quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Discurso de ódio x Liberdade de expressão

"Discurso de ódio" é mais um chavão da esquerda que tem chic e elegância.
Na real não quer dizer coisa nenhuma.
O ódio, por si mesmo, não é "discursável", tendo em vista que as sensações, em si, não são expressas por palavras. As palavras descrevem a sensação apenas de maneira aproximativa, tentando trazer à memória dos outros uma representação de sensação semelhante.
Tomás de Aquino define o ódio como uma forma dinâmica de tristeza. Assim como posso descrever os efeitos da tristeza e/ou agir tristemente, também posso descrever os efeitos do ódio e/ou agir de forma irada, odienta.
Exemplo: Se tenho dor, descrevo a dor como "pulsante", "latejante", "cortante", como se fosse um "aperto", "fina", "ardida" etc., tentando fazer com que o outro, utilizando a memória, tenha uma representação mental aproximada do que estou tentando dizer. Não há como representar a sensação com exatidão. Também é impossível representar sentimentos dessa forma. Se sinto amor, descrevo-o como "grande", "enorme", "amplo", "sufocante" etc., mas não consigo ter, propriamente, um "discurso de amor".
Nem uma declaração de amor é, propriamente, um discurso de amor. É uma elegia, em que se elogiam as virtudes e qualidades do ser amado, dando os motivos do sentimento que tal ser desperta no apaixonado declarante.
Posso descrever os efeitos do amor nas minhas ações, mas não posso despertar em outros o amor que sinto através dessa mera descrição. Da mesma forma, não consigo incutir no outro a dor que sinto ou fazer com que ele compreenda, de maneira completa, a extensão e as particularidades dessa dor.
Se a esquerdinha estudasse um pouquinho mais de Filosofia Escolástica, não diria essas baboseiras que vive dizendo. Se o zé-povinho fosse um pouquinho menos ignorante, não engoliria, todo santo dia, esse monte de merda.
Ter ódio é sentir aversão e raiva de algo. Essa aversão pode ser justificada por argumentos, mas não é uma causa, ao contrário, é o efeito.
Exemplo: Tenho ódio de alguém como efeito de uma ação ou omissão, real ou atribuída, mas não tenho ódio anterior à causa. O ódio é efeito, não causa.
Um "discurso de ódio" seria algo bastante interessante e quebraria todas as leis da lógica mais elementar. Em vez de descrever as causas pelas quais alguém odeia (que seria um discurso descritivo de ações ou omissões moralmente odiáveis dentro de um determinado sistema, portanto um discurso moral e não um "discurso de ódio"), o discurso principiaria por descrever a sensação do ódio em toda sua extensão, mostrando que as causas vêm depois do efeito...
Em outras palavras: Eu odeio porque odeio. Odeio suas ações porque são suas, e não por elas serem, em si, más e condenáveis. Odeio você independentemente de suas ações e odeio suas ações pelo ódio que sinto de você...
Isso seria, simplesmente, um raciocínio circular, sem sentido algum...
A expressão "discurso de ódio", por mais estapafúrdia e sem definição que seja, pegou e virou o chavão da nova censura, a censura do "politicamente correto".
Quando os movimentos "engagé" falam o que querem, aí é "liberdade de expressão". Quando alguém discorda, aí é "discurso de ódio".
Se você concorda com todas as pautas e agendas políticas desses movimentos, você é livre para expressar seus sentimentos, seus pensamentos e tem "liberdade de consciência" mesmo que seja para enfiar o crucifixo no ânus em praça pública (como fizeram na tal "Marcha das Vadias"). Se você não concorda e tenta raciocinar sobre as causas pelas quais não concorda, aí é "discurso de ódio" e você não tem mais o direito de se expressar.
Se um evangélico, por questão de crença religiosa, condena a prática homossexual, é discurso de ódio. Se um partícipe de um movimento gayzista diz que vai "pegar em armas" para "matar esses desgraçados" (os evangélicos), aí é liberdade de expressão.
Mulheres nuas e pintadas podem interromper cultos religiosos aos berros, podem tentar atacar o papa, podem ficar nuas e histéricas no meio da Praça de São Pedro ou podem acender velas na Av. Paulista para pedir a liberação do aborto. Tudo isso é pura, puríssima, liberdade de expressão. Invadir a catedral de Notre Dame de Paris berrando pelada é liberdade de expressão. Fazer panfletagem pedindo aos católicos que se manifestem contra o aborto é discurso de ódio e merece pedradas e achaques (como aconteceu recentemente em Curitiba).
Se um pastor evangélico, baseado no livro sagrado de sua religião, disser que a relação sexual entre dois homens ou duas mulheres é pecado, é "discurso de ódio". Se um gayzista disser que o papa é um "genocida em potencial", aí é liberdade de expressão.
Já li várias vezes em redes sociais o novo slogan da mordaça: Discurso de ódio não é liberdade de expressão.
Obviamente que ninguém define o que é, propriamente, "discurso de ódio" ou no que ele difere da livre expressão do próprio pensamento ou da liberdade de consciência, prática e expressão religiosa. No entanto, esse chavão é repetido várias e várias vezes, como uma fórmula para justificar o pretenso direito de impedir o incômodo discordante de falar e se expressar.
Agora, em vez de simplesmente mandar o outro calar a boca porque eu não quero que ele fale, basta jogar o tal do "discurso de ódio" na jogada e isso te livra automaticamente de ser considerado um censurador da consciência e da palavra alheia. Pelo contrário. Como você "ama demais" a liberdade, vai impedir seus inimigos de a terem também...
Curioso como isso lembra o esquema de politização e padronização da "novilíngua" do clássico 1984.
"Inconsciência é ortodoxia".
Vamos praticar o "crimideter" e impedir as "crimidéias" para não virarmos "impessoas".
Repitam todos: "Discurso de ódio, discurso de ódio, discurso de ódio..."

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Homofobia

Os jornais relataram que um dos candidatos à presidência da República, o sr. Levi Fidelix, teve um comportamento considerado "homofóbico" e que, inclusive, alguns grupos querem a cassação de sua candidatura e mesmo seu aprisionamento graças a algumas declarações dadas em um debate televisionado.
O tema 'homofobia', bem como a utilização desse termo, são bastante recorrentes nos dias de hoje. 
A acusação de 'homofobia' ou o pedido de criminalização da homofobia fazem parte da pauta de discussões da sociedade contemporânea.
Parece-me também que entre as instituições ditas budistas há grande preocupação em não mostrar-se "homofóbico" e de ter (e demonstrar enfaticamente) opiniões de acordo com o "politicamente correto".
Tendo em vista o relevo que o tema ganha hodiernamente, resolvi estudar um pouco sobre o assunto e compartilhar com os leitores algumas constatações e reflexões interessantes advindas de minhas pesquisas.
Primeiro, fui pesquisar sobre a definição de fobia.
Dos diversos manuais e dicionários de psiquiatria que consultei, a definição é sempre bem parecida:


Fobia: Reação de evitação; transtorno fóbico, neurose fóbica; histeria de ansiedade. Fobia é um tipo de transtorno de ansiedade que consiste em medo excessivo, irracional ou imoderado, sugerido pela presença ou pela antecipação de um objeto ou de uma situação específica. Exposição ao estímulo fóbico quase invariavelmente provoca uma resposta de ansiedade imediata, que pode aumentar para um ataque de pânico. A fobia é mais que medo, entretanto, pois o objeto ou a situação temidos devem ser evitados ou podem ser tolerados apenas com sofrimento marcante, devido à resposta de ansiedade ou ao ataque de pânico que ela provoca. (Campbell, Robert J. Psychiatric Dictionary, 2004)

