiões antropomórficas, que é não somente irracional mas até mesmo anti-racional." (grifos meus)

No mesmo artigo, R. Guénon prossegue demonstrando que o Grande Arquiteto do Universo (G.˙.A.˙.D.˙.U.˙.) é o conceito daquele que traça o "plano ideal". Enquanto o "demiurgo" platônico é a coletividade de seres individuais, tomados em conjunto, que executa, ou seja, que atua como "operário" do Universo, o G.˙.A.˙.D.˙.U.˙. é o próprio conceito metafísico do plano ideal, do projeto de transcendência e de transformação. O arquiteto concebe o edifício a ser construído, no entanto, não é ele que, materialmente, executa a obra.

Sendo assim e colocadas as coisas em seus devidos lugares, é evidente que não há qualquer contradição no fato de um budista maçom trabalhar "à Glória do G.˙.A.˙.D.˙.U.˙.", desde que não confunda as bolas e não adote as perspectivas equívocas tão comuns entre os maçons dos dias de hoje.
Cabe aqui um parêntese.
Sou praticante do Rito Moderno, rito este que não adota o símbolo do G.˙.A.˙.D.˙.U.˙.. No entanto, quando se trabalha "à Glória da Humanidade", "à Glória da Franco-Maçonaria Universal" etc., só se troca seis por meia-dúzia.
A humanidade é o próprio "Homem Universal" e sua "glória" é, exatamente, a realização do plano de transcendência representado pelo G.˙.A.˙.D.˙.U.˙. Já a "Franco-Maçonaria Universal" é, precisamente, no dizer de R. Guénon, "a humanidade considerada no cumprimento ideal da Grande Obra Construtiva", ou seja, o cumprimento da concepção metafísica do G.˙.A.˙.D.˙.U.˙. ... Como eu disse, troca-se seis por meia-dúzia...

Resposta da segunda pergunta:

Falar em "regularidade budista", nos termos que são comumente propostos, é discutir o sexo dos anjos.
Como eu já escrevi ad nauseam aqui no blog, as alegações históricas (historicômicas...) de continuidade, de antigüidade, de "transmissão" mágica etc., são todas canoas furadas que começam a fazer água tão logo alguém resolva pesquisar com um pouco mais de atenção.
Do ponto de vista do Dharma, ou seja, daquilo que está nos sutras e nos tratados, a verdadeira "regularidade" se dá à medida da ortodoxia na exposição, compreensão e prática dos ensinamentos.
Aliás, como você bem observou, de fato essa coisa de falar de "Ordens budistas regulares" tem cara e cheiro de Maçonaria. Sendo assim, transcrevo, do já citado René Guénon, um trecho em que ele fala sobre a regularidade maçônica.

"(...) freqüentemente, busca-se sempre fundamentar essa regularidade sobre considerações puramente históricas, apoiando-se em provas, verdadeiras ou supostas, de uma transmissão ininterrupta de poderes de uma época mais ou menos recuada; é preciso confessar que, partindo desse ponto de vista, seria fácil encontrar irregularidades na origem de todos os ritos praticados na atualidade. Sendo assim, pensamos que isso tudo está muito longe de ter a importância que alguns quiseram lhe atribuir e que, a verdadeira regularidade está essencialmente na ortodoxia maçônica, e que esta ortodoxia consiste acima de tudo em seguir fielmente a tradição, em conservar cuidadosamente os símbolos e as formas rituais que expressam esta tradição e que constituem sua roupagem, e em rechaçar toda inovação suspeita de modernidade." (A Gnose, abril de 1910)

Essas mesmíssimas palavras podem ser ditas em relação ao Budismo, sem tirar nem pôr. No lugar de "ritos" coloque Ordens ou Escolas. No lugar de "maçônica" coloque "budista" e você terá a definição perfeita do tema.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Iniciações e contra-iniciações


Assim como há uma corrente iniciática, que é transmitida de mestre a discípulo, de diversas maneiras diferentes, não podemos nos esquecer que há também uma corrente contra-iniciática, uma anti-iniciação que, da maneira mais discreta, se infiltra naqueles locais onde deveria haver a iniciação e perverte completamente seu sentido e seus efeitos. Lentamente, as águas puras da Sabedoria vão se turvando com venenos que, a princípio, parecem inodoros e incolores mas que, ao entrarem em contato com as águas puras, vão se metamorfoseando e turvando a pureza cristalina, tingindo-a de cores cada vez mais pardacentas...Assim vai crescendo o número de pseudo-iniciados, pseudo-iniciadores, pseudo-trasmissões, pseudo-significados etc. E isso, a um tal ponto que, chega o momento em que alguém só pode se conectar com uma dada cadeia de transmissão legítima através de uma iniciação completamente espiritual, trans-histórica, prometéica ou mariana.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Cristão e reencarnacionista...

Esses dias, trocando mensagens com um irmão de Maçonaria, veio à baila o tema 'ser cristão e acreditar em reencarnação'.
O contexto do assunto era que, no seio da Maçonaria, existem Ordens que exigem a condição de cristão para o ingresso. O candidato assina uma declaração de fé na Trindade Cristã e, com isso, estaria suficientemente "comprovada" sua condição cristã.
Ok. Acontece que grande parte dos que fazem isso são espíritas, umbandistas, ocultistas, teosofistas etc., ou seja, acreditam em reencarnação, mas se dizem e juram de pés juntos que são "cristãos".
Já tive a oportunidade de demonstrar aqui no blog que o Budismo não acredita, nunca acreditou e nem acreditará em reencarnação, assim como nenhuma doutrina legitimamente tradicional acredita, acreditou ou acreditará.
Agora vou desenvolver um pouco mais o raciocínio e demonstrar que quem acredita em reencarnação, LIMINARMENTE perde a condição de cristão.
Em outras palavras, todos esses que ingressam em ordens que se dizem "cristãs" mas acreditam em reencarnação, estão sendo embusteiros ou, no mínimo, ignorantes auxiliados por outros ignorantes em matéria teológica.
Assustou? Pois é, é isso mesmo...
Vamos lá.
A base fundamental do Cristianismo é: O gênero humano foi manchado pelo pecado. Não é que os teólogos acreditem que existiram, literalmente, Adão e Eva. A história de Adão é uma alegoria, uma representação do pecado do orgulho, ou seja, em um tempo mítico, trans-histórico, o gênero humano quis se igualar à divindade e, por isso, pecou. Por esse pecado inicial todo o pecado, alegoricamente, entrou no mundo. O orgulho foi a porta para todo o pecado.
Quando o homem pecou, o gênero humano perdeu sua inocência primeva, ou seja, foi arrancado do estado de fruição (o Paraíso Terrestre) no qual sua inocência o mantinha.
Sendo assim, era preciso que o homem, para cumprir sua função na criação, ou seja, conhecer, amar e adorar a divindade em 'espírito e verdade', fosse resgatado desse pecado fundamental que deu abertura a todos os outros.
Adão, o pai simbólico da humanidade, tornara-se uma fonte poluída de onde todas as águas fluiriam poluídas.
O pecado que foi cometido pelo homem só poderia ser resgatado por um homem, pois era fruto do livre arbítrio humano, assim como a redenção seria fruto do livre arbítrio humano.
A redenção se operaria não por um homem qualquer, e sim pelo próprio Filho de Deus, gerado pelo Pai antes da criação do tempo e do espaço. Ele, por livre espontânea vontade, e refletindo o amor de Deus pela humanidade, escolheu se encarnar como verdadeiro homem.
Durante sua vida terrestre, Jesus revelou aos homens a vontade de seu Pai e escolheu voluntariamente entregar-se para o sacrifício da humildade suprema (o contrário do primeiro pecado), ou seja, de sendo Deus fazer-se homem (Adão sendo homem queria fazer-se Deus) e, como homem, seria morto de maneira degradante. Ele, que era imortal, fez-se mortal. Ele, que era Deus, fez-se homem. Ele que era rei, fez-se escravo.
A morte na cruz foi o 'sacrifício perfeito', e seu sangue lavou o pecado do primeiro homem que pecou. Sua humildade suprema resgatou o orgulho supremo.
Isso é demonstrado na arte iconográfica. O monte "Gólgota" (caveira) não se chamava "caveira" à toa. Era símbolo da morte trazida pelo pecado do primeiro homem. Nos ícones bizantinos se vê a caveira de Adão bem abaixo da cruz de Jesus.

Note-se a caveira de Adão abaixo da cruz. Ícone grego.

O mesmo num ícone russo.

Uma vez consumado o sacrifício da cruz, restava ainda a vitória final sobre a morte, efeito do pecado. Essa vitória foi a confirmação da própria divindade de Jesus, ou seja, a ressurreição.
Com a morte de Jesus na cruz, morre o velho homem, fruto do pecado. Com sua ressurreição, toda a humanidade é resgatada da morte, ou seja, toda ela, apesar dos efeitos temporais do pecado original que ainda restam (todos morrem, adoecem, envelhecem etc.) também tem a chance de ressuscitar e ser salva por efeito da ressurreição de Cristo, aquele que lavou o Pecado.
A condição para essa ressurreição é, segundo o Cristianismo Ortodoxo, Católico Romano e da chamada Reforma Radical, a interação entre a obediência aos mandamentos divinos e a fé perfeita naquilo que Jesus ensinou e em sua condição de Filho de Deus, pessoa divina como seu Pai, em seu sacrifício redentor e na sua promessa de envio do Espírito Santo (terceira pessoa ou 'hipóstase' divina da Trindade), ato fundacional do Cristianismo no Pentecostes. Para o Cristianismo da Reforma (luteranos e calvinistas em seus diversos ramos), a condição fundamental da salvação na ressurreição final é a fé e a confissão em Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador do gênero humano.
A todos esses credos autenticamente cristãos são comuns o batismo (que é a purificação do pecado de Adão e o nascimento do Homem Novo, redimido) e a Eucaristia, ou seja, a participação na Natureza Divina de Cristo, através do consumo (simbólico para os protestantes e real para católicos e ortodoxos) do corpo e sangue do salvador.
Há alguns outros detalhes teológicos referentes às confissões religiosas particulares calvinistas, mas não é a função desse texto examiná-las.
Tendo esses pontos fundamentais diante dos olhos, fica óbvio, ululante, que a reencarnação nega o fundamento mesmo do Cristianismo.
Pela doutrina reencarnacionista, os pecados vão sendo purificados pela ação do próprio homem. Ele, de encarnação em encarnação, vai sofrendo e se purificando, sendo vítima da retribuição de seus pecados da encarnação anterior, o que o purifica à medida que ele vai reformando sua conduta...Isso independe do batismo, da fé na divindade de Cristo, na obediência...A conduta da pessoa, purificando seus pecados das "encarnações passadas" é que vale.
Se é o próprio homem quem se purifica, através de diversas "encarnações", nas quais seu espírito vai aprendendo e se purgando, então o sacrifício de Jesus é completamente inútil.
Adão não necessitou de Cristo, uma vez que foi "reencarnando" até pagar seu próprio pecado. Aliás, dentro dessa ótica, a própria fé na necessidade da vinda de Cristo é uma completa incoerência. Cristo tendo vindo ou não, seria a mesma coisa, ou seja, os espíritos iriam reencarnando e se purificariam do mesmo jeito.
Como consequência lógica, não há "pecado original". Adão errou e, de encarnação em encarnação, se purificou. Então, para quê redenção pela cruz?
Se a condição de cristão é dada pela própria idéia da redenção por Cristo, então quem nega essa idéia não é cristão, definitivamente.
Igualmente esdrúxulo é que grupos reencarnacionistas se digam seguidores da Bíblia.
Vamos ver o que diz a Bíblia sobre a morte?

"Afastai de mim a vossa ira para que eu tome alento, antes que me vá para não mais voltar." (Sl 38,14)

"Antes que eu parta, para não mais voltar, ao tenebroso país das sombras da morte, opaca e sombria região, reino de sombra e de caos, onde a noite faz as vezes de claridade." (Jó 10,21-22)

"Enquanto o homem, se pode matar por sua maldade, não pode fazer voltar o espírito uma vez saído, nem chamar de volta a alma que o Hades já recebeu". (Sd 16,14)

"Mas agora, que morreu, para que jejuar ainda? Posso por acaso fazê-lo voltar a vida? Eu é que irei para junto dele; ele, porém, não voltará mais a mim." (2Sm 12,23)

"Muitos daqueles que dormem no pó da terra despertarão, uns para uma vida eterna, outros para a ignomínia, a infâmia eterna." (Dn. 12,2)

"Os teus corpos tornarão a viver, os teus cadáveres ressurgirão." (Is 26,19)

"...tu nos arrebatas a vida presente, mas o Rei do Universo nos ressuscitará para a vida eterna." (2Mc 7,9)

"meus irmão participam agora da vida eterna, em virtude do sinal da aliança, após terem padecido um instante..." (2Mc 7,36)


"E, como aos homens está ordenado morrerem uma vez, vindo, depois disso, o juízo, assim também Cristo, oferecendo-se uma vez, para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o esperam para a salvação." (Hb.9,27)

Acho que já ficou claro, não é?
Obviamente virão os reencarnacionistas com seu argumento básico mais esdrúxulo: 
'Mas, se Deus é bom, então porque razão um nasce deficiente e pobre e o outro nasce rico e bonito? Isso seria a atitude de um bom pai?'

Teologicamente falando, esse argumento é ridículo.
O homem tem livre-arbítrio, ou seja, constrói para si e para seus semelhantes aquilo que sua ação, boa ou má, estimula. Sendo assim, se uns exploram os outros e fomentam o pecado da ganância, constroem a pobreza em que outros nascerão. Obviamente pagarão por isso. Não foi Deus quem mandou que fossem gananciosos, que se explorassem uns aos outros, que roubassem e se destruíssem.
Não foi Deus que ordenou que uns vivessem das vísceras e da miséria alheia. Isso é fruto do livre-arbítrio mal empregado.
Da mesma maneira, Deus enxerga a eternidade, ou seja, aquilo que para o homem é péssimo, como uma deformidade física, uma doença ou um padecimento, da parte de Deus pode ser algo ótimo, necessário à salvação de alguém, uma lição a ser aprendida ou pelo próprio atingido ou pelos que o cercam. São desígnios incompreensíveis ao homem.
Com isso, caem as suposições completamente primárias dos reencarnacionistas que se dizem "cristãos" e se estabelece, seguramente, que quem crê em reencarnação não pode, legitimamente, dizer-se cristão.

Buda e a "carne de porco"

Mais um artigo primoroso traduzido no blog Roda da Lei.
Se não acreditam no Dharmananda, o falso monge maluco, que acreditem em estudiosos afamados do passado!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

A Fronteira Homem-Animal sob o ponto de vista da Filosofia e da Religião

Compartilho com os leitores o link de uma das mais límpidas reflexões que já li sobre as relações homem-animal. 
O autor é o Reverendo Sramanera Dharmamanayu (Sandro Vasconcelos), responsável pelo 'Núcleo Budista do Profundo Significado' em Curitiba, PR.


sábado, 22 de novembro de 2014

O que faz o mal triunfar?

Qualquer pessoa que abra o jornal ou dê uma pesquisada sobre as tendências da arte, do pensamento e dos costumes nos dias de hoje, se tiver uma clara noção moral, verá, indubitavelmente, o triunfo do Mal.
Nas artes impera o horrendo, o esdrúxulo, o aberrante e o hediondo. 
Ser "artista" se tornou sinônimo de bizarrice, de comportamento aberrante, de imoralidade, de completa falta de noção em relação a tudo que se tenha por senso comum.
A "arte" que é produzida por eles é um reflexo disso. Qualquer escarro de tinta sobre uma tela é "arte". Qualquer ferro retorcido é "expressão escultórica de sentimentos". Qualquer grunhido com uma letra pornográfica, vazia ou piegas é "música" ou "tendência".
A arte deveria ser a expressão do BELO.
O belo é símbolo do bom e a verdadeira beleza simboliza o bem. Dessa forma, a verdadeira arte simboliza a moralidade, a nobreza de ações, de palavras, de pensamentos e de intenções.
Dizemos que um ato é "belo" justamente por isso. O ato, em si, não é uma representação que cause reação propriamente ligada às formas, às cores e à harmonia entre elas. Mas sentimos aquilo como algo belo, algo tão belo que pode nos levar às lágrimas de admiração.
A beleza das formas, a harmonia das cores, a justa proporção etc., nos conduzem para perto da idéia do bom, do justo, do verdadeiro.
Quando nos acercamos do belo, temos uma tendência à elevação, a buscar algo que transcenda a nós mesmos, nossa mente busca as altitudes, as sublimidades, aos píncaros...Isso causa em nós uma transformação interior. Tudo o que admiramos nos transforma, entra em nós de forma que, lentamente, passa a fazer parte de nós mesmos.
O feio é expressão do MAL. O feio rebaixa, conduz ao rebaixamento, conduz a um tipo de regozijo na lama, na sujeira, nos instintos descontrolados, no caos.
É exatamente essa elegia do feio, do hediondo, do aberrante, do bizarro e da calamidade que encontramos hoje em dia.
O pensamento contemporâneo é dominado por três pilares: dinheiro, poder e sexo. Ter dinheiro é ter poder. Ter poder é a possibilidade de satisfazer os instintos bestiais de maneira livre e desenfreada.
O comunismo está sempre preocupado com dinheiro e poder. O Estado precisa ter controle sobre o "capital", ou seja, sobre os meios de produção e sobre o dinheiro. Isso é ter poder.
Tendo poder, ele distribuirá o acesso ao capital para as pessoas e elas, consequentemente, não precisarão invejar as outras pois todos serão "iguais". Isso é o paraíso na concepção comunista. Tudo é reduzido a ter dinheiro e ter poder. Se eu tenho tanto dinheiro quanto meu vizinho, então, desprezando todo o resto (cultura, moralidade, elevação espiritual, nobreza, tradições, funções etc.), sou "igual" a ele e tenho as mesmas possibilidades que ele de "ser feliz"...
O capitalismo está sempre preocupado com dinheiro e poder. Os indivíduos precisam lutar para ter controle sobre o "capital". O mercado é uma guerra e, aqueles que triunfam na obtenção dos meios de produção e do dinheiro detêm o poder. Ser feliz é ter dinheiro pois quem tem dinheiro tem poder e quem tem poder satisfaz todas as suas infinitas "necessidades". Urge correr atrás de ter dinheiro e de ter poder para ser "feliz". Pessoas completamente diferentes em seus costumes, hábitos, necessidades e condutas são classificadas de acordo com o montante de dinheiro que acumularam. Cultura, moralidade, elevação espiritual, nobreza, tradições, funções etc., não importam nesse panorama. O que conta é a quantidade de dinheiro (e de poder) acumulados pelas atividades desempenhadas.
O sexo é uma preocupação constante nesse quadro.
Dinheiro e poder estão relacionados com a quantidade de prazer sexual que pode ser obtido através da "conquista" monetária.
As letras de músicas falando sobre "ostentação", as demonstrações de "conquista" através de carros de luxo, vida cercada de supérfluos ostentatórios etc., estão na ordem do dia.
O culto ao corpo, o apelo a drogas anabolizantes, a negação da velhice (medicina "anti-age") e muitas outras práticas falam, de maneira eloquente, sobre o vazio existencial da busca por dinheiro, poder e sexo.
Tudo isso mostra um mundo despedaçado, uma sociedade doente, pessoas sem direção.
À medida que a vida perde um significado mais profundo, ações monstruosas tendem a ocorrer. A vida humana vale menos que um relógio de grife, um carro ou um par de tênis importado. Se mata por nada. A violência é uma maneira de obter o que é desejado, seja dinheiro, poder ou sexo. Também é uma resposta para o vazio de sentido. As letras de "satanic metal" ou "hardcore metal" estimulam atos desse gênero.
No meio de tudo isso estão aqueles que se julgam "bons".
São os religiosos, os que cumprem minimamente seus deveres, os que não cometem crimes e que, em alguns casos, também não estão consumidos pelas ambições.
Qual é o papel que eles desempenham em tudo isso?
Eles desempenham dois papéis: O de idiotas úteis e o de platéia boquiaberta e inerte.
São idiotas úteis porque, muitas e muitas vezes, de maneira inconsciente ou semi-consciente, trabalham pelos objetivos do Mal. 
São a platéia boquiaberta e inerte porque, muitas e muitas vezes, quando as explosões do Mal são mais explícitas, se chocam, se intimidam, comentam e NADA FAZEM.
Não oferecem maior resistência do que a de pedregulhos sendo arrastados pela corrente de um rio turbulento.
Outro dia, vi um anúncio de uma palestra em um templo sobre a "não-reatividade". Que beleza. Não reaja. Não se choque. Não se mova. Seja apenas um pedregulho sendo arrastado pela correnteza. O pedregulho deve acreditar que é uma imensa rocha, contra a qual nada podem as águas do rio...Como é iludido o pobre pedregulho!
Esse é o tipo de ação do idiota útil.
Se você fosse um bandido, a quem escolheria assaltar: A uma senhora de 70 anos, distraída, debilitada, desarmada e sozinha ou a um indivíduo forte, atento, armado e preparado para reagir?
Se fosse invadir uma casa, preferiria a residência de um casal pacifista e desarmamentista, fisicamente frágil e desarmado, ou a de um casal de atiradores fortes e reativos que, com certeza, lhe receberia com tiros de espingarda calibre .12?
As respostas são óbvias.
O Mal triunfa à medida que não encontra reação e nem resistência.
Será que os falsos artistas se sentiriam tão à vontade em uma sociedade com padrões elevados e exigências de alto padrão artístico?
Será que os cantores de letras imorais se sentiriam tão bem cantando diante de uma platéia de rigorosos maestros com padrões morais elevados?
Como se sentiriam os ricaços diante de pessoas que desprezam o valor atribuído ao dinheiro?
O triunfo do Mal deve muito mais à ausência de resistência dos bons do que, propriamente,  ao trabalho deliberado dos maus.
Os maus odeiam aos bons e odeiam ao Bem. Qualquer um que trabalhe na resistência ao Mal e combata pelo triunfo do Bem é objeto imediato do ódio dos maus. Não há tréguas nesse ódio.
Os maus trabalham para desmoralizar, desacreditar e aniquilar aos bons.
Enquanto os bons pensam em "não-reatividade", os maus não cessam sua obra de agressão. Quanto maior a facilidade, maior a sanha de ataque.
A resistência aberta, honesta e reativa é o primeiro dever dos que estão do lado do BEM. É escolher morrer lutando. Ou eu aniquilo o Mal ou prefiro ser aniquilado na luta contra ele. Prefiro morrer lutando do que ter que suportar sua vitória sobre o Bem.