segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O momento político atual

P. O Brasil encontra-se em crise. Há manifestações nas ruas, as redes sociais estão cheias de manifestações de pensamentos, há vídeos onde as pessoas se expõem e também as instituições religiosas estão se manifestando.
Alguns religiosos budistas que eu ouvi são pró Dilma. Dizem que ela está sendo usada como bode expiatório pelas direitas.
Vocês não dizem nada? Não se manifestam politicamente?
Eu queria saber se isso não é uma forma de alienação.

R. Prezada senhora,

O tipo humano ao qual nós desejamos atingir se governa por princípios e valores completamente diferentes daqueles que governam a "vida social e política" do mundo atual, ainda mais no caso do Brasil.
Não existe mais Estado hierárquico e orgânico.
O que vemos hoje não passa de um jogo de interesses onde os políticos, muito antes de estarem a favor de qualquer ideal legítimo, estão a favor de interesses financeiros, industriais, corporativos e políticos.
O domínio sobre as massas, tanto as que vão para a rua pedir o impeachment, tanto dos que vão apoiar o governo por um pão com mortadela, está no plano das forças sub-intelectuais e passionais, cuja natureza é manipulada por mitos, pelos "líderes populares", pelos demagogos de todas as tendências e pelos fabricantes da "opinião pública".
O "poder da massa", em si mesmo, é apenas a glorificação da mediocridade, a afirmação retumbante da alma medíocre em se reconhecer orgulhosamente medíocre, do direito à mediocridade e da audaciosa tentativa de impor a todos a mesma mediocridade.
A nós resta a distância interior, inatingível a essa sociedade e aos seus pseudo-valores esvaziados de qualquer laço verdadeiramente espiritual ou moral.
Todo "ativismo político", dentro dessa ótica, não passa de manipulação, uma vez que não há nenhum tipo de doutrina claramente definida nas posições.
Para o aristocrata de alma, não há nenhum interesse em se expor ou se afirmar ao mundo exterior de hoje. Sua verdadeira "ação" encontra-se no interior, na profundidade de sua vida espiritual e em sua obra de transformação pessoal.
Em outras palavras, para resguardar o verdadeiro SER e a dignidade desse SER, é preciso que, verdadeiramente, nos sintamos como pertencentes a uma humanidade diferente e consigamos reconhecer o deserto, a esterilidade completa à nossa volta.
O distanciamento interior nos possibilita enxergar o vazio das disputas, a banalidade das "soluções" propostas pelos diversos interesses baixos em jogo.
A vida e suas contingências não devem estrangular o SER.


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

As oferendas tântricas

P.: Arya Dharmananda, no buddhismo tibetano, num nível mais elevado de iniciações, há oferendas de carne e de bebidas alcoólicas para as divindades.
São restritas aos que têm as iniciações tântricas. O que você poderia dizer sobre isso?

R.: Prezada leitora,

Não me darei ao trabalho de ir ao cânone e repetir aqui todos os textos canônicos que condenam o consumo de carne, de álcool ou o abate de animais seja para que fim for.
Apelarei para sua lógica e seu bom senso.
Você aceitaria que um animal indefeso fosse morto para que lhe fizessem uma oferta?
Você crê que é moralmente aceitável ou minimamente justificável que eu destrua uma vida inocente para ofertar em um altar para uma divindade?
Um Buda é um ser dotado da máxima compaixão e da máxima sabedoria. Tem ao seu dispor inumeráveis meios-hábeis para salvar a TODOS os SERES.
Será que um Buda necessita de pedaços de cadáveres para conceder bençãos a alguém?
Você realmente acredita que uma iniciação de nível superior requer matança, sangue, morte e sofrimento? Acredita que tal tipo de "iniciação" está ligado a um Ser Compassivo e Sábio como um Buda, que tem terna compaixão até dos mais imperceptíveis seres?
Quais "seres iluminados" aceitariam a carne de outros seres para serem servidos?
Quais Budas ou Bodhisattvas gostariam de receber bebidas inebriantes em seus altares, tendo em vista que eles mesmos as proibiram e descreveram pormenorizadamente os seus malefícios?
O Sutra do Lótus descreve os carnívoros como yakshas pavorosos que se deleitam em jorrar o sangue dos outros seres para aplacar sua busca por prazer.
Para mim, "deuses" que aceitam ofertas de sangue e de vidas são seres infernais, demoníacos, aprisionados nas trevas da ignorância e que não podem ajudar nem a si mesmos, quanto mais presidir a "iniciações".
Isso é o que eu chamo de prática contra-iniciática.
Se a prezada leitora me permite um conselho, lhe darei: Fuja de tais ofertas demoníacas, fuja dos mestres do erro que as aprovam.
Os seres venerados nesses altares não são Budas nem Bodhisattvas. São seres das trevas, demônios e yakshas disfarçados sob o manto de santidade aparente.



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O sofrimento dos animais

Todos os dias os defensores de animais são confrontados com cenas chocantes.
Pobres animais indefesos são vitimados pela violência humana, pelo abandono, pelo descaso, pela insensibilidade e pela ausência completa de compaixão.
Animais doentes jogados pelas ruas sem quaisquer cuidados, animais mutilados pela crueldade demoníaca de "humanos", animais feridos, espancados...Enfim, tratados como se sua vida não valesse nada.
Isso tudo sem contarmos as vidas animais desperdiçadas e destruídas nos açougues, granjas e matadouros para satisfazer ao prazer egoísta de comer carne.
Lamento profundamente que, entre os promotores desse "show de horror" estejam pessoas que se dizem budistas.
Em vez de você se preocupar em chamar os outros de "seitas espúrias", porque não utiliza seu tempo como um bodhisattva, ajudando a minimizar a dor e o sofrimento dos seres?
É imunda a boca de quem canta as palavras sagradas do Buda e, ao mesmo tempo, a enche de pedaços de corpos e de sangue como um yaksha.
Recobre imundície com os mantos monásticos aquele que, se dizendo discípulo de Buda, é indiferente ao sofrimento, à dor e ao valor da vida de TODOS OS SERES.
Não importa com quantos títulos seja honrado, não importa quantos diplomas tenha, não importa quanto respeito as pessoas lhe prestem, a SEMENTE BODHI não é comprada, não é adquirida por decreto, não é concedida por cerimônias...



domingo, 7 de junho de 2015

Ryobu-Xintô, Sincretismo e Gnosticismo


P.: O buddhismo Tendai no Japão adotou a teoria do ryobu-shinto, ou seja, o shinto de duas faces, adaptando os deuses japoneses ao buddhismo.
Sendo assim, porque não adaptarmos no Brasil o culto de Nossa Senhora Aparecida ou dos orixás ao buddhismo?
Não é meio contraditório esse seu separatismo religioso?