A fobia é um transtorno de ansiedade.
Transtorno, de acordo com os mesmos dicionários e manuais, é doença, ou seja, um estado alterado de funcionamento do psiquismo que causa sofrimento.
A ansiedade é definida como "Um afeto que difere de outros afetos em suas características desprazerosas específicas. Ansiedade consiste em um lado somático, fisiológico (respiração perturbada, atividade cardíaca aumentada, alterações vasomotoras, distúrbios musculoesqueléticos, como tremor ou paralisia, sudorese aumentada, etc.), e em um lado psicológico. Este inclui "uma atitude interior consciente específica e um estado de sentimento peculiar caracterizado por (1) consciência física e mentalmente dolorosa de ser impotente para fazer qualquer coisa em relação a um problema pessoal; (2) pressentimento de um perigo iminente e quase inevitável; (3) alerta tenso e fisicamente exaustivo, como se diante de uma emergência; (4) auto-absorção apreensiva que interfere na solução efetiva e vantajosa de problemas da realidade; e (5) dúvida insolúvel com relação à natureza do mal ameaçador, à probabilidade do aparecimento real da ameaça, ao melhor meio objetivo de reduzir ou remover o mal à própria capacidade subejtiva de fazer uso efetivo daqueles meios se e quando a emergência surgir" (Piotrowski, Z. Perceptanalysis, 1957)

O primeiro ponto então a se destacar é: Se é "fobia" é um estado mórbido, uma doença e, portanto, não é algo voluntário ou desejado por quem é acometido pela mesma. A mim, isso parece bastante lógico e claro.
Passando à pesquisa do termo 'homofobia' propriamente, é interessante notar como as definições vão mudando à medida que avançam as agendas políticas dos movimentos gayzistas.
As definições mais antigas, fiéis ao princípio de que se trata de uma doença, ou seja, de um transtorno de ansiedade,  traz como definição:  "Medo irracional e persistente de homossexualidade, frequentemente manifestado em reações de raiva extrema para com homossexuais. Ver: Síndrome do Exorcista"
Na entrada "Síndrome do Exorcista" encontramos: 
"Tipo de homofobia expressa em ataques físicos ou psicológicos, ou ambos, a homossexuais. Um exemplo é o espancador de gays que aceita o assédio de um homossexual, faz sexo com ele e, então, o espanca ou até o mata; tal comportamento é frequentemente interpretado como sendo a forma do espancador livrar-se de (i.e. exorcizar) a culpa por sua própria bissexualidade ou homossexualidade latente."

Em publicações mais modernas, as definições vão se tornando cada vez menos claras. Uma das que achei mais genéricas diz: "Atitudes negativas para com os homossexuais e a homossexualidade, refletindo medos e reações conscientes e inconscientes."
Obviamente, não há nenhuma definição clara do que seja "atitude negativa" e nem como essa atitude negativa reflete medo e reações conscientes e inconscientes.
Se eu não simpatizo com um homossexual é uma "atitude negativa"? Sim.  Mas, e se minha antipatia não tem absolutamente nada a ver com a sexualidade dele? Ele poderá me taxar de "homofóbico"? Mas, se fobia é uma das manifestações do amplo espectro do transtorno de ansiedade, onde é que ela se manifesta nessa minha antipatia? E qual a relação de minha "atitude negativa" em relação a um indivíduo determinado com uma fobia específica?
Se uma determinada crença religiosa condena a prática homossexual, mesmo que baseada em pressupostos completamente diversos de "medo e reações conscientes e inconscientes" (como a crença de que o sexo só é lícito para a procriação e que, como a relacão sexual entre indivíduos do mesmo gênero impossibilita a reprodução, obviamente está incluído nas espécies de sexo ilícito), são crenças religiosas "homofóbicas"? Onde é que a fobia entra aí? Os legisladores religiosos tinham medo excessivo, irracional ou imoderado dos homossexuais, caracterizado por uma reação de ansiedade e pânico? E todos os religiosos que adotam tais condutas também têm?
Quando falamos em "criminalizar a homofobia" estamos falando em criminalizar uma doença? Criminalizar um tipo de transtorno de ansiedade? Ou estamos falando em criminalizar todo e qualquer tipo de comportamento considerado "negativo" em relação ao indivíduo homossexual, desde que ele, SUBJETIVAMENTE, se considere vítima de um comportamento negativo e ao qual ele atribui, ainda que erroneamente,  uma causa ligada à sua orientação sexual?
No primeiro caso, criminalizar uma doença seria um completo absurdo. Aquele que sofre de um transtorno mental e age impulsionado por tal transtorno, de maneira irresistível, é inimputável. Isso é verdade para todo e qualquer tipo de crime, tanto é que existem os manicômios judiciais, onde os inimputáveis que representam risco real para a sociedade permanecem internados. No entanto, ninguém vai parar no manicômio por ter ataque de pânico, crise de ansiedade ou se sentir mal e irritado em decorrência de um transtorno psiquiátrico. Para isso existe psicoterapia e remédio. Se é realmente homofobia, é preciso ser tratado como tal, ou seja, doença, não crime.
No segundo caso, onde toda e qualquer atitude negativa relativa ao indivíduo homossexual ou à prática homossexual (mesmo as baseadas em pressupostos filosóficos e/ou teológicos) é taxada de "criminosa", criaríamos uma verdadeira "caça às bruxas", impondo uma terrível censura à liberdade de consciência, expressão e crença, onde o homossexual seria visto como indivíduo inatacável, protegido por uma lei absurda que o isenta de ser objeto de qualquer mínima antipatia, divergência ou oposição, tendo em vista que qualquer ação pode ser taxada como "comportamento negativo" e, subjetivamente, atribuída ao preconceito relativo à homossexualidade ou a uma quimérica "homofobia".
Os debates que eu já assisti sobre o tema se mostram fiéis a grande parte do que acontece hoje em nosso mundo. Desprovidos de qualquer profundidade, eivados de "palavras de efeito", sentimentalismo barato e ausência de clareza e definição.
Pedir a prisão de alguém por que esse alguém disse o que pensa? Isso é censura brava. Já pediram a minha prisão também e sei bem o quanto isso é revoltante.
Criminalizar algo para o qual os defensores da criminalização não oferecem definição clara. Utilizam uma palavra ao léu, sem se preocupar muito com o que ela significa ou, propositadamente, a utilizando de maneira completamente alheia ao seu real significado, esvaziando seu conteúdo e a preenchendo com suas próprias idéias, elásticas, mutantes e intercambiáveis...
Lamentável mundo onde a ignorância impera.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A necessidade de nada fazer

Vivemos em um tempo em que é bonito ser loucamente ocupado.
Ocupado com o smartphone, ocupado com o facebook, ocupado com jogos, ocupado com fofocas, ocupado com papo furado.
As pessoas nunca têm tempo. É preciso trabalhar e, nesse trabalho, é preciso "fazer coisas" o tempo todo.
Se você não "faz coisas", seu trabalho não é trabalho.
Mesmo que você fique ao computador olhando coisas sem nenhuma importância, o importante mesmo é estar ocupado com algo. Pelo menos, você está lá "se ocupando" com a leitura de lixo inútil e a visão de imagens desconexas, uma atrás da outra.
Matamos o tempo para não perceber que é o tempo que nos mata. Aliás, não matamos o tempo nada. Quem morre somos nós. O tempo continua...
O puro pensar, de acordo com o modo contemporâneo e pós-moderno de ver os fatos, é pura "perda de tempo".
É preciso fazer, fazer, fazer...
E quando não houver o que fazer, então, corra para a frente de uma tela, instale um jogo qualquer e atribua a esse jogo uma importância muito grande.  Iluda sua mente com "aventura" que só acontece na tela. Se sinta "guerreiro" sem correr nenhum risco. Seja um sujeito "aventureiro" e faça seu "nome" mostrando aos outros suas incríveis táticas de matar personagens inexistentes e vencer monstros de luz e som...
Use o smartphone como um aparelho do qual depende sua vida e sua morte. Se ele for desligado, é como se interrompessem o funcionamento de seu pulmão artificial ou da máquina que mantém seu coração pulsando.
Ficar parado, pensando, num ócio filosófico...Nem pensar!
Role a tela do facebook para cima e para baixo, revendo tudo que você já viu no dia de hoje. Lamente a falta de "atividade" nas redes sociais.
O mundo pós-moderno é inimigo do silêncio e do ócio. A palavra "ócio" é vista como representante de algo negativo, é a própria definição de "vagabundagem".
A reflexão, o calmo vagar do pensamento sobre questões da existência, voltar as luzes da razão para dentro de si mesmo e daí retirar definições, axiomas, aforismos, idéias, paradigmas etc., é pura "perda de tempo". 
Semana passada me deparei com uma matéria sobre monges usando i-phones, tablets, i-pads, redes sociais, instagram etc. Dizia a matéria que tudo isso é muito positivo, que faz parte da adaptação que um monge esteja postando "selfies" com sua turma num bar enquanto toma cerveja e come petiscos.
A própria definição da vida de um monge não é a ruptura com os padrões impostos pela sociedade secular?  A vida monástica não é um modo de contemplar a Verdade, refletir sobre a própria vida e dar o exemplo de virtude? Não são virtudes próprias do monge o silêncio, a reflexão, o pensamento e o combate às próprias fraquezas?
Silêncio não é só a ausência de som na boca. Silêncio é a ausência de dispersões interiores, é o foco preciso, livre de interferências, livre de ruídos internos e externos...Não adianta nada manter a boca fechada e estar com a cabeça no smartphone ou no tablet.
Não adianta trajar-se como monge e esconder o secularismo por debaixo do hábito.
A sociedade não valoriza o pensamento. O pensamento, com sua natureza intangível, não é um "produto" e,  portanto, não é valorizável por uma sociedade imediatista e consumista. Só se torna um produto quando é instrumentalizado para o ganho e aí aparecem as "palestras motivacionais", a "auto-ajuda" e toda a abominável indústria que tenta fabricar pseudo-líderes para vender coisas e liderar equipes de autômatos para ganhar dinheiro em cima do vazio da vida das pessoas.
No ano passado, fui convidado a palestrar para professores de Filosofia e filósofos do Estado de São Paulo.
Diante de um auditório lotado, com mais de 800 pessoas, falei durante 45 minutos sobre a busca do Bom, do Belo e do Verdadeiro. Falei sobre o papel da reflexão filosófica na construção da personalidade do homem,  falei sobre a idealização platônica como um paradigma em busca de uma perfeição crescente das ações humanas e de como o verdadeiro filósofo deve fazer de sua vida um exercício filosófico, uma ascese demonstrativa de que a verdadeira felicidade se encontra na prática das virtudes e em uma vida simples e contemplativa.
Ao terminar minha fala, o auditório estava mudo. Muitas pessoas cochilavam nas cadeiras. Eu abri a palestra para perguntas e duas pessoas levantaram a mão. A primeira, uma professora, disse que ela própria era um "exemplo de virtude" pois tinha dormido no sofá para não perder a hora daquele encontro, que trataria de questões importantes  como a falta remunerada e o abono de ponto para os professores da rede municipal e estadual de ensino. A segunda pessoa que levantou a mão era um professor. Ele disse que esperava que os temas das palestras fossem mais voltadas para "o social" e para a "realidade" do professorado. Depois deles, o zumbido dos ventiladores no ar.
Na sequência da minha palestra, um professor da rede estadual de ensino fez uma palestra sobre a implantação de um modelo mais socialista de filosofia, onde os alunos seriam ensinados a participar das lutas do "proletariado da educação" e levariam essa ideologia da "luta de classes em todos os recantos da sociedade" para os pais e amigos. Dentre outras idéias, afirmou que o professor que faltasse à aula para "panfletar" ou para se juntar a algum "movimento social" estava "filosofando" e, portanto, não tinha que ter nenhum desconto na folha de pagamento ao final do mês. Quando terminou essa palestra o auditório estava em chamas, com pessoas agitadas levantando as mãos para falar. Mais de 40 pessoas fizeram perguntas, sendo que algumas perguntas inflamaram debates sobre o aumento de salário, o abono de ponto para quem estivesse numa palestra como aquela, o direito de faltar sem ser descontado etc.
Saí de lá com a nítida sensação de ter cantado para uma platéia de surdos.
O que interessa uma "vida contemplativa", a "idealização", os "paradigmas morais", uma "ascese de virtudes", "o Bom, o Belo e o Verdadeiro" etc., a quem só tem mente para relógios de ponto, bater ponto, ganhar abonos salariais e fazer panfletagem?
Os presentes à minha palestra queriam saber de "atividades sociais" e não de contemplação da Verdade. Queriam "fazer" e não ser. Não compreenderam que o filósofo exerce uma ação sutil, de influência, de exemplo e também de reflexão desapaixonada sobre os fatos, de uma voz da razão em meio ao tumulto febricitante dos que querem agir loucamente.
Não são filósofos os socialistas, comunistas, capitalistas, libertários e politiqueiros de todos os matizes que querem instrumentalizar o pensamento em torno de uma causa política. Filósofos são os que amam a sabedoria, que buscam contemplar a Verdade e que, através de seu ócio e das reflexões dele nascidas, conseguem oferecer uma visão límpida e clara sobre os fatos, propiciando, a alguns, um encontro, ainda que breve, com a Bondade, a Beleza e a Verdade.
Nossa sociedade precisa parar um pouco. As pessoas precisam diminuir o ritmo. Os celulares precisam ser desligados e os livros abertos novamente. 
O silêncio, interno e externo, está se tornando um artigo cada vez mais raro e mais precioso.
Temos necessidade de nada fazer. Precisamos de mais gente ociosa e "inútil".

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A "elite" que não é...

Camisa pólo com "brasão" no peito. Mangas apertadas para mostrar os bracinhos de suflê de batata. Há também a versão camisa social, com botões abertos e mangas dobradas. Camisa cara, de pano bom.
Calça jeans ou sarja, com sapato social. 
Mulheres sempre maquiadas, num estilo que lembra sempre o mau gosto de suas contra-partes masculinas. Vestidos curtos, agasalhos com pêlos saltados, bolsinhas etc.
Celular na mão o tempo todo. Gírias "pra frentex" e muitos "meeeeu", "tiiipo assim" etc.
As posições políticas seguem as do que eles consideram "gente diferenciada". Sabe, gente diferenciada?
As velhas senhoras da "gente diferenciada" têm a cara toda cheia de plástica. Andam bem maquiadas, com umas roupas sociais, laquê no cabelo, anéis, colares e perfume. Olham para os outros com um certo ar de desprezo.
Gostam da palavra "snob", acham que soa elegante. A palavra, em si, é uma contração de "sine nobilitas" (sem nobreza), mas é vista por muitos como coisa de muito chic.
A linha "gente diferenciada" é bem comum em certos locais. Locais caros, onde se chega só de carro.
Gente diferenciada frequenta clubes. Não que eles vão lá para treinar forte alguma coisa. Não...Gente diferenciada não treina forte nada. Tudo é só um deleite, um local de conversas e de vida social.
Gente diferenciada gosta de votar no PSDB. 
Apesar do PSDB ser composto por uma turma bem grande de comunistas da velha-guarda, a "gente diferenciada" não faz grandes raciocínios para perceber ligações ideológicas bastante óbvias.
O candidato a vice do Aécio Neves era guerrilheiro e chegou a assaltar bancos. Isso é só um detalhe.
FHC panfletava com o Lula. Outro detalhe.
Serra foi exilado. Mais um detalhe.
Tudo isso não diz nada sobre a ideologia. Nada. Pelo menos, para a gente diferenciada, não diz nada.
O que importa é que o PSDB não tem aquela cara de pobre e nem fica fazendo referência aos pobres. É gente que tem chic, com comitês em lugares que tem chic. 
Apesar deles acharem que têm chic, eles se dizem chiques. Chic é uma gíria para "classe", usada, a princípio, para ridicularizar a burguesia. Ninguém é "chic", ninguém 'é' classe...As pessoas têm classe, ou seja, têm chic...Mas isso é um detalhe que não importa às pessoas diferenciadas.
A gente diferenciada gosta de mostrar seu status. Seu status vem do dinheiro. Eles não lêem muito, não estudam, não cultuam grandes esforços de virtude e nem têm história familiar muito nobre. Em geral, descendentes de mascates, comerciantes e pequenos proprietários que enriqueceram. Mesmo assim, se sentem a "elite".
A imprensa reforça a fantasia de "elite". O discurso desavergonhado do PT e de outros partidos também reforçam a idéia das "elites". No fundo, a gente diferenciada adora ser vista como "elite".
É curioso como  essa "elite" tem verdadeira repulsão por hierarquia.
Todas as vezes que eu convivi com essa "elite", senti nela a repulsa pelo fato de eu ter sangue nobre e por ser cavaleiro da mais antiga casa real da Europa. Eles também não gostam de me olhar como um eclesiástico. Acham isso tudo muito "démodé". Afinal de contas, ando de carro velho, me visto com roupas baratas, não voto no PSDB e não concordo com quase nada do que eles acham muito bom e até essencial.
A falsa elite está por todos os lados. É a "elite" que não é e nunca será...





sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O espírito protestante e o Budismo

O protestantismo histórico nasce, aparentemente, do debate religioso entre as teses de Martim Lutero e a tradição Católica Apostólica Romana.
Depois disso, como um incêndio que se alastra, o espírito protestante toma conta de grande parte da Europa, multiplicando grupos e tendências que iam desde a doutrina de "justificação pela fé" e "predestinação", até os grupos da Reforma Radical que pregavam a necessidade das boas obras para a salvação e a separação entre cristãos "eleitos" e o resto da sociedade.
Exemplo dos primeiros são os luteranos e calvinistas e, dos últimos,  os anabatistas, mennonitas e amish.
Grafo "aparentemente" por entender que, mais que isso, o que deu verdadeiramente impulso ao protestantismo foi o ódio à hierarquia, à tradição e à disciplina imposta pelo sistema clerical.
Ao longo do texto, procurarei justificar minha posição.
Se analisarmos, por exemplo, o Grande Cisma de 1054, quando Roma rompeu com os demais patriarcados orientais, criando uma Igreja exclusivamente "romana", veremos que as divergências relativas à doutrina eram muito mais profundas do que as que separaram Lutero da Igreja Romana. 
Se tomarmos os grupos das chamadas Igrejas Apostólicas Pré-Calcedonianas, como os coptas, etíopes, siríacos e armênios, veremos que ainda há mais profundas e marcadas diferenças com a Igreja Romana. 
Apesar disso, nenhuma dessas divisões doutrinárias causou o impacto social e o furor que o protestantismo causou.
As Igrejas Ortodoxas e Apostólicas Orientais não vendem e nunca venderam indulgências. Não acreditam e nunca acreditaram em purgatório. Não há dogma da Imaculada Conceição. Os padres podem se casar. Não há definição clara sobre "transubstanciação" (termo aristotélico) e se fala em "transmutação" do pão e do vinho no corpo e sangue de Cristo, também não há infalibilidade papal ...
No caso das Igrejas Pré-Calcedonianas há divergências cristológicas profundas, ao ponto de serem acusados de "monofisitas" e "monotelitas". A tradição siríaca ordena "diaconisas". Não há consenso em relação ao número de sacramentos e nem diferença clara entre sacramentos e sacramentais.
Como fica evidente, as questões que Lutero coloca como "as grandes questões teológicas" de divergência com Roma seriam muito mais facilmente sanáveis do que as divergências entre tais igrejas orientais e a igreja latina. No entanto, há um ponto insuperável no protestantismo: O ódio à hierarquia e à obediência.
Enquanto as igrejas orientais e a igreja latina mantiveram-se fiéis ao princípio hierárquico, ou seja, de comunidades encabeçadas pelos bispos que, por sua vez, se congregam sob um sínodo que é presidido pelo patriarca ou pelo papa, os protestantes abandonaram toda a estrutura hierárquica óssea e bem ordenada para adotarem um sistema gelatinoso de lideranças carismáticas, onde cada "liderança" é "inspirada" pelos próprios apetites e onde, em uma congregação com 150 fiéis, é possível ter 150 teologias diferentes tendo em vista o "Princípio da Livre Interpretação".
Abandonando todo o patrimônio legado pelo passado, de tradição e exegese, os protestantes inauguram a idéia de "Somente a Escritura" (Sola Scriptura), sem darem maior atenção à correta interpretação da mesma.
Sendo assim, as igrejas protestantes se multiplicam abundantemente, sem necessidade de teologia expressa, de tese de sustentação, de clareza hermenêutica ou de qualquer metodologia exegética. Tudo se resume a "sentir", a receber "inspiração", a "pedir ao Espírito Santo que ilumine" etc.
É necessário afirmar que ainda houve um sério agravante nesse quadro. A emergência do pietismo e do pentecostalismo pioraram sensivelmente esse panorama desolador.
De fato, pentecostalistas e neo-pentecostalistas crêem-se inspirados diretamente pelo Espírito Santo que visita os cultos e fala com eles em sessões recheadas de música alta, gritos, danças, espasmos musculares, fonemas sem sentido, pedidos que variam desde a cura de frieira até a solução de problemas financeiros e amorosos.
Os cultos são completamente irregulares na maioria das vezes. Não há ordenamento litúrgico nenhum, nenhum objetivo determinado, tudo sendo inundado pelo mais primitivo sentimentalismo, pelas ondas de sensações, pela pregação da liderança carismática que conduz o culto como bem entende e de acordo com o que "sente". Tudo é programado para mexer com a emoção e trazer à tona os mais comezinhos problemas como se fossem "questões espirituais".
O papel do Diabo e dos demônios é também muito importante.
O Diabo e os demônios são "expulsos" por que causam doenças, problemas financeiros, familiares, vícios etc. e impedem o pleno gozo da vida.
O papel do mal é subvertido. Se antes o Diabo e os demônios se dedicavam a tentar virtuosos eremitas, na tentativa de fazê-los pecar, apostatar, desesperar da própria salvação e perder a virtude, nos cultos pentecostais de hoje o papel do Diabo é dar dor na coluna, fazer perder o emprego, gerar dívidas, encher a cara e impedir o sujeito de ter casa própria, carro e dinheiro.
Santo Antônio do Deserto (chamado "O Grande") foi tentado por um imenso disco de prata caído no deserto. Os pentecostais são testados ao contrário, já que os demônios os deixam sem nenhuma prata e Deus a restitui a eles como prêmio por suas rezas e clamores.
Não há nenhuma necessidade de doutrina teológica estabelecida nesse meio. O pastor é um "inspirado". A "teologia" pode ser qualquer uma e, de fato, há algumas instituições que vendem diplomas de "teólogo" evangélico e credenciamentos de teólogo e de pastor pela internet. Não importa a igreja, a formação ou seja lá o que for. Títulos de "pós-graduação" também estão disponíveis por módicas quantias. Se o indivíduo desejar, pode ser ordenado em um grande culto que é marcado por essas instituições. Divergências teológicas, enunciados claros etc., não existem.
Há também manuais para "fundar seu próprio ministério". Os fiéis são cativados pelo "carisma" do pastor, ou seja, pela capacidade do pastor em atender as demandas pessoais dos fiéis. Se o pastor não atender essas demandas, é fácil, basta mudar de igreja. 
Os fiéis não vêem no pastor um fiel intérprete ou um guardião do depósito da Tradição. Vêem no pastor alguém que pode lhes conseguir soluções, bençãos, ensinar a lidar com problemas diários e que as faz "sentir" algo ou as inspiram a agir de um jeito que satisfaça suas necessidades emocionais.
É um tipo de xamã, de primitivo curandeiro que entra em contato com forças misteriosas que ele domina e coloca à disposição de sua vontade.
O pastor tem que fazer o fiel "sentir Deus", "sentir a presença do Espírito Santo" etc., sem necessidade de transmitir ou justificar nada com base em coisa nenhuma. A teoria que o pastor ou a igreja propõem é completamente irrelevante e, justamente por isso, é fácil trocar de igreja e se voltar contra um e defender o outro de acordo com as próprias vontades e "inspirações".
Para o Budismo, essa estrutura de pensamento é completamente catastrófica.
A comunidade budista, tradicionalmente, é hierárquica e ordenada em cima de uma estrutura quádrupla: Monges, monjas, leigos e leigas.
Os sutras trazem, abundantemente, as demonstrações de respeito dos discípulos em relação ao Buda. Descobrir o ombro, prostrar-se, juntar as mãos e prostrar-se, circuambular em sentido horário, sentar-se ao lado etc.
Além disso, os sutras estabelecem que os monges nunca devem pregar de um plano inferior aos leigos, que o mestre deve estar sentado confortavelmente enquanto ensina o Dharma e num assento mais elevado que os discípulos. A ordem ao se sentar em uma comunidade varia de acordo com o tempo de vida monástica, e mesmo monges muito idosos devem ceder lugar aos jovens se esses foram ordenados primeiro.
Os leigos precisam se levantar sempre que um monge entre em um ambiente. Se um leigo de 80 anos estiver sentado em um local e entrar nesse local um noviço de 15 anos, o leigo deve se levantar e saudar o noviço respeitosamente. No entanto, se esse noviço estiver em um local e um rei de 80 anos entrar, ele não precisa se levantar.
Na China Imperial, os únicos que não precisavam se levantar e se curvar diante do Imperador eram os monges.  
Os superiores dos templos, os abades (zhuchi 住持), são os "Residentes Portadores do Dharma" e, mesmo que sejam jovens, são denominados de "ancião" (zhanglao 長老). 
O abade é o ápice de uma hierarquia múltipla e complexa nos templos grandes. Nada se faz sem seu consentimento e a ele é devida uma reverência similar a que se deve ao próprio Dharma personificado.
A liturgia budista reflete com clareza sua filosofia. Todas as doutrinas expostas devem estar baseadas firmemente nas escrituras e nas tradições registradas pelos intérpretes ortodoxos (shastras, abhidharma e tratados contidos no cânone), sem invenção, sem "inspiração" e sem nenhuma "livre interpretação". A própria interpretação dos textos deve estar de acordo com métodos exegéticos bem estabelecidos pelos grandes mestres do passado.
Adaptar as doutrinas às necessidades modernas é um trabalho árduo e que deve ser realizado com cuidado e imensa parcimônia, sempre tendo como guia doutrinas bem estabelecidas na milenar tradição.
Comunidades budistas modernosas, que adoram falar em "democracia" ou em que não há uma hierarquia claramente estabelecida, estão fadadas ao caos e a um tipo de reprodução do que acontece nos meios evangélicos-pentecostais.
"Budismo" gelatinoso, sem hierarquia, sem estrutura óssea, onde cada um faz e pensa o que bem entende, onde não há mestres e discípulos, mas "facilitadores" e "palestrantes" em vez de autênticos Portadores do Dharma, não é Budismo.
O famoso fenômeno do "pula-pula", onde pessoas desequilibradas e instáveis pulam de uma organização religiosa para outra, em busca da mandinga mais poderosa, é reflexo desse estado de coisas. Se não há mestre, nem Portador do Dharma, nem cânone, nem base teórica estruturada etc., então não há razão para se estabelecer uma relação firme com o que quer que seja e cada um faz o que bem entende. A pura mentalidade protestante em ação.
No entanto, onde há mestre, onde há Portador do Verdadeiro Dharma, onde há base teórica estruturada, sair dali é o mesmo que trair o próprio Dharma. Virar as costas ao mestre não é desprezar uma pessoa. É desprezar o que aquela pessoa representa, é subverter a ordem adequada da prática em nome dos caprichos, das vaidades, do orgulho e da própria ignorância.
Só se abandona uma Sangha se essa Sangha pregar/praticar heresias, pregar doutrinas não estabelecidas no cânone, praticar clara e indubitavelmente a quebra sistemática dos Preceitos, introduzir doutrinas não budistas ou práticas não budistas na comunidade, se houver impedimentos graves na compreensão do Dharma (língua, costumes etc.) ou se, sendo um praticante do Mahayana, perceber que tal comunidade é pertencente ao Hinayana ou que favorece as práticas Hinayana em detrimento do Mahayana, e ainda se houver a perversão ou a deturpação dos verdadeiros significados do Dharma por uma interpretação equivocada, que não segue o que é estabelecido pela autêntica tradição budista.
Fora desses motivos gravíssimos, abandonar a Sangha é trair a própria tomada de Refúgio nas Três Jóias.
No mundo religioso de hoje as idéias protestantes, com sua explosão de ódio à toda hierarquia e sua insubmissão às tradições verdadeiras, são onipresentes. 
Nos ambientes católicos há a "Renovação Carismática", onde o papel sacramental da hierarquia é substituído pelas lideranças amorfas, pelos animadores e pelos grupos que se consideram a si mesmos como "portadores de carismas" por externarem de maneira emotiva e, por vezes, histérica, seu fervor religioso.
Em geral, pessoas completamente ignorantes em matéria de religião, de teologia, de filosofia etc., se sentem tranquilas em criticar ao Papa, aos teólogos e a quem mais lhes aprouver em suas mesas de boteco ou cervejadas entre amigos.
Em algumas comunidades cristãs ortodoxas orientais, alguns fiéis se sentem bem à vontade para corrigir aos clérigos e até zombar deles, tratando-os como a iguais, sem grandes considerações em relação ao seu estado clerical.
No Budismo, a praga do igualitarismo, do bicho-grilismo e das idéias revolucionárias já corroeu quase todo o edifício, sobrando, aqui e acolá, quiçá, uma ou outra comunidade que se mantém dentro das bases de hierarquia e disciplina.
Se antes os discípulos tomavam pancadas, bastonadas e eram lançados de janelas com reverência pelos mestres, hoje basta uma bronca para que o espírito protestante de insubmissão se manifeste e o orgulho brote como um fluxo de água represado. Não importa que o Dharma seja precioso e que a reprimenda do mestre seja uma valiosa lição. O que importa é o orgulho, a vaidade, o apego ao próprio ego inflado...
O homem moderno parece ter sido infectado por um vírus que o torna frágil, volúvel, romântico, cheio de apreço por uma vaidade estúpida que é ocultada sob o manto do "politicamente correto". Todo o discurso de "respeito ao próximo" tão caro ao homem moderno é, na verdade, um disfarce para sua própria incapacidade de lidar com críticas que firam seu ego de seda.
É preferível não ter nenhum progresso e nenhum auto-desenvolvimento do que ser repreendido. Assim se formam as  sombras humanas do mundo moderno. 
Fistula dulce canit, volucrem cum decipi auceps (A flauta toca suavemente enquanto o passarinheiro apanha o pássaro), já disse Catão.
A natureza é aristocrática, hierárquica e anti-igualitária. Quanto mais se desrespeita esse princípio, maior o caos que se traz para a humanidade.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Eleições 2014

P. Arya,

Você está acompanhando o programa eleitoral? Está vendo os debates? O que acha?

R.: Nem uma coisa nem outra.
O programa eleitoral é feito para turvar a capacidade de raciocínio de quem assiste. A ênfase é a emoção, despertar "sensações", "impressões sensoriais" e, assim, convencer.
Por incrível que isso pareça, essa tática funciona. O recurso ao discurso poético-retórico da política tem exatamente esse objetivo, ou seja, suscitar nas mentes da audiência um turbilhão de imagens que se associam a sentimentos, a lembranças subconscientes etc., que acabam por "convencer" de maneira irracional, mesmo que, aparentemente, seja uma escolha racional.
O Facebook, atualmente, tem sido usado como um recurso adicional dessa mesma tática. Cartazetes, palavras de ordem, tablóides, notícias "bombásticas", previsões apocalípticas etc., servem para turvar a real capacidade de análise.
Ler os argumentos de um debate e assistir ao debate são coisas completamente diferentes. Muitas vezes, a vitória em um debate que se assiste é a do mais teatral, do que sabe apelar mais para a emoção e do que se expressa mais adequadamente de acordo com as predisposições da platéia. Já no caso da leitura dos argumentos, é mais fácil identificar as falácias, as inconsistências e a falta de objetividade. Mesmo porque, você pode ler, reler, parar para pensar, tomar um café, voltar depois e deixar seu cérebro ir buscando argumentos e novos questionamentos, sem a pressão do imediatismo televisivo.
A minha análise da atual campanha eleitoral é feita de várias formas diferentes.
Leio os jornais e procuro, assim, me inteirar do que fizeram REALMENTE aqueles que prometem fazer "ainda mais". Depois disso, busco os documentos com metas e propostas de campanha, além de fazer uma acurada análise da trajetória política e das bandeiras defendidas por um ou outro candidato.
Não acredito em "pesquisas" pois não sei onde foram realizadas essas pesquisas, com quais critérios e qual é a real representatividade desses resultados se comparados com um panorama global.
Não voto em ninguém por ele ou ela adotarem uma ideologia em bloco X ou Y, nem por pertencer ao partido X ou Y.
A populaça adora tirar conclusões assistindo TV ou repetindo asneiras que ouviu no boteco ou na feira. Eu prefiro ser mais cuidadoso...

Budistas, facebook, smartphones, glamour etc.

Observando as pessoas pelas ruas ou tendo acesso às redes sociais como o Facebook, é fácil perceber o quanto as pessoas de maneira geral estão envolvidas com as novas tecnologias.
Há algum tempo atrás, vi um sujeito dando com a cara num poste metálico de sinalização (aqueles que sustentam placas) porque estava olhando o smartphone.
Também já vi gente pisando em buracos, parando no meio da faixa de pedestres para olhar mensagens, parando na porta de lojas (impedindo o fluxo de entrada e saída) e outras simplesmente hipnotizadas olhando fixamente para a tela enquanto comiam. Duas pessoas, uma sentada de frente para a outra, não se falavam, mas olhavam para o celular.
Me parece que ninguém mais consegue ficar simplesmente parado respirando. Um segundo, um pequeno espaço de tempo (como subir ou descer dois andares de elevador), é o suficiente para que alguém saque o celular e comece a dedilhar a tela.
Salas de espera são verdadeiras "centrais de informática", tendo em vista que as secretárias estão com a cara na tela do computador e os que esperam estão, invariavelmente, com seus celulares na mão, os olhos fixos, a cara apatetada.
Tudo precisa ser comentado e fotografado. Uma média e um pão com manteiga na padaria da esquina precisam ser "registrados" e enviados com "filtros" (coloração alterada etc.) para o "Instagram", "Twitter" e não sei mais o que.
Outro fenômeno extremamente desagradável são as tais "selfies", onde as pessoas fazem carinhas felizes, engraçadas, ou micagens ridículas para parecerem "legais" e "descoladas" nas fotos que elas mesmas tiram. 
Há pessoas cuja vida parece ser dedicada à micagem e à auto-promoção pelo modo mais imbecil possível. Fotos e mais fotos, em todos os ângulos, situações, posições etc., geralmente acompanhadas de comentários dignos de um entrevado mental. Há também os que fazem os tais comentários idiotas em inglês, porque aí é mais "in", mais "fashion".
Aliás, a coisa do "in", "fashion" e do "glamour" é também um pé no saco.
Uma gente feia, ignorante, sem educação, com aquela parede podre ao fundo, mostrando o quanto é "glamourosa" com seu i-phone, seu tablet, sua roupa não sei de qual marca, seu relojão ridículo no pulso etc. A descarga da privada não funciona e a casa não tem um livro, mas tem i-phone, i-pad, i-fod e sei lá mais quantos "is".
O indivíduo inculto, sem nenhuma gota de bom gosto e bom senso, sem saber o que é realmente adequado ou minimamente elegante e decente, sempre que quer parecer "fashion", "glamour" ou "chic", se torna detestavelmente ridículo e maçante. Uma das coisas mais maçantes da face da Terra é aquele sujeito provinciano, burraldo, sem repertório cultural mínimo, que quer bancar o "elite" ou o "diferenciado". Aí, ele mete uma combinação de roupa ridícula (que comprou no "xópin" e, portanto, é "chic") uns colares, relógio etc., e sai "abafando" geral...Você o convida para comer uma pizza e ele surge "chic" de roupa social e com a mulher maquiada para um picadeiro e com vestido de gala.
Há também a detestável raça dos "alternativos", sempre tão cheia de cores vivas (no cabelo, nas roupas, nos acessórios), de cortes bizarros de cabelo, de meionas listradas, chapéuzinhos , óculos escuros ou aqueles que parecem farol do jipe de tão grandes e aquela linguagem "miguxa" e cheia de maneirismos (todxs, tod@s, bike, reaça, coxinhas etc.) e que também é suuuuper ligadaaa em tecnologiaaa meeeu e toda hora posta alguma bosta no "insta" ou no "feici" e sempre passando uma "mensagem legal" ou algum tipo de "ativismo" ou liçãozinha de "conscientização" (sem contar aquelas coisas de desenho japonês ou de cosplay etc.).
Tudo isso se encontra reunido nas redes sociais como o Facebook.
Lá, o sujeito que nunca leu um livro sobre política é especialista em política. Pessoas que não entendem nada sobre filosofia dão "lições de moral". Pessoas que nunca leram um livro de História, dão copiosas lições e tecem análises históricas e conjunturais. Completos imbecis compartilham sua própria imbecilidade, colocando fotos, comentários e amostras de sua própria nulidade interior. E, é claro, sempre há quem "curta".
Todas essas observações mostram uma sociedade doentia.
Não há autenticidade. A necessidade de apresentar algo fora da própria realidade, de ser alguém que não se é etc., mostram um profundo vazio interior e uma insatisfação geral com a própria realidade.
Os sutras ensinam que devemos prestar atenção ao momento presente, que não devemos desperdiçar as experiências e as observações que nosso dia-a-dia nos proporciona. Como alguém vai prestar atenção ao que quer que seja se está sempre com a cara enfiada na tela do celular? Como podemos conversar, compartilhar experiências pessoais, observar o outro (ao vivo, com suas emoções, expressões, voz etc.) se estamos sempre preocupados em ver "mensagens" e obter notícias que não nos dizem respeito?
A sociedade está se habituando, cada vez mais, a viver na mentira, no faz-de-conta, na imagem dos filtros, das telas, das montagens. As pessoas estão ficando mais preocupadas em saber das "atualizações" das redes sociais do que em prestar atenção à própria vida, ao desenvolvimento pessoal real e ao próprio crescimento interior. Preferem conversar com o "amigo virtual" que está a centenas de quilômetros de distância do que com a esposa, o marido, o filho ou o amigo que está ali, na sua frente.
A necessidade de se encher de capas (tanto as capas "alternativas" quanto as capas "glamourosas") refletem uma profunda ânsia de se esconder, ou seja, de ser visto através de uma lente que distorce a verdade sobre nós mesmos.
A necessidade de se colocar como "sábio", "esperto", "bem informado" etc. sem ser nada disso, é uma mentira dupla: Para si mesmo e para os outros.
As pessoas estão cada dia mais cercadas de interferências. A todo momento soa um alarme, um bip, algo vibra, uma musiquinha toca...E, cada dia mais, essas mesmas pessoas estão criando necessidades irreais. Elas "precisam" de celulares cada dia mais avançados, de tablets, de notebooks, disso, daquilo e daquilo outro...É preciso mostrar que tem, é preciso usar essas coisas o tempo todo, como se fossem aparelhos médicos que nos mantêm vivos. Não desliguem as máquinas, o paciente morrerá!
O Budismo ensina a busca por uma vida sem apegos e simples. Ensina que devemos prestar atenção ao nosso dia-a-dia. Ensina que devemos ser honestos e verdadeiros, autênticos. Ensina que não devemos nos apegar loucamente à nossa auto-imagem e ao nosso eu ilusório. Em suma, ensina o contrário de tudo aquilo que nossa sociedade doentia vem praticando com fervor.



domingo, 14 de setembro de 2014

Para quem quer obter mais alguma informação sobre Linhagens e Escolas

Novo texto no site oficial traduzido do inglês pelo Upasaka Pundarikakarna (Marcelo Prati) diretamente da Itália para o site da THIRB.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Liturgia budista

P. Caro Arya,

1-Na sua concepção, como deve ser a liturgia budista para os brasileiros?

R.: A liturgia budista, de maneira geral, deve se guiar pelo princípio de nobre simplicidade, ou seja, nada apalhaçado, vulgar ou excessivo. 
A liturgia deve ser voltada para o objetivo central, que é a transmissão e a meditação dos ensinamentos do Dharma.
A utilização dos instrumentos que acompanham tradicionalmente as liturgias (peixe de madeira, tambor, sino, címbalos etc.) deve ser realizada com prudência e circunspecção, de forma que os sons não abafem a mensagem que está sendo recitada.
Obviamente, os textos devem ser recitados em língua vernácula e de forma clara e audível. Nem se recita baixo demais nem há necessidade de berrar.
Recitar de forma cantada ou falada é uma questão de avaliar a situação. Se a recitação cantada vai atrapalhar a clara compreensão do que se recita, então é melhor que apenas se fale o texto.
A parte cerimonial da liturgia (os deslocamentos dentro do templo, deitar o incenso granulado, os mudras, as prostrações etc.) deve ser simples e objetiva, evitando futilidades, deslocamentos desnecessários, gesticulação excessiva e outras coisas do gênero. O presidente da celebração não deve chamar atenção sobre si mesmo e nem distrair as pessoas que estão na assembléia com meneios, balancês, falas fora do contexto, maneirismos etc.
Obviamente que liturgias com "bicho-grilagem" do tipo violão, dancinhas, balanços de mãos etc., estão completamente fora de questão.
Não deve haver na assembléia durante as liturgias nenhum tipo de coação ou "instrução" para que se faça isso ou aquilo. As pessoas devem se inteirar naturalmente dos procedimentos litúrgicos sem que haja alguém gritando ou "instruindo" (como fazem alguns templos chineses, colocando gente impertinente para gritar no ouvido das pessoas e que, ainda por cima, "instruem" errado), pois tal conduta tende a distrair a mente do que está sendo recitado.
O ideal é que as liturgias não sejam longas demais e que não desgastem as pessoas que delas participam. Liturgias que passam muito de uma hora, uma hora e meia, tendem a ser maçantes, desagradáveis e inúteis (tendo em vista que a maioria das pessoas já está, há muito tempo, querendo que aquilo acabe logo).
Muita afetação, como dezenas de prostrações, gesticulação a todo momento ou cantorias, tendem a tornar a liturgia um ato teatral de mau gosto que não cumpre com seu objetivo.
Para resumir podemos dizer que nobre simplicidade é igual a objetividade, bom senso, brevidade, língua compreensível e bom gosto.

2- E os templos, altares etc.?

Da mesma forma que a liturgia, o espaço celebrativo deve ser resguardado de todo tipo de coisa supérflua.
Altar não é lugar para enfiar toda e qualquer bagulhada com cara "oriental" e nem para se ficar improvisando.
O altar deve ser nobre e digno, ainda que simples e sem excessos.
É melhor que se coloque poucos e dignos objetos, feitos de material nobre e sólido, do que se encha o altar de coisas estranhas aos atos litúrgicos.
Em geral, algumas imagens (exclusivamente budistas e poucas!), vela, incensário, um vaso com flores, uma oferenda de água e alimento e mais nada.
É recomendável que os objetos de altar sejam realmente confeccionados para o altar. Xícara de café, copinho de pinga, pires etc., devem ficar no armário da cozinha. Colar velas em pires ou outras barbaridades do gênero não se justificam.
Nada de fazer o altar de depósito de rosários, ou espalhar livros litúrgicos sobre ele. Deve-se ter uma mesinha ou um atril (porta livros) com esse objetivo. Fotos de parentes mortos, ihais etc., não devem disputar espaço com imagens de Budas e Bodhisattvas.
Templo é espaço de prática litúrgica, de meditação e de reflexão. Não é depósito. Altar é um símbolo da mente que aspira a Iluminação, não vitrine de lojinha de importados...



segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Prajnaparamitastotra - Louvor à Perfeição da Sabedoria


Traduzido para o italiano por Raniero Gnoli
Vertido para o português pelo Upasaka Pundarikakarna



1. Homenagem à Ti, ó imensurável e perfeita Sabedoria, além de toda representação mental! Todos os Teus membros estão além de toda culpa, Tu, contemplada por aqueles que estão além de toda culpa.

2. Imaculada como o espaço, além todo argumento discursivo, de toda palavra, quem Te vê como realidade, vê o próprio Tathagata!

3. Entre Ti, rica de santas virtudes, e o Desperto, mestre do mundo, os sábios não encontram mais diferenciação entre a lua e a luz da lua.

4. Aqueles que, cheios de compaixão, se achegam a Ti, aqueles aos quais tens anunciado o Dharma do Desperto, tais atingirão facilmente, ó Bela, a majestade sem igual.

5. Sendo puros de coração, mesmo que apenas por uma vez Te tenham visto, o sucesso de tais é então certo - ó Tu, cujo simples vislumbre oferece os frutos!

6. De todos os heróis que se consagraram ao benefício do próximo, ó Tu és aquela que nutre, a genitora, a mãe cheia de amor!

7. Os Despertos, os piedosos mestres do mundo são Teus filhos, e assim Tu, bendita, és a avó de todos os seres.

8. Toda imaculada perfeição, em cada momento, Te circunda, do mesmo modo que as estrelas cortejam o crescente lunar, ó Tu, santa, ó Tu, desprovida de manchas!

9. Dotada de muitas formas, Tu estás em todos os lugares, invocada sob os nomes diversos dos Tathagatas, de forma a converter os seres.

10. Não diferente de gotas de orvalho sob o sol ardente, os deficiências e as teorias dos estudiosos, diante de ti desvanecem.

11. Aparenta-te terrível, Tu geras o terror nos estúpidos; aparenta-te doce, gerando a confiança nos sábios.

12. Aquele que, dotado de Tua proteção, não sente afeto por Ti, como pode, ó Mãe, sentir afeto ou ódio por outra coisa?

13. Tu não vens de parte alguma, nem vai a parte alguma; e em nenhum lugar é percebida pelos sábios.

14. Mas não ver-Te dessa maneira, é como ter obtido e atingido a Liberação Final - ó, quão extraordinária compreensão!

15. Aquele que Te vê é aprisionado, aquele que não Te vê é aprisionado. E aquele que Te vê é liberado, assim como aquele que não Te vê é liberado!

16. Pois Tu és surpreendente, profunda e gloriosa; Tu és difícil de conhecer e, como por mágica, Tu és vista e não és vista.

17. Tu és venerada pelos Despertos, pelos Pratyekabuddhas e pelos discípulos. Tu és o único caminho da liberação e nenhum outro existe, certamente!

18. Os protetores do mundo, movidos pela compaixão, falam de Ti e não falam, servindo-se da linguagem comum para que sejam compreendidos pelos seres.

19. E quem é capaz de louvar-te, desprovida de signos e letras? Que transcenda o reino da palavra, sem apoiar-Te em lugar algum?

20. Mas, não obstante as coisas sejam assim, nós Te louvamos da mesma maneira, segundo a realidade convencional, por intermédio de tais palavras - Tu, que estás além de toda homenagem. E louvando-te somos satisfeitos e felizes.

21. Que os méritos que obtive com esta homenagem à Perfeita Sabedoria possam ajudar a todos os seguidores a atingir tal Sabedoria sem par!




segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Rosário Budista: Origens, utilização etc.

P. Revdo. Dharmananda,

Gostaria de saber em que sutra está baseado a utilização do rosário (juzu, nenju).
Obrigado!

R. Está baseado no Munimandala-Sutra ou Mounimantuoluojing.
Nesse sutra, o rosário é chamado de bosaimo ou shuzhu.
O sutra afirma que o rosário é um "instrumento que auxilia a concentração da mente e a disciplina da prática".
Há um outro sutra, o Aristaka-Sutra (Muhuanzijing) onde há o seguinte relato:

"Certa vez havia um soberano chamado Boliuli. Ele disse ao Buda: "Sendo meu país pequeno e localizado em uma região remota, eu tenho me sentido inseguro. O depósito do Dharma é tão profundo e amplo que é impossível para uma pessoa praticar tudo. Por favor, ensine-me os fundamentos do Dharma"
O Buda respondeu: "Se você quer aniquilar seus obstáculos mentais, faça um colar de contas, furando um buraco em cento e oito sementes de fruta-de-sabão (sapindus saponaria, conhecida no Brasil como jequitiguaçu), e carregando tal colar consigo o tempo todo. Relembre o nome dos Três Tesouros: 'Namo Buddha, Namo Dharma, Namo Sangha', e depois de completar cada repetição dessa frase, mova uma conta com seu dedo indo para a outra e, dessa maneira, gradualmente alcançando cento e oito vezes até dez mil vezes. E se você não sentir distúrbios físicos e mentais, então você será capaz de abandonar essa vida atual e renascer no Paraíso Yama, que é preenchido com a Suprema Luz. Quando você alcançar o número de um milhão de vezes, você será capaz de remover os cento e oito obstáculos kármicos e, dessa maneira, realizar o fruto da Eterna Bem Aventurança."
O rei então respondeu que assim como fora instruído ele agiria."

Há outros sutras com passagens significativas sobre a utilização das contas.
No Sutra do Lótus, no capítulo Samantamukha (XXIV) há a passagem em que Akshayamati oferta a Avalokitesvara um valioso colar de pérolas, que o reparte entre Shakyamuni e Prabhutaratna.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Por que Tendai?

P. Olá Aryasattva Dharmananda,

Se você não tem ligação com o Japão e nem com a China, porque foi colocar o nome "Tendai Hokke" na sua escola?
Pq vc não inventou outro nome? Isso te livraria de um monte de problemas não é?


R.: Por que a linhagem Tendai começa com Nagarjuna que nunca pisou na China e morreu tanto tempo antes do segundo Patriarca, Hui-wen? Por que motivo Hui-wen e Hui-ssu se diziam discípulos de Nagarjuna? Por que não inventaram um outro nome, chinês...Isso não os tornaria mais confiáveis?
Por que Hui-ssu é o terceiro patriarca na linhagem se, segundo as esparsas informações que temos sobre ele, era um auto-ordenado?
Hui-wen e Hui-ssu pisaram alguma vez no Monte Tiantai? Então, por qual motivo são dessa Escola?
Por que Kumarajiva é um dos patriarcas, sendo que nunca se encontrou com nenhum outro patriarca Tendai? Por que o próprio livro do Sutra do Lótus aparece como um dos patriarcas? E por que o leigo Fu Ta Shih também é um dos patriarcas?
Por que a linhagem Ryozen diz que as pessoas que compreendem e praticam o Sutra do Lótus receberam os ensinamentos diretamente no Pico do Abutre? E por que o Sutra do Lótus afirma que Buda continua pregando no Pico do Abutre?
Depois de responder tudo isso, talvez você compreenda.
Seria um tanto curioso se eu que SIGO OS ENSINAMENTOS DE TIANTAI, tivesse que inventar outro nome...

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Reconhecimento de instituições japonesas

P. Arya, a Shinnyô-En e a Agon-Shu são escolas reconhecidas pelos budistas em geral?

R. Sim.
Elas não fazem parte da Federação das Seitas Budistas do Japão pelo simples fato de não desejarem. São reconhecidas em diversos países como Sri Lanka, Tailândia, China e Taiwan.
A Shinnyô-En foi fundada por dois "Dai-Ajaris" da Escola Shingon Daigo-Ha. A atual líder também é uma "Dai-Ajari" da Daigo-Ha e foi a primeira mulher a presidir uma celebração no "Hondô" (Salão Principal) do Templo Daigo Samboin.
A doutrina da Shinnyô-En tem médiuns, mensagens de espíritos, curas espirituais, reencarnação etc.
De fato, uma das doutrinas fundamentais dessa instituição é a orientação espiritual através dos dos filhos do fundador, mortos ainda quando crianças (ryôdoji).
Atualmente, há um templo dedicado ao fundador da Shinnyô-En dentro do Daigoji Samboin. Se chama "Shinnyô-Sanmaya-dô" ou "Salão do Sanmaya Shinnyô":



O título de "Grande Acharya" da atual líder foi concedido com grande pompa pelo "Daisojô" (Grande Arcebispo) da Escola Shingon Daigo-Ha.
No caso da Agon-Shu, o fundador foi titulado pela Shingon-Shu Omuro-Ha e é reconhecido pelo escritório do atual Dalai-Lama, tendo, inclusive, relações bastante estreitas com ele:


Já em 1984, ele e o Dalai-Lama conduziram juntos uma cerimônia do fogo (Homá), cada um em um altar:


Além disso, a Agon-Shu é reconhecida por diversas instituições Theravada (no Sri Lanka) e outras muitas na Ásia (Mongólia etc)

Selo comemorativo do Sri Lanka com o fundador da Agon-Shu.

Passagens interessantes dos livros de Seiyu Kiriyama:

"A glândula pineal, cujas funções começaram a ser entendidas finalmente, é uma pequena glândula coniforme grudada no lado de baixo do cérebro, que se supõe seja o vestígio do terceiro olho que o ser humano vem herdando de seus antepassados, desde a era primitiva."

"...o ser humano, de fato, possuía o terceiro olho. De fato, ainda possui. Encontramos claras evidências quando examinamos as glândulas endócrinas (!?), que exercem papéis primordiais no corpo humano."

"Além desses dois (olhos), na verdade havia um outro olho que estaria ligado ao cérebro no hipotálamo do diéncefalo. É justamente esse que chamamos de terceiro olho, e que nos possibilita enxergar o mundo espiritual."

"Naturalmente, para o terceiro olho ter se fechado, há uma grande razão. O campo da espiritualidade, que está localizado no hipotálamo do diencéfalo..."

Reconhecimentos interessantes, não? Coisa muito valorizada em certos círculos aqui no Brasil...