R.:  Suas afirmativas não são exatas.
O “Ryobu-Xintô” é produto da Escola Shingon e não foi “adotado” pela Escola Tendai. A Escola Tendai desenvolveu o “Sannô-Xintô” e ambas foram baseadas na idéia de “honji suijaku”(essência universal, manifestação local).
A base do “honji suijaku” é a dos meios hábeis, ou seja, de que os Budas se servem de diversos meios hábeis para alcançar as pessoas de acordo com sua capacidade e dentro de suas próprias culturas nacionais.
Dessa maneira, os deuses (kami) do Xintoísmo seriam manifestações locais (gongen) dos Budas universais. Essa idéia começa a ser afirmada já em textos japoneses do século IX da E.C.
A fonte dessa idéia é uma interpretação do Capítulo II do Sutra do Lótus.
No século XIII, a Escola Tendai japonesa desenvolveu sua própria versão do Xintoísmo, chamada de Sanno Xintô, enquanto a Escola Shingon desenvolveu o Ryobu Xintô. No século XV, os seguidores de Nichiren desenvolveram o chamado Hokke Xintô.
Dito isto, cabe esclarecer que os kami do Xintoísmo bem como os tianshen nativos da China (antes do aparecimento de uma doutrina propriamente dita do Taoísmo) tinham natureza muito diferente da de “Nossa Senhora Aparecida” ou dos Orixás dos cultos afro-brasileiros.
Os kami eram representações de todas as manifestações de poder e grandeza, seja no mundo natural, seja nas concepções de ordem metafísica. Não eram “personalidades”, não estavam ligados a nenhuma teologia estrita de caráter salvacionista ou dogmática.
O culto aos kami se baseia na reverência do ser humano diante dos mistérios do Universo. Sendo assim, é uma manifestação de respeito diante de tudo que é grandioso e superior.
Todas as formas doutrinárias baseadas no “honji suijaku” foram possíveis justamente por não haver elementos contrários ao Dharma nessas manifestações cultuais dos kami. Obviamente que as formas de culto que, de alguma maneira, poderiam ser contrárias aos ensinamentos do Dharma, foram eliminadas e substituídas por outras que estivessem em acordo com Ele.
No caso de “Nossa Senhora Aparecida”, o culto é de origem católica e tem com base a idéia de que Maria é a mãe de Jesus, o Salvador, daí seu caráter sagrado e digno de culto e reverência.
Fica óbvio que o culto dessa imagem traz consigo toda uma doutrina que obviamente não se adapta aos ensinamentos do Dharma.
Da mesma forma, os chamados “Orixás” e “Guias” da Umbanda carregam um tipo de mitologia e doutrina que, em si mesmas, são contrárias aos ensinamentos do Dharma, tendo em vista que a Umbanda nada mais é do que Espiritismo sincretista, que é uma doutrina absolutamente anti-tradicional, aliás, como toda e qualquer forma de Espiritismo.
Os “orisas” do Candomblé africano seriam mais adaptáveis do que as “entidades” da Umbanda, tendo em vista que não são, propriamente, personalidades, mas sim manifestações de um poder (asè) esparso na natureza que poderiam ser convertidos e pacificados pelos Budas.  Essa “pacificação” incluiria a abolição de todo tipo de sacrifício cruento, de toda utilização de sangue e de todo tipo de feitiço e mentalidade mágica.
Cabe notar, no entanto, que as formas mais “puras”dos cultos africanos não existem no Brasil.
Penso eu que a melhor forma de meio hábil através do sincretismo para a mentalidade ocidental esteja no Gnosticismo.
Chamados de "hereges" e perseguidos desde o século II da E.C. pelos cristãos da "igreja oficial", os gnósticos formavam comunidades com diversidade de doutrina e de pensamento.

Os estudos mais acurados sobre o assunto revelam que, ao contrário do que se pensava, o gnosticismo não é uma "heresia do Cristianismo", mas sim uma tradição muito mais antiga que o Cristianismo, com influências do platonismo, do maniqueísmo e do zoroastrismo.
O gnosticismo não é uma religião, no sentido restrito do termo (o termo religião, aliás, é usado no sentido atual há bem pouco tempo) e acolhe a todas as pessoas que buscam a "GNOSIS", ou seja, o conhecimento direto da Verdade Transcendental.
Grande parte das várias manifestações da Igreja Gnóstica usam um simbolismo cristão, mas, isso não é obrigatório e nem essencial ao gnosticismo. Gnosticismo não é, e nem nunca foi, uma “forma” de Cristianismo.

Em outras palavras, em um formato “ocidental” de culto, podem ser pregadas as idéias fundamentais do Dharma sem que haja qualquer tipo de “choque cultural” inicial para as pessoas que nunca tiveram contato com as formas orientais do Budismo.


Gnosticismo e Budismo compartilham dos mesmos pontos essenciais e, poderíamos dizer, inclusive, que o Budismo é uma forma de "Gnose".
Vejamos alguns pontos:


- A libertação é atingida através da gnosis (Jñana). Percepção da originação dependente da existência manifesta é o que liberta.

- Ignorância é a verdadeira raiz do mal; no Gnosticismo é chamado de "agnosis" e no Budismo é chamado de "avidya".

-Tanto o conhecimento budista quanto o gnóstico são atingidos não pelos meios ordinários mas como resultado de uma experiência interior.

-Existem níveis de realização espiritual, indo desde a condição de um tolo materialista (hylico/anarya) até aquele de um Iluminado (pneumático /bodhisattva).

- Tanto no Gnosticismo quanto no Budismo, o princípio feminino de sabedoria (Sofia e Prajña, respectivamente) têm um importante papel. No Hevajra-Tantra está escrito: "Prajña é chamada mãe, porque ela dá nascimento ao mundo".

- Tanto o Gnosticismo quanto o Budismo estão mais centrados nos aspectos míticos e simbólicos do que nos históricos. Cristo é apresentado como "Cristo-Princípio" pelos gnósticos que adotam o simbolismo cristão. Buda, no Budismo Mahayana, é O Iluminado e a própria Natureza da Iluminação. Não há preocupação excessiva com questões da "realidade histórica".

- Ambos os sistemas desdenham a "popularidade" e direcionam seus ensinamentos para uma elite espiritual. Significados ocultos e misteriosos prevalecem em ambos os sistemas.

- Tanto o Gnosticismo quanto o Budismo são metafisicamente monísticos, o que quer dizer que aspiram transcender a multiplicidade do mundo manifesto e atingir a condição da unicidade absoluta.

Desnecessário reafirmar aqui que é completamente estapafúrdio trazer para o Brasil formas de sincretismo baseadas em culturas completamente alienígenas à mentalidade ocidental. Garrafinhas de sakê no altar, purificações com “haraigushi”, bolinhos de arroz no Ano Novo, shimenawas, shidê etc., em pleno Brasil, são o ápice do “non sense” e do desconhecimento da causa desses elementos em formas japonesas de Budismo...É apenas repetição mecânica e irracional, pura imitação tola de quem não tem muita idéia do que está fazendo...



segunda-feira, 1 de junho de 2015

Brasil hoje e daqui a 50 anos.

P.: Meus mais respeitosos cumprimentos, Rev. Dharmananda.

Gostaria de agradecer pelos maravilhosos textos que o sr. publica no blog, em especial ao do dia 30 de abril.
Sempre com consciência impressionante, cada texto é uma aula. Gosto muito de sua visão crítica

Agradeço muito pelas reflexões e pelas sábias palavras de cada texto.


É impressionante como existe tanta falsidade no mundo, tantas mentiras, tantos falsos mestres
e tanta obscuridade mental. E como infelizmente a maioria das pessoas compra tudo isso, mantendo este status quo.

O sr. versa sobre todos os temas  de forma brilhante.


Agradeço pelas respostas que recebi do sr.


O que o sr. poderia dizer sobre o cenário político atual e o que o sr. acha que será do Brasil nos próximos 50 anos?
O quê poderia trazer ordem ao Brasil?


Profunda gratidão,


R.: Prezado XXX,
Agradeço humildemente suas gentis palavras.
Espero, sinceramente, que, de alguma forma, meus textos possam continuar auxiliando à conscientização sobre o Dharma no Brasil.
Em relação às suas perguntas:

1) O que o sr. poderia dizer sobre o cenário político atual e o que o sr. acha que será do Brasil nos próximos 50 anos?

O cenário político atual é bastante grave. A cada dia assistimos  mais e mais imundície vir à superfície e as “propostas de mudança”, na realidade, não passam de engodo e de “espantalhos” para desvia a atenção dos problemas reais. A classe política, em sua imensa maioria, está tão ocupada em encher os próprios bolsos e em extrair o máximo benefício pessoal de seus cargos que pouco se importa em, pelo menos, aparentar uma maior austeridade.
No entanto, cabe notar, não adoto nenhuma forma de “maniqueísmo social”. Em outras palavras, não acredito em um “povo santo e honesto” que é explorado por seu oposto, ou seja, pelos “políticos demoníacos e desonestos”.
Ao contrário dos mais extremistas, não creio que haja intenção de se instalar uma “ditadura comunista” ou algo do tipo aqui. E isso por razões bastante simples. Os políticos brasileiros são um reflexo da imensa maioria do povo, ou seja, individualistas, egoístas, ignorantes, preguiçosos, avessos a quaisquer ideologias que, de alguma maneira, lhes tire ou possa tirar o conforto e o bem estar pessoal.
O político brasileiro sai do mesmo lugar de onde sai o indivíduo vulgar cuja maior felicidade é encher a cara de cerveja, comer churrasco, aplicar golpinhos e ter variadas parceiras sexuais ao som de pagode, funk ou coisa do gênero. A diferença é que são mais verbosos, mais escorregadios e com um maior “refinamento” para a malandragem burocrática. A imensa maioria não tem qualquer refinamento teórico em matéria política. Para eles, fazer “política” é estabelecer alianças com quem pode, de alguma forma, lhes oferecer vantagens particulares com uma capa de “benefício social” e seguir as normas e regimentos das organizações políticas às quais se juntam.
A “ditadura” à qual estamos sendo submetidos não é uma ditadura comunista. É a ditadura da decadência generalizada de qualquer ordem pessoal e pública de MORALIDADE. É a ditadura da ignorância levantada como um troféu, a ditadura da imbecilidade e do governo dos parvos.
O político brasileiro escreve projetos de lei e faz propostas com o mesmo descompromisso intelectual com que uma má faxineira testa produtos para limpar a privada. Vai jogando lá e espera para ver o que acontece...Se a aparência e o cheiro agradarem, está ótimo.
O que vai acontecer no Brasil nos próximos 50 anos vai depender muito da disposição interna do brasileiro. Não estou falando da disposição em vestir verde e amarelo, pintar a cara, pegar bandeirinha e ir passear no centro da cidade no domingo achando que está “fazendo algo pelo país”, mas sim da disposição em começar uma “reforma interior”, ou seja, de adotar uma outra conduta de vida, uma outra disposição em relação ao seu papel na sociedade e outros objetivos como paradigmas a serem buscados.
Enganar uma multidão de ignorantes é fácil. Para ser eleito por gente semi-analfabeta que só está preocupada com os micro-benefícios que recebeu em troca de voto, basta ter dinheiro para propaganda e investir nas emoções e sensações mais toscas.
Com uma sociedade diferente, ou seja, interiormente “reformada”, as coisas se complicariam bastante para os oportunistas. Pessoas sérias poderiam ter interesse na vida política e, com isso, os quadros políticos se transformariam.
Isso é, pura e simplesmente, karma.

2) O que poderia trazer ordem ao Brasil?

A primeira coisa seria a formação de uma verdadeira elite.
No discurso ridículo do populismo, “elite” é quem não passa fome, sabe ler, tem emprego, tem residência fixa, assiste TV e tem conta no banco. Também seria “elite” quem tem  algum dinheiro ou muito dinheiro.
Todo esse discurso é mais um engodo pois, na realidade, não temos uma elite significativa.
Elite verdadeira é uma elite intelectual e moral, uma nobreza efetiva que constitui um pólo real de oposição a toda forma de decadência. A elite verdadeira é a que reconhece o lugar devido das funções sociais tradicionais e não faz qualquer questão de igualitarismo. Muito pelo contrário, sabe-se elite e assim deseja continuar.
Ao contrário do que teorizam os igualitários, alguém não tem autoridade por ser investido em um cargo, mas deve ser investido em um cargo por ter autoridade. Isso quer dizer que toda forma legítima de autoridade, de mando e de governo deve proceder de um Princípio Superior, em uma transmissão vertical de valores. É o “governo dos melhores”, ou seja, aristocracia em seu sentido mais legítimo.
Acreditar que o vulgo, em sua contumaz ignorância, é quem deve ser a fonte e a referência de poder é a própria receita do fracasso. Veja nosso Brasil. São os “populares”, uma amostra do vulgo, que ocupam as cadeiras do poder institucional, aqueles aos quais nos referimos no começo dessas considerações (os mais vulgares...).
Estabelecida uma verdadeira elite, sua área de influência se tornaria progressivamente maior e isso poderia ser o início de uma crise libertadora que levaria à reforma das mentalidades.
Muita gente acredita que uma volta dos militares seria benéfica. Eu não me encontro entre ela.
Os militares brasileiros padecem dos mesmíssimos e graves defeitos do restante do país, agravados pelo fato de que, devido a uma estrutura anacrônica e ineficaz, comandada por notáveis incompetentes, conseguem ter menos capacidade de adaptação e agilidade ainda que os civis.
As Forças Armadas, em vez de usarem os princípios estratégicos de adaptabilidade, de modificação rápida para a obtenção de objetivos almejados, ficam cristalizadas em um tipo inócuo de pseudo-disciplina (posto que é completamente exterior) cujo grande fim é a manutenção de uma aparência de ordem na cadeia de comando.
Dessa forma, temos no Brasil Forças Armadas cuja grande “especialização” são os desfiles, as “ordens unidas”, os detalhes referentes a minúcias completamente irrelevantes do uniforme, o autoritarismo prepotente em questões minúsculas, a burocracia “intra muros” doentia, uma medíocre “vida social” em torno de datas cívicas e a repetição de brados, frases de efeito e bravatas que estão muito distantes de qualquer capacidade real de combate.
Em resumo: Para haver ordem no Brasil é preciso que haja, primeiro, ordem nos brasileiros...

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Perder tempo

Você já se perguntou quanto tempo de sua vida é jogado fora com questões que não têm absolutamente nada de relevante ou que, de forma alguma representam qualquer benefício real a você?
Já se perguntou o quanto dedica de sua vida a formar uma "imagem aceitável" para os outros?
O Mundo Moderno vive com espasmos e febres por "atividade". Todo mundo é "ativista", todo mundo precisa "participar", todo mundo tem que ser"engajado", todo mundo precisa dar "opinião" sobre tudo...
Quem não tem opinião sobre tudo, quem não é ativista de nada, quem não está com uma bandeira ou um cartaz é necessariamente, para a sociedade atual, um "alienado".
Não se concebe no mundo de hoje a validade de qualquer tipo de ação elevada, de caráter intelectual, contemplativo ou metafísico. É preciso "se mexer"...
O contemplativo, o estudioso silencioso, o recluso que se dedica ao auto-cultivo é apenas um "vagabundo"...
As pessoas estão sempre em um estado de sobressalto diante da última "novidade" ou da última "polêmica". Notícias que não dizem respeito a ninguém que conhecemos ou que em nada afetam as nossas existências são tomadas como causas pessoais desesperadas.
As modas e os frêmitos consumistas são disseminados assim.
As pessoas não têm mais tempo para nada. 
Mas, têm tempo para discutir sobre o terremoto no Nepal (sobre o qual não podem e não farão absolutamente nada), sobre a greve da classe X ou Y (com a qual elas não têm relação nenhuma e nem nenhum poder de decisão), sobre decisões políticas já tomadas (e sobre as quais não está aberta qualquer possibilidade de discussão para mudança efetiva), sobre a vida do fulano ou da beltrana da TV (cuja relevância é inexistente), sobre o campeonato de futebol, sobre a diretoria do clube de futebol X, Y ou Z, sobre a marca de carro A, B ou C ou ainda sobre questões absolutamente irrelevantes, como é o caso de grande parte dos "debates" televisionados e da troca de "opiniões" das "celebridades".
Qualquer imbecil que apareça com alguma regularidade na mídia é chamado a "opinar" sobre os mais diversos assuntos sobre os quais ele não sabe nada.
Tal estado de coisas não é inocente e nem espontâneo, como poderia parecer a uma primeira análise.
Os próprios religiosos são arrastados por essa onda e dentro das comunidades há um certo desprezo pelos que "não fazem nada"..."Fazer" é, de acordo com essa visão materialista",  praticar atos visíveis, materialmente palpáveis, que dêem "resultado", seja ele qual for.
Gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre isso.


"Quando um povo foi afastado do cumprimento dos ritos tradicionais, é ainda possível que sinta o que lhe falta e que comprove a necessidade de retornar a isso; para impedi-lo, lhe oferecerão "pseudo-ritos", e inclusive lhes imporão se houver espaço para isso; e esta simulação dos ritos é algumas vezes levada tão longe que não custa muito esforço reconhecer a intenção formal e quase não dissimulada de estabelecer uma espécie de "contra-tradição". Há, além disso, na mesma ordem, outras coisas que, parecendo mais inofensivas, estão na realidade longe de sê-lo: queremos falar dos costumes que afetam à vida de cada indivíduo em particular, mais que a do conjunto da coletividade; seu papel é ainda o de reprimir toda atividade ritual ou tradicional, substituindo-a por uma preocupação, e não seria exagerado dizer inclusive uma obsessão, para uma multidão de coisas perfeitamente insignificantes, se não de todo ponto absurdas, e cuja pequenez mesma contribui poderosamente à ruína de toda intelectualidade. 
(...)
O que é possivelmente mais chamativo nestes costumes profanos, seja no Oriente ou no Ocidente, é esse caráter de incrível pequenez que já mencionamos: parece que não apontam a nada mais que a reter toda a atenção, não somente sobre coisas completamente exteriores e vazias de todo significado, senão inclusive sobre o detalhe mesmo destas coisas, no que tem de mais banal e mais estreito, o que é evidentemente um dos melhores meios que possam existir para conduzir, a aqueles que se submetem a isso, a uma verdadeira atrofia intelectual, da qual o que se chamou no Ocidente a mentalidade "mundana" representa o exemplo mais cabal.
Aqueles em quem as preocupações deste gênero chegam a preponderar, inclusive sem alcançar este grau extremo, são muito manifestamente incapazes de conceber alguma realidade de ordem profunda (...) estes se encontram desde então encerrados no círculo da "vida ordinária", que não está feita precisamente senão de uma espessa malha de aparências exteriores como aquelas sobre as quais foram "adestrados" a exercer exclusivamente toda sua atividade mental.
Para eles, o mundo, poderia dizer-se, perdeu toda "transparência", pois não vêem nada que seja um sinal ou uma expressão de verdades superiores e, inclusive, ainda que se lhes falasse desse sentido interior das coisas, não somente não compreenderiam nada, mas também ainda começariam imediatamente a se perguntar o que seus semelhantes poderiam pensar ou dizer deles se acaso chegassem a admitir tal ponto de vista e, mais ainda, conformar a ele sua existência.
É de fato o temor à "opinião" o que, mais que nenhuma outra coisa, permite ao costume impor-se como o faz e tomar o caráter de uma verdadeira obsessão (...)" fazer como todo mundo", segundo a expressão correntemente empregada a este respeito, e que parece para alguns ocupar o lugar da razão suficiente para todas as suas ações, é  necessariamente comparar-se ao vulgar e aplicar-se em não se destacar de modo algum; seria com segurança difícil imaginar algo mais baixo, e também mais contrário à atitude tradicional, segundo a qual cada um deve se esforçar constantemente em elevar-se segundo a medida de suas possibilidades, em lugar de descer até essa espécie de nada intelectual que traduz uma vida completamente imersa no cumprimento dos costumes mais ineptos e no temor pueril a ser julgado desfavoravelmente pelos primeiros que apareçam, quer dizer, em definitivo, pelos néscios e pelos ignorantes." (René Guénon, O Costume contra a Tradição, "Études Traditionnelles", 1945)




quarta-feira, 1 de abril de 2015

O sr. me reconhece?

P. Sr. Arcebispo Arya Dharmananda,

Sou budista pertencente a escola XX que funciona no templo XXX, na cidade de XXX.
É uma escola tradicional, apesar de haver os desvios que o sr. sempre relata em seus textos.
No caso de eu querer virar membro de sua escola, o sr. me reconhece como budista ou eu tenho que começar tudo de novo?

R. Sr. XXX

Sua pergunta é impossível de responder da maneira como foi colocada.
Como vou saber se o sr. é ou não é budista?
A mim pouco ou nada importa se a pessoa é do templo A, B ou C. 
A "carteirinha" de budista diz muito pouco sobre a realidade pessoal. Ninguém é budista por pertencer a uma ou outra instituição.
O sr. toma Refúgio nas Três Jóias? Segue os Preceitos? Como os cumpre?  Aceita os Selos do Dharma como marca inegável de todo ensinamento autenticamente budista? Nega o eternalismo e o nihilismo adotando o Caminho do Meio? Aceita as 4 Nobres Verdades? Pratica o Caminho Óctuplo? Tem o Buda como Mestre Supremo de homens e de deuses? Vive como budista? De acordo com o Dharma? Como é sua vida familiar?
Só as respostas sinceras a essas perguntas podem dizer se alguém é ou não é budista.
O resto é só enfeite.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Mundo Moderno, René Guénon e o Budismo

P. Arya Dharmananda Mahacarya,

Gostaria de parabenizar seu trabalho e sua reta exposição da doutrina.
De fato, é inegável que os budistas sérios e tradicionais devem reconhecê-lo como um autêntico e legítimo representante da Tradição e do Esoterismo Budista.
Dito isso, gostaria de pedir que me clarificasse duas questões.
A primeira se refere à doutrina da decadência do mundo moderno. Como enxergar a decadência em um mundo que nos oferece sempre mais conforto, mas recursos médicos e mais expectativa de vida?
A segunda é lhe perguntar sobre sua visão em relação à negatividade com que René Guénon vê o Budismo.
N.B. : Sou membro da tariqa sufi tradicionalista XXX. Meu nome iniciático é Sheikh XXX

Gratíssimo por seu tempo e por sua atenção.

XXX

R. Prezado Sheikh XXX, XXX,

Obrigado por suas palavras amáveis e pelo estímulo.

Em relação às suas perguntas:

1) A decadência do mundo moderno se refere aos valores metafísicos e às questões concernentes a tais valores.
Poderíamos encarar a questão dizendo que, à medida que a atenção para as questões metafísicas e puramente intelectuais foram se turvando e decaindo, todo o esforço humano se voltou para o mundo exterior, ou seja, para o incremento dos elementos puramente materiais da existência.
Vivemos em uma época de materialismo e de "fenomenismo". As religiões modernas buscam "fenômenos" e "sinais". Ou seja, baseiam seu critério de "verdade" apenas nas manifestações exteriores, no puramente material. Assim são os que se iludem com "manifestações espíritas", "manifestações sobrenaturais ou preternaturais", "curas milagrosas", "incorporações", "visões" e outros elementos perceptíveis pelos sentidos e experienciáveis.
Também se encontram no campo desse paradoxal "materialismo-espiritual", os que se apegam a transmissões efetuadas pura e simplesmente através de ritos e cerimônias externas, sem a absorção direta e real do conteúdo, do material intelectual/espiritual a ser transmitido.
Um passo além desse "fenomenismo" é o puro e simples materialismo, com a negação completa de toda metafísica e sua substituição pelo mais raso e direto empirismo. Em outras palavras, a adoção do "o que eu vejo e toco existe, o que não vejo e não toco, não existe" ou, "para que exista, tenho que captar exteriormente de algum modo".
Eu não nego o valor de tudo que de bom e salutar a tecnologia e as Ciências Experimentais proporcionam às pessoas.  No entanto, condeno com veemência o abandono do pensamento puramente metafísico e espiritual e sua substituição pelo materialismo crasso.
É aí que se encontra o cerne da decadência do mundo moderno e é aí o campo de combate dos tradicionalistas.

2) A primeira fase das análises de René Guénon sobre o Budismo foi baseada em um equívoco. Ele, de fato, cria que "Budismo" era o que se apresentava aos europeus do século XIX e começo do século XX pelos membros da Sociedade Teosófica e outros neo-espiritualistas.
Se tomarmos isso como referência teremos que dar razão a René Guénon. Aquele "budismo" apresentado aos europeus era evidentemente anti-tradicional e heterodoxo.
Em 1947, Guénon teve ocasião de entrar em contato com estudos e documentos do Budismo Mahayana que foram apresentados a ele por Marco Pallis e Ananda K. Coomaraswamy.
Depois dessa análise, Guénon teve que reformular suas opiniões e reconheceu que o Budismo é uma manifestação regular e ortodoxa da cultura Indo-Ariana e que a heterodoxia se encontrava apenas em alguns ramos do Hinayana e nos desvios interpretativos modernos.
Ananda K. Coomaraswamy

Marco Pallis

Da mesma forma, a idéia de Guénon sobre o Taoísmo, acreditando que ele seria mais antigo que o Budismo e que teria dado origem às diversas formas de esoterismo e de iniciação no Oriente, se baseou num equívoco transmitido a ele por Albert Puyou, Conde de Pouvourville (1862-1939), que tinha recebido a Iniciação Taoísta através de sociedades secretas sino-vietnamitas que reproduziam a informação falsa de que o Taoísmo era a "religião original" dos chineses, informação essa forjada com objetivos de propaganda anti-budista. 
Albert Puyou, Conde de Pourvoville, chamado de "Matgioi" e "Nguyen Te-Duc Luat" nas Tríades que foi iniciado.

Outra foto de Albert Puyou

Uma das obras de Albert Puyou sobre o Taoísmo e Sociedades  Secretas. Ele também realizou traduções de obras chinesas para o francês.

Um livro de J.P. Laurant sobre a vida de Albert Puyou, cujo nome iniciático dá o título do livro: "Matgioi - Um aventureiro taoísta".


O Budismo era estrangeiro, ou seja, seria necessariamente "inferior" ao que era nacional...
René Guénon recebeu a iniciação taoísta de Albert Puyou, a quem conheceu na Igreja Gnóstica de Fabre des Essarts. Puyou também era bispo gnóstico e tinha o nome de Tau Simon e era bispo de Tiro e Sidon. Guénon, da mesma forma, era bispo gnóstico, seu nome episcopal era Tau Palingenius e era bispo de Alexandria.
Puyou passou a Guénon a iniciação taoísta que ele recebeu em duas tríades (Tian Huì e Bac Lieu) e uma série de doutrinas oriundas desses dois grupos. Daí vieram parte dos equívocos que louvavam o Taoísmo e tentavam depreciar ou, ao menos, diminuir a importância do Budismo.
Tanto a Tian-Huì quanto a Bac Lieu eram organizações nacionalistas que pregavam a superioridade racial da etnia Han.

terça-feira, 24 de março de 2015

Um juiz "budista"?

Recebemos através de e-mail a mensagem de um budista do RS chocado com a notícia que foi dada no jornal "O Sul", dando relevo ao fato de que o juiz que foi pego andando com o carro de Eike Batista e está sendo investigado por lavagem de dinheiro se declara budista.
O juiz teria declarado que se fosse o "carma"(sic) dele, ele não teria problema em ir para a prisão e lá teria, inclusive, mais tempo para "repousar" a mente.
Dois pontos nos chamam a atenção.

1) Se o juiz fosse católico, judeu ou muçulmano, se daria relevo à religião do mesmo ou o objetivo da notícia é passar a imagem de que os budistas são permissivos moralmente?

2) É uma conduta em acordo com a moralidade budista o suposto procedimento incorreto do juiz? Ou, seria aceitável tão somente pelos grupos budistas "moderninhos" que adoram passar por cima de todos os preceitos e toda moralidade do Dharma?
Esse é o conceito de karma passado nos grupos budistas?


O Budismo Tradicional execra qualquer tipo de conduta imoral. O Dharma prega o Correto Meio de Vida, o abandono de todo meio de vida incorreto e o ganhar a vida de forma correta.
Dizer que se abandonou a moralidade do Dharma por praticar o "Tantra Superior" ou por ter uma visão "superior" do Mahayana é o cúmulo do contra-senso, apesar de ser um discurso bem comum entre alguns grupos "moderninhos".




segunda-feira, 9 de março de 2015

O budista tolerante

Um tema que constantemente vem à baila é o da tolerância entre as religiões.
Em outras ocasiões, já tivemos a oportunidade de falar sobre o tema e aqui voltamos a ele.
Ser tolerante com o outro é não querer impor suas práticas, suas idéias e suas doutrinas e visões de mundo sobre ele.
Se eu sei que uma pessoa é cristã, devo deixar que ela seja cristã. 
Se eu sei que uma pessoa é judia, devo deixar que ela seja judia.
Se eu sei que uma pessoa é muçulmana, devo deixar que ela seja muçulmana.
Alguém poderá dizer: Ah, mas isso todo mundo faz...
É mesmo?
Preste atenção.
Se eu não me importo em saber o que o outro acredita para não ferir suas práticas, sou intolerante.
Se eu digo a alguém o que esse alguém deve ou não praticar espiritualmente, independentemente do que a pessoa acredite, estou sendo intolerante.
Se afirmo uma crença religiosa para alguém, de maneira peremptória, estou sendo intolerante.
O mundo está cheio de gente assim.
Há espíritas que chegam na frente de um católico e dizem: Isso é coisa de sua vida passada... 
Escute, católicos não acreditam em "vidas passadas".
Há cristãos que falam para muçulmanos: Só Jesus para te ajudar...
Amigo, muçulmanos vêem Jesus como um profeta, não rezam para ele.
Há outros que afirmam idéias ocultistas, mágicas, animistas etc., como se fossem dogmas universais e tentam impor isso a qualquer custo, como se fossem juízes da medida do que os outros devem acreditar ou não.
A coisa chega ao absurdo de afirmarem que quem não acredita nas mesmas coisas que eles não são tão "evoluídos".  Isso quando não invertem o jogo e dizem que quem não aceita acreditar nas mesmas doutrinas que eles são os "intolerantes".
O budista deve aprender a não "pregar" para quem não tem a intenção ou o desejo de se converter ao Dharma. 
Quem tiver afinidade kármica com o Budismo vai se aproximar dele. Não é tarefa do Budismo sair enchendo o saco de ninguém com pregações, doutrinas e proselitismo.
Se você é budista e tem amigos católicos, os estimule a serem católicos. Se são judeus, estimule que pratiquem seu judaísmo. Se são mórmons, idem.
Eu não vou praticar a religião dos outros. E também não quero que ninguém seja forçado a praticar a minha.
Já disse uma porção de vezes que sou contra a tal "interreligiosidade" e o "ecumenismo" sem noção.
Juntar todo mundo em um balaio e dizer que é "tudo igual" é desrespeitar o caráter único de cada tradição. 
Dialogar, respeitar, conviver etc., é muito diferente de sair fazendo uma mistureba sem pé nem cabeça ou de querer que o outro se sinta obrigado a atos cultuais que lhe são absolutamente estranhos.
Há valores comuns? Sem dúvida que há. No entanto, cultivar esses valores comuns não é a mesma coisa que introduzir doutrinas na mente dos outros de maneira sub-reptícia.
Intolerância não é só o extremismo repulsivo de um "Estado Islâmico" que decapita pessoas diante das câmeras. 
Pequenos atos para "forçar a barra" também são indícios de intolerância e desrespeito.
Esse humilde blog está com quase meio-milhão de acessos. Espero que as idéias de tolerância verdadeira e de respeito genuíno pelo espaço do outro se difundam.



sexta-feira, 6 de março de 2015

Dedicação dos méritos

P. Salve Arya,

Por favor, me explique como se dá o processo de dedicação dos méritos. Como os outros seres recebem os méritos não estando presentes à prática?
Fica parecendo algo meio mágico e sei que essa não é sua linha.

Obrigado.

R. Gostei de sua pergunta.
Quando acabamos a prática dizemos: "Que os méritos dessa prática possa recair sobre todos os seres, que nós e todos os seres possamos revelar a Natureza de Buda".
Se nós entendemos a prática geramos méritos. Quais méritos? Geramos sabedoria, geramos boas intenções, geramos propósitos de agir em acordo com o Dharma, em acordo com a moralidade do Dharma e também geramos compaixão. Nosso voto de gerar a Bodhicitta (a mente da Iluminação) se fortalece. Isso são sementes de um karma bom.
Ao pronunciarmos as palavras da "Dedicação dos Méritos" ao terminar, fazemos o voto de levar os méritos do Dharma, as qualidades interiores geradas pelo Dharma para os outros, para os que estão fora do templo. A todos os que possam ser atingidos por nossa ação, a todos os seres existentes, se isso for possível.
Esse é o sentido da Dedicação dos Méritos.
Os méritos não são coisas que saem voando de nós ou do templo. Não saímos "soltando méritos" como caspa no ar.
Recitar a Dedicação dos Méritos é uma forma de nos comprometermos com os outros seres. É parte do trabalho do Bodhisattva.



quarta-feira, 4 de março de 2015

A egrégora e o Budismo

P. Arya Dharmananda, bom dia!

Estou frequentando um grupo budista no RS e há muitas coisas que me deixam confusa.
Uma delas é a doutrina da egrégora.
Não sei se essa é uma doutrina budista, mas, o que escuto no grupo budista é que é um tipo de energia do grupo, uma energia sagrada que emana da coletividade e que é reflexo da harmonização de todos.
Pesquisando na internet vi que outros grupos mais esotéricos também falam sobre a egrégora.
Você podia me dizer algo a respeito disso?

Obrigada!

R.: Prezada leitora,

Posso te dizer muitas coisas a respeito disso.
A primeira delas é que você deve se afastar desse grupo "budista" que está fazendo essa misturada toda.
A tal "egrégora" tão falada e decantada em grupos esotéricos, não muito bem informados, é um amontoado de confusões.
A palavra "egrégora" surge no cenário ocultista moderno com Eliphas Levi que retirou a palavra do Livro de Enoch e lhe deu um sentido diferente.
De fato, no Livro de Enoch, um apócrifo datado entre 200 a.E.C. e o século I da E.C., a palavra aparece traduzida como "anjos guardiões" que teriam caído em fornicação com as mulheres humanas e essas, como fruto dessa relação com os "egrégores" teriam dado à luz a gigantes.
A passagem é a seguinte:

"Quando outrora aumentou o número dos filhos dos homens, nasceram-lhes filhas bonitas e amáveis. Os anjos (egrégores), filhos do céu, ao verem-nas, desejaram-nas e disseram entre si: "Vamos tomar mulheres dentre as filhas dos homens e gerar filhos!"
(Livro de Enoque, Cap. 6. 1)

Os tais "egrégores" eram anjos guardiães que desceram sobre o monte Hermon  e o Livro de Enoque diz que eram duzentos, mas só cita o nome dos líderes.
A palavra "egrégora" e suas derivações em grego significam "vigilância", "estabelecer vigilância" etc., ou seja, eram anjos que exerciam uma função de guarda e vigilância.

Bom, o caso é que Eliphas Levi utilizou idéias de Eugène Nus ("Les Grands Mystères") quando este último, influenciado pelos círculos espíritas franceses que adotavam postulados mesmeristas, expressou a idéia de "fluído magnético", "exteriorização da motricidade" ou "exteriorização da sensibilidade". Essas teorias foram citadas pelo Dr. Gibier ("Le Spiritisme, pp.310-311) como uma das possíveis explicações para os fenômenos espíritas.
Os mesmeristas acreditavam que o corpo emitia um tipo de fluído magnético e que, a junção de vários fluídos faria um tipo de boneco do Dr. Frankenstein "magnético" ou "fluídico"...
Não é muito clara a confusão que Eliphas Levi cometeu ao dizer que o tal "fluído magnético" ou a "exteriorização da motricidade" seriam "egrégores", mas, penso eu, que ele achava que os anjos da guarda, na verdade, são exteriorizações do fluído das pessoas.
A teoria dos "fluídos" de Mesmer e o mesmerismo, de maneira geral, se provaram falsos com o avanço das pesquisas sobre o tema.
No entanto, a conversa da "egrégora" continua viva. Um escutou aqui, outro repetiu ali e pouco a pouco, virou um tipo de dogma ocultista que ninguém sabe muito bem dizer de onde veio ou quais as bases para essas afirmações.
Mostrem-me uma única escritura Tradicional que dê ao termo "egrégora" o sentido que se dá hoje e eu passarei a usá-lo com grande entusiasmo...Vou esperar sentado, porque de pé cansa...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

As outras religiões e o Budismo

P. Arcebispo Arya Dharmananda,

Eu acompanho seu blog há um bom tempo e, apesar de não ser budista (sou cristão), admiro muito seu estilo direto, claro e lógico.
Não sei onde podem achar um ponto menos correto em suas exposições do ponto de vista budista. O senhor sempre demonstra tudo com muita clareza, com bases  e inclusive, demonstra um profundo conhecimento de outras religiões.Eu mesmo já aprendi muito da minha própria religião lendo seu blog e já recomendei a outros cristãos como eu que o lessem.
Minha pergunta ao sr. é a seguinte: Como se dá a relação de respeito entre budistas e outras religiões, como a cristã, sem cair nas misturas e no ecumenismo barato que o sr. condena (e eu concordo plenamente)?
Desde já agradeço!


R. Prezado sr. XXX,

Agradeço seu gentil e-mail.
O sábio Nagarjuna, em seu "Tratado da Grande Sabedoria/大智度論" diz que toda palavra verdadeira, ainda que pronunciada ou escrita por um não-budista, é uma palavra do Buda.
Se estudarmos o conceito do "Perfeito e Total Buda / 圓佛", que é o próprio Dharmakaya Mahavairocana 法身大日, veremos que Ele não tem uma forma definida, não é uma individualidade, mas é a própria Natureza Verdadeira e Unívoca de toda a realidade.
Sendo assim, Ele manifesta sua realidade absoluta em todos os entes e em todos os fenômenos, de acordo com leis imutáveis e, muitas vezes, misteriosas a nós.
As formas exteriores e os costumes religiosos, como tudo que é condicionado, são destituídas de substância própria e, portanto, transitórias (as duas primeiras verdades essenciais enunciadas pelo Mestre Tiantai Zhiyi).
Como o Dharmakaya é "todo penetrante" e como toda a realidade e todos os mundos estão contidos em cada pensamento ou fenômeno (一念三千), tudo aquilo que é percebido como fato apodítico (necessariamente verdadeiro, ou demonstrável, ou que admite certeza para além de qualquer dúvida) é manifestação da Natureza de Buda.
Sendo assim, podemos dizer que o Dharma engloba todo e qualquer ensinamento necessariamente verdadeiro, venha de onde vier.
Os budistas então, reverenciam toda parcela da Verdade Absoluta, onde quer que ela se encontre. Logo, o que é reconhecidamente apodítico em todas as religiões, é parte do Dharma de Buda.
Isso é a forma de respeito mais consciente e mais honesto que se pode ter em relação às diversas manifestações religiosas. É completamente diferente da adoção cega da "geléia multicor" dos movimentos ecumenistas ou das forçadas aproximações sem análise objetiva entre as religiões.
O budista deve estudar e buscar a Verdade em todas as suas manifestações. No entanto, para realizar isso de maneira adequada, deve realizar uma análise calma e consciente de tudo, estudando os diversos pontos doutrinários e analisando a fiabilidade e a veracidade dos mesmos junto da realidade objetiva e subjetiva.
Aquilo que é necessariamente verdadeiro é parte do Dharma. Aquilo que não é, é maya (ilusão).

O que mais se vê por aí...


terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Eu não sou Charlie, sou Copta

Ao contrário dos "budistas" moderninhos eu não sou Charlie.
Sou copta. Em homenagem aos 21 cristãos coptas degolados covardemente pelo "Estado Islâmico".


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A visão budista sobre causar cisão


As sagradas escrituras budistas e os códigos morais do Budismo enumeram uma série de faltas que ocasionam graves conseqüências kármicas. Uma das mais graves é causar cisão dentro da comunidade.
É importante compreender que o karma não é algo mágico, mas, simplesmente, o resultado que amadurece como fruto das ações.
A palavra karma vem da Raiz Kr = Fazer/Ato

O karma inclui vontades salubres e insalubres (kusala e akusala cetana) que manifestam ações salubres e insalubres do corpo (kayakamma), da fala (vacikamma) e da mente (manokamma).
Quando plantamos um pé de maçã, não devemos esperar que nasça um pé de mexerica. Se plantamos feijão, não é razoável esperar colher trigo ou arroz. Se plantamos pensamentos e vontades insalubres, coisas negativas e maldosas, obviamente colheremos os frutos correspondentes.
Existem, classificados nas sagradas escrituras do Budismo 12 tipos de karma, dos quais darei um pequeno exemplo:
1- Dittha Dhamma Vedaniya Kamma : Karma imediatamente efetivo.Exemplo: Dar um tiro em uma pessoa é um karma imediatamente efetivo.
2- Upapajja Vedaniya Kamma: Karma subsequentemente efetivo. Exemplo: Decidir fazer uma conversão proibida e ser atingido por um outro veículo naquele local onde não deveríamos estar é um karma subsequentemente efetivo.
3-Aparapariya Vedaniya Kamma: Karma com efetividade indefinível. Exemplo: Pensamos mal de alguém sem falarmos disso para ninguém. Não é possível definir quando e como será a efetividade de tal karma.
4- Ahosi Kamma: Karma esquecido que se torna inoperante. Exemplo: Plantamos uma semente em um vaso mas esquecemos de cuidar dela. A terra seca e a semente não germina.
5-Janaka Kamma: Karma gerativo que condiciona estados futuros de existência. Exemplo: Não cuidamos de nossa saúde, não damos adequado tratamento as nossas enfermidades. Isso condiciona estados futuros de nossa existência.
6-Upatthambaka Kamma: Karma de suporte. Exemplo: Uma ação que apóia a outra. Antes de executarmos um ato, precisamos pensar nele e em sua execução. O ato de tramar a execução é um karma de suporte à ação.
7-Upapidaka Kamma: Karma neutralizante. Exemplo: Uma ação que neutraliza a outra. Um policial que abate um maníaco que está disparando contra as pessoas em um local cheio.
8- Upaghataka Kamma: Karma destrutivo.Exemplo: Matar alguém, destruir a vida, destruir a reputação.
9-Garuka Kamma: Karma grave. Exemplo: Ação que leve a graves conseqüências físicas e morais.
10- Asanna Kamma : Karma que aproxima a morte. Exemplo: Qualquer ação que abrevie a vida própria ou de outrem.
11-Accina Kamma: Karma habitual. Exemplo: Ações que executamos habitualmente e que formam hábitos arraigados que trazem conseqüências.
12- Katattavapana Kamma: Karma cumulativo que permanece dormente e torna se ativo na presença de outros karmas de suporte. Exemplo: Uma atitude ou vício já abandonados que, ao serem revistos ou estimulados, retomam força e vigor, como se nunca tivessem sido abandonados.
Os textos sagrados budistas classificam os “Sete Atos Graves” como as piores ações que alguém pode cometer. São eles:
1-Derramar o sangue de um Iluminado (um Buda)
2-Matar um monge que eliminou todos os grilhões à Iluminação (um Arhat)
3-Matar o próprio pai
4-Matar a própria mãe
5-Assassinar um Mestre do Dharma
6-Assassinar um Mestre dos Preceitos
7-Causar cisão na Comunidade

(Cf. Mahayana Brahmajala Sutra, 40º Preceito)

Note-se que causar cisão na Comunidade é um ato equivalente a derramar o sangue de um Buda, equivalente a cometer parricídio e matricídio...
Causar cisão é rachar uma comunidade através de maledicências, buscar poder através da divisão, enganar as pessoas  dizendo a elas inverdades para que elas sigam o que planta a divisão. Quem causa a cisão prejudica a todos aqueles que o seguem (enganando-os), prejudica os que não o seguem (causando-lhes dificuldades), prejudica a si próprio alimentando uma visão incorreta e iludida, alimenta o próprio orgulho e, ainda, difunde uma visão incorreta fazendo com que seres que podiam atingir estados superiores de existência não mais tenham essa possibilidade. Em outras palavras, o que alimenta a cisão bloqueia o caminho de incontáveis seres, até por gerações, para a Verdade.
É uma ação terrível que gera uma avalanche de conseqüências nefastas e arrasta a muitos para as trevas.
As conseqüências são graves para os que são iludidos pela cisão e são terríveis para os que causam a cisão.
Aqueles que cometem quaisquer das Sete Graves Ações são impedidos de receber os preceitos budistas e é dito que eles arrancaram as sementes da Iluminação de si mesmos